Os Pássaros Quotes

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Os Pássaros Os Pássaros by Célia Correia Loureiro
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“Ela julgava estar a afogar-se, mas ignorava o facto de sermos dois náufragos naquela sala: um que lia para expelir o mar dos pulmões, outro que dormia, consciente que a dor nos perseguia mesmo no sono.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“Eu ansiava por saber se havia mais, se ele era mais, se havia um vestígio de humildade, de insegurança, de ternura nele. E queria vê-lo comovido, deixar-se da pretensão que eu via no Somerset e embrenhar-se na complexidade relacional do E Tudo o Vento Levou ou de O Monte dos Vendavais. Precisava de saber se ele tinha um bom coração. Se tivesse, eu perdoar-lhe-ia todas as grosserias. Entendi que o desejava, muito, com o ardor com que se deseja tirar as sandálias sobre um chão de tijoleira, no verão.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“A tua mãe tinha a graça de uma ballerina; beleza oculta em triste fado.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“Ela não estava realmente lá. A azeitona negra da sua íris, onde a cresta fora outrora tão doce, era agora baça e inactiva. Enganchou os braços um no outro e olhou-me. Era como se um deserto me olhasse. Árido, cego. Não me via nem via a malafaia no copo aos meus pés. E aqueles lábios vinham grudados, despertos de um sono sobressaltado, ainda que regado a calmantes e soporíferos. Eu apenas sabia que, num momento, o corpo dela não estava lá e, no outro, já existia sob a ombreira da porta da nossa sala, à soleira da porta da nossa vida menoscabada. Vinha de cabelo encrespado e inanimado sobre os ombros, e havia nela uma inabilidade para se mover – para viver – evidente.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“Éramos duas garças na costa, de asas húmidas na areia. A (oc)cisão veio e levou-nos. Incubámos. Morremos. De(xis)istimos.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“«Sabe, meu amor, que te amo. E que te amarei até morrer. É por isso que todo o resto me parece tão pouco, um nada imenso de nenhum valor. Sabe que te choro e te venero, e sobretudo que te espero. E sabe que te vejo, com olhos de quem vê, e que te conheço, como só conhece um livro quem o lê. Sabe que à amargura dos dias subtraí a doçura de te ter. Sim, o cintilar da vida, ao meu redor, por te ter. Por saber-te nunca muito longe, embora raramente aqui. por saber que, nos teus olhos - laivos de mel e coisas mais profundas, lucidez e racionalidade - leio que também me lês. Deslizemos agora para o silêncio, perfeição. Não vejo já necessidade de prender a tua mão, pois que sinto que te prendi. Ao teu olhar, que se enreda no meu. que estranhas asas povoam as minhas entranhas, murmuram a meus ouvidos. que grande és, que tola sou. Sabe, meu amor, que tenho plena consciência das nossas dimensões. Basta-me ter-te assim, como te tenho, para seguir pela vida a sorrir. Em mim não se apagarão mais luzes, em mim, à noite, acendem-se as estrelas. Fosse eu firmamento, e tu o cimento com que se constrói o mundo. Sem nós, nada. Reservatório de tudo. Conheço-te, milagre maior, e tenho-te, não podia ter-te melhor. Porque caminhas a meu lado, não acorrentado a mim. Porque me beijas a testa e porque te louvo as mãos. Homem honesto. Amor maior. Porque me guias na escuridão das ingenuidades - resquícios da infância - e porque não me apontas caminhos, descreves-me paisagens. Sim e não, talvez e também. Veremos o que dali vem. E eu, a teu lado, que tola sou, pequena e feliz, que feliz é quem amou assim um grande amor. Ecos de palavras, distantes. Que importa se não somos amantes? Se nunca o seremos? Sei que te amo e, nalguma linguagem, sei que me amas também. Se é na matemática dos racionais, se na pureza dos amigos, se no secretismo dos poetas, isso não sei. Sei que te carrego em mim e que, se fechar os olhos, me sorris. Estás comigo a todo o instante. Não te guardo em caixas, fotografias ou objectos. Caberias lá tu em caixas, mundo, permanecerias lá tu imóvel, como os objectos, vida. Quanto muito, vejo-te às vezes num livro cá por casa. Mas sei-te, e sei-te quase de cor. Não quero saber-te, na totalidade ou de cor. Não o poderia, é inalcançável. Tão grande és tu, que não acabas. Em mim nunca acabarás. A felicidade que a tua volta me trouxe. E sabe que vou chorar, «a cada ausência tua eu vou chorar». Mas não lágrimas; é paixão, fogo, urgência. Coisa física, átomos de energia em colisão. Ainda assim, ter-te-ei aqui, para seguir pela vida a sorrir. A cada vez que afastar os lençóis, pedir-te-ei que te chegues para lá. E ainda que a tua boca nunca sobre a minha pouse, e ainda que nunca venhas a sorrir enquanto te beijo, sabe, meu amor, que te amo, e que te amarei até morrer. Com a certeza de quem quer viver, de quem quer seguir, a vida inteira, com a alma enredada na tua. Que o teu chá seja fervido da minha chaleira, e que os teus livros disputem com os meus o espaço da prateleira. Meu amor, sabe que te amarei a vida inteira.»”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“– Muito obrigada dona Amélia, mas não há nada a dizer – pus-me de pé, solícita. – Quer que ligue aos seus netos a pedir que a venham ver este fim-de-semana? Podemos dizer que teve o princípio de uma trombose.
