Os Pássaros Quotes
Os Pássaros
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Célia Correia Loureiro50 ratings, 4.28 average rating, 27 reviews
Os Pássaros Quotes
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“Ela julgava estar a afogar-se, mas ignorava o facto de sermos dois náufragos naquela sala: um que lia para expelir o mar dos pulmões, outro que dormia, consciente que a dor nos perseguia mesmo no sono.”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“Eu ansiava por saber se havia mais, se ele era mais, se havia um vestígio de humildade, de insegurança, de ternura nele. E queria vê-lo comovido, deixar-se da pretensão que eu via no Somerset e embrenhar-se na complexidade relacional do E Tudo o Vento Levou ou de O Monte dos Vendavais. Precisava de saber se ele tinha um bom coração. Se tivesse, eu perdoar-lhe-ia todas as grosserias. Entendi que o desejava, muito, com o ardor com que se deseja tirar as sandálias sobre um chão de tijoleira, no verão.”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“A tua mãe tinha a graça de uma ballerina; beleza oculta em triste fado.”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“Ela não estava realmente lá. A azeitona negra da sua íris, onde a cresta fora outrora tão doce, era agora baça e inactiva. Enganchou os braços um no outro e olhou-me. Era como se um deserto me olhasse. Árido, cego. Não me via nem via a malafaia no copo aos meus pés. E aqueles lábios vinham grudados, despertos de um sono sobressaltado, ainda que regado a calmantes e soporíferos. Eu apenas sabia que, num momento, o corpo dela não estava lá e, no outro, já existia sob a ombreira da porta da nossa sala, à soleira da porta da nossa vida menoscabada. Vinha de cabelo encrespado e inanimado sobre os ombros, e havia nela uma inabilidade para se mover – para viver – evidente.”
― Os Pássaros
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“Éramos duas garças na costa, de asas húmidas na areia. A (oc)cisão veio e levou-nos. Incubámos. Morremos. De(xis)istimos.”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“«Sabe, meu amor, que te amo. E que te amarei até morrer. É por isso que todo o resto me parece tão pouco, um nada imenso de nenhum valor. Sabe que te choro e te venero, e sobretudo que te espero. E sabe que te vejo, com olhos de quem vê, e que te conheço, como só conhece um livro quem o lê. Sabe que à amargura dos dias subtraí a doçura de te ter. Sim, o cintilar da vida, ao meu redor, por te ter. Por saber-te nunca muito longe, embora raramente aqui. por saber que, nos teus olhos - laivos de mel e coisas mais profundas, lucidez e racionalidade - leio que também me lês. Deslizemos agora para o silêncio, perfeição. Não vejo já necessidade de prender a tua mão, pois que sinto que te prendi. Ao teu olhar, que se enreda no meu. que estranhas asas povoam as minhas entranhas, murmuram a meus ouvidos. que grande és, que tola sou. Sabe, meu amor, que tenho plena consciência das nossas dimensões. Basta-me ter-te assim, como te tenho, para seguir pela vida a sorrir. Em mim não se apagarão mais luzes, em mim, à noite, acendem-se as estrelas. Fosse eu firmamento, e tu o cimento com que se constrói o mundo. Sem nós, nada. Reservatório de tudo. Conheço-te, milagre maior, e tenho-te, não podia ter-te melhor. Porque caminhas a meu lado, não acorrentado a mim. Porque me beijas a testa e porque te louvo as mãos. Homem honesto. Amor maior. Porque me guias na escuridão das ingenuidades - resquícios da infância - e porque não me apontas caminhos, descreves-me paisagens. Sim e não, talvez e também. Veremos o que dali vem. E eu, a teu lado, que tola sou, pequena e feliz, que feliz é quem amou assim um grande amor. Ecos de palavras, distantes. Que importa se não somos amantes? Se nunca o seremos? Sei que te amo e, nalguma linguagem, sei que me amas também. Se é na matemática dos racionais, se na pureza dos amigos, se no secretismo dos poetas, isso não sei. Sei que te carrego em mim e que, se fechar os olhos, me sorris. Estás comigo a todo o instante. Não te guardo em caixas, fotografias ou objectos. Caberias lá tu em caixas, mundo, permanecerias lá tu imóvel, como os objectos, vida. Quanto muito, vejo-te às vezes num livro cá por casa. Mas sei-te, e sei-te quase de cor. Não quero saber-te, na totalidade ou de cor. Não o poderia, é inalcançável. Tão grande és tu, que não acabas. Em mim nunca acabarás. A felicidade que a tua volta me trouxe. E sabe que vou chorar, «a cada ausência tua eu vou chorar». Mas não lágrimas; é paixão, fogo, urgência. Coisa física, átomos de energia em colisão. Ainda assim, ter-te-ei aqui, para seguir pela vida a sorrir. A cada vez que afastar os lençóis, pedir-te-ei que te chegues para lá. E ainda que a tua boca nunca sobre a minha pouse, e ainda que nunca venhas a sorrir enquanto te beijo, sabe, meu amor, que te amo, e que te amarei até morrer. Com a certeza de quem quer viver, de quem quer seguir, a vida inteira, com a alma enredada na tua. Que o teu chá seja fervido da minha chaleira, e que os teus livros disputem com os meus o espaço da prateleira. Meu amor, sabe que te amarei a vida inteira.»”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“– Muito obrigada dona Amélia, mas não há nada a dizer – pus-me de pé, solícita. – Quer que ligue aos seus netos a pedir que a venham ver este fim-de-semana? Podemos dizer que teve o princípio de uma trombose.