– Ó filha – riu-se a velha, com gosto. O seu humor é negro o bastante para me deliciar. – Já jogámos essa carta uma vez. Além disso os meus netos são muito mais ávidos do que os meus filhos, à hipótese de me verem morta já sonham com a herança. Vão comprar telefones e computadores e motas com ela. Não vale a pena sobreexcitá-los para nada, não é?
Sorri-lhe:
– Não lhe importa que eles desbaratem o que lhe custou tanto a juntar, pois não?
Com um suspiro triste de desprendimento, a dona Amélia apoiou as mãos nos joelhos para se pôr de pé e se erguer à minha altura.
– Que tenho eu a perder, Manuela? Nada. Então, levem-me tudo. Mas eu acho que conheces esse sentimento tão bem quanto eu, o de nos agarrar-nos mais ao nada do que ao tudo.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“A noite é madrasta; vem de mansinho, de sapatos rotos, e leva os incautos.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“Um breve encontro de mãos. O corpo a ser-me cingido num abraço e depois largado. Os olhos envenenados de sonhos, como que inundados de água prateada, estrelada. E o teu pai à distância, a repelir-me, a fugir-me por entre os dedos. Areia a escapar-se-me da palma da mão. A boca dele era o Pacífico no seu ponto mais profundo, onde a Terra é um abismo de escuridão e de pressão indomável. Eu desejava-o, irracional e imoralmente, inconsciente do que era a ânsia física e do muito que me entorpecia cada movimento. Eu era jovem e inócua; o tempo revolteava como uma onda sobre esse desejo agora enterrado, que ainda pulsa. Lateja sete palmos abaixo da superfície. Somando todos os meus dias, vejo que tudo o que foi meu se agita sete palmos debaixo de terra.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
tags: amor, morte
“A Manuela dissonava ao abraçar os antagonismos longe da frente. Enamorava-se sem estorvos por um E Tudo o Vento Levou, com as senhoras apresadas nos estilhaços das escaramuças dos homens. Abalava-se com um Casablanca, em que a subordinação face a outro povo traz um fantasma nostálgico que lamuria o hino da França. Cantarolava, de olhos gotejados, todo o Música No Coração, onde a perfídia nazi desalojava o núcleo central do filme. Tudo isto açucaradamente envolto em histórias de amor intemporais (simplórias), traziam-lhe distensões aos lábios, aparições de dentes alvos, clap clap, prantos de comoção. Para a Manuela a guerra não era mestiere de tecnologia, estratégia, tanques, carnificina, estropiados, tripas e sangue. Para a Manuela, também a guerra era um assunto de mulheres – cartas, lágrimas, saudade. A guerra era o reflexo no semblante da enfermeira, sombrio, inconfessado, a nuvem nos seus olhos, as vigílias de cotovelos no parapeito a aguardar o regresso do soldado. Às vezes a tua mãe resultava-me bastante obtusa. Então fi-la implodir e, como consequência, quase me vi sem ela. Não me tinha dado conta de que a sua força fosse tão marcescível.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros
“Para a Manuela também a guerra era um assunto de mulheres – cartas, lágrimas, saudade. A guerra era o reflexo no semblante da enfermeira, sombrio, inconfessado, a nuvem nos seus olhos, as vigílias de cotovelos no parapeito a aguardar o regresso do soldado. Às vezes a tua mãe resultava-me bastante obtusa. Então fi-la implodir e, como consequência, quase me vi sem ela.”
Célia Correia Loureiro, Os Pássaros