– Ó filha – riu-se a velha, com gosto. O seu humor é negro o bastante para me deliciar. – Já jogámos essa carta uma vez. Além disso os meus netos são muito mais ávidos do que os meus filhos, à hipótese de me verem morta já sonham com a herança. Vão comprar telefones e computadores e motas com ela. Não vale a pena sobreexcitá-los para nada, não é?
Sorri-lhe:
– Não lhe importa que eles desbaratem o que lhe custou tanto a juntar, pois não?
Com um suspiro triste de desprendimento, a dona Amélia apoiou as mãos nos joelhos para se pôr de pé e se erguer à minha altura.
– Que tenho eu a perder, Manuela? Nada. Então, levem-me tudo. Mas eu acho que conheces esse sentimento tão bem quanto eu, o de nos agarrar-nos mais ao nada do que ao tudo.”
― Os Pássaros
– Ó filha – riu-se a velha, com gosto. O seu humor é negro o bastante para me deliciar. – Já jogámos essa carta uma vez. Além disso os meus netos são muito mais ávidos do que os meus filhos, à hipótese de me verem morta já sonham com a herança. Vão comprar telefones e computadores e motas com ela. Não vale a pena sobreexcitá-los para nada, não é?
Sorri-lhe:
– Não lhe importa que eles desbaratem o que lhe custou tanto a juntar, pois não?
Com um suspiro triste de desprendimento, a dona Amélia apoiou as mãos nos joelhos para se pôr de pé e se erguer à minha altura.
– Que tenho eu a perder, Manuela? Nada. Então, levem-me tudo. Mas eu acho que conheces esse sentimento tão bem quanto eu, o de nos agarrar-nos mais ao nada do que ao tudo.”
― Os Pássaros
“A noite é madrasta; vem de mansinho, de sapatos rotos, e leva os incautos.”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“Um breve encontro de mãos. O corpo a ser-me cingido num abraço e depois largado. Os olhos envenenados de sonhos, como que inundados de água prateada, estrelada. E o teu pai à distância, a repelir-me, a fugir-me por entre os dedos. Areia a escapar-se-me da palma da mão. A boca dele era o Pacífico no seu ponto mais profundo, onde a Terra é um abismo de escuridão e de pressão indomável. Eu desejava-o, irracional e imoralmente, inconsciente do que era a ânsia física e do muito que me entorpecia cada movimento. Eu era jovem e inócua; o tempo revolteava como uma onda sobre esse desejo agora enterrado, que ainda pulsa. Lateja sete palmos abaixo da superfície. Somando todos os meus dias, vejo que tudo o que foi meu se agita sete palmos debaixo de terra.”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“A Manuela dissonava ao abraçar os antagonismos longe da frente. Enamorava-se sem estorvos por um E Tudo o Vento Levou, com as senhoras apresadas nos estilhaços das escaramuças dos homens. Abalava-se com um Casablanca, em que a subordinação face a outro povo traz um fantasma nostálgico que lamuria o hino da França. Cantarolava, de olhos gotejados, todo o Música No Coração, onde a perfídia nazi desalojava o núcleo central do filme. Tudo isto açucaradamente envolto em histórias de amor intemporais (simplórias), traziam-lhe distensões aos lábios, aparições de dentes alvos, clap clap, prantos de comoção. Para a Manuela a guerra não era mestiere de tecnologia, estratégia, tanques, carnificina, estropiados, tripas e sangue. Para a Manuela, também a guerra era um assunto de mulheres – cartas, lágrimas, saudade. A guerra era o reflexo no semblante da enfermeira, sombrio, inconfessado, a nuvem nos seus olhos, as vigílias de cotovelos no parapeito a aguardar o regresso do soldado. Às vezes a tua mãe resultava-me bastante obtusa. Então fi-la implodir e, como consequência, quase me vi sem ela. Não me tinha dado conta de que a sua força fosse tão marcescível.”
― Os Pássaros
― Os Pássaros
“Para a Manuela também a guerra era um assunto de mulheres – cartas, lágrimas, saudade. A guerra era o reflexo no semblante da enfermeira, sombrio, inconfessado, a nuvem nos seus olhos, as vigílias de cotovelos no parapeito a aguardar o regresso do soldado. Às vezes a tua mãe resultava-me bastante obtusa. Então fi-la implodir e, como consequência, quase me vi sem ela.”
― Os Pássaros
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