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O Tempo das Criadas: A Condição Servil em Portugal (1940-1970) by
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Leonor
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...trazer para a aldeia novas formas de vestir e de se apresentar favorecia aquilo que era percebido pelas serviçais como sinal de inveja e ressentimento social.(...) Estes sinais marcavam uma desigualdade perante mulheres e homens com quem tinham vivido experiências de enorme privação.
— Jun 13, 2026 08:54AM
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Leonor
is on page 71 of 320
Quando uma criada de serviço doméstico regressava à aldeia, podia gerar-se uma certa tensão social. O uso do lenço de seda, do tailleur, o próprio calçado ou a posse de uma mala para guardar objectos de uso pessoal sinalizava para a comunidade de origem a eviência de uma ascensão e urbanização.
Na cidade, a condição subordinada das serviçais era reconhecida pelo uso de farda, pela sua maneira de falar (...)
— Jun 13, 2026 08:47AM
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Na cidade, a condição subordinada das serviçais era reconhecida pelo uso de farda, pela sua maneira de falar (...)
Leonor
is on page 70 of 320
... às vezes comíamos batatas, porque era tirar um bocadinho do caldo da sopa, umas gotinhas de azeite e toda a gente molhava ali as batatas!(...)
Os regimes alimentares das populações mais desfavorecidas eram de composição nutritiva muito limitada: couves e feijão para o caldo, trigo em grão para moer, batatas, raramente bacalhau ou sardinhas (...) raramente açúcar, escasso acesso a peças de fruta (...)
— Jun 13, 2026 06:30AM
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Os regimes alimentares das populações mais desfavorecidas eram de composição nutritiva muito limitada: couves e feijão para o caldo, trigo em grão para moer, batatas, raramente bacalhau ou sardinhas (...) raramente açúcar, escasso acesso a peças de fruta (...)
Leonor
is on page 67 of 320
Do ponto de vista do acesso à informação sobre o mundo, nas aldeias tinha-se uma noção muito frágil da situação política do país.O conhecimento das coisas era passado oralmente. As viagens realizadas a Lisboa eram motivadas por situações relacionadas com doença e morte. As chegadas de comboio representavam momentos fundamentais para o alargamento de perspectiva, ainda que penalizadas por diferimento no tempo.
— Jun 12, 2026 03:27PM
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Leonor
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Vem a talho de foice citar a crítica de Alfredo Margarido à elevação de Monsanto a "aldeia mais portuguesa de Portugal".(.)Sobre a aldeia de Monsanto, Alfredo Margarido escrevia que "essa era a aldeia mais atrasada do país, bivacada sob as pedras escuras da serra, povoada por mulheres e homens fuliginosos, esquecidos pelas escolas, pelos transportes, pela higiene, pela água canalizada, pela farmácia, pelo médico (..)
— Jun 12, 2026 09:26AM
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Marta Silva
is on page 131 of 320
“As serviçais saíam à rua sem elegância, descuidando a simetria das formas e garrindo as cores. Uma desobediência, portanto, em termos de representação de um sujeito que se pretendia recatado, oculto, submisso, apagado, num lugar fechado.”
— Jun 11, 2026 02:44PM
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Ricardo Silvestre
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“O hábito de contratação de preceptoras estrangeiras é visível nas páginas de anúncios dos jornais diários da época, de que são exemplo O Século ou o Diário de Notícias. Porém, o mercado de procura de preceptoras era residual em face da procura de «criadas para todo o serviço» (ou «criadas de fora»).
— Jun 11, 2026 12:22PM
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Leonor
is on page 56 of 320
A obediência é mais eficaz graças ao pré -conhecimento de dependência entre pais e patrões. Sempre que é necessário punir ou reprimir a serviçal por desobediência ou insolência, a negociação faz-se entre patrões e pais, regressando ã terra de origem para estipular a permanência, ou não, da serviçal na casa onde estava colocada
— Jun 07, 2026 12:34PM
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Leonor
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O governo de Salazar estava preocupado com o problema resultante do afluxo de trabalhadores e consequente desequilíbrio no mercado de procura e oferta de emprego. Para evitar a desregulamentação, impunha-se controlar a mobilidade interna.
— Jun 07, 2026 09:39AM
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Leonor
is on page 53 of 320
O trabalho agrícola não permitia mais que a reprodução ou mesmo degradação da sua condição social. Quanto ao pastoreio, a obrigação de pernoitar a céu aberto nos meses de chuva e de frio intensificava a necessidade de migrar.(...)
Íamos sempre através de uma pessoa que já lá estivesse a servir, que arranjasse uma nova para ir para tal pessoa. Nunca era assim...às escuras.
— Jun 07, 2026 09:31AM
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Íamos sempre através de uma pessoa que já lá estivesse a servir, que arranjasse uma nova para ir para tal pessoa. Nunca era assim...às escuras.
Marta Silva
is on page 88 of 320
“No espaço rural, quando as serviçais urbanas regressavam à terra natal, a exibição desses sinais era premeditada e afirmativa: o uso de calçado em terrenos acidentados, enlameados e sujos, desempenhava uma declaração de afastamento daquele lugar de origem.”
— Jun 06, 2026 09:12AM
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Ricardo Silvestre
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“É vulgar que das províncias venham para a capital essas raparigas mais ou menos inaptas; espertas umas, estúpidas outras; que, segundo os caprichos da boa ou má fortuna, tanto podem encontrar trabalho remunerado em casa de famílias decentes como ficar ociosas
noutros trabalhos em que não se fala na decência.”
— Jun 06, 2026 06:46AM
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noutros trabalhos em que não se fala na decência.”
Ricardo Silvestre
is on page 69 of 320
“A par de um conjunto de acções desenvolvidas pelo SNI (Secretariado Nacional de Informação), a Acção Católica protagonizou um discurso crítico sobre os perigos do cinema, inimigo moral que se erguia entre os mais graves do panorama da sociedade dos anos de 1940.”
— Jun 05, 2026 10:11AM
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Ricardo Silvestre
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Num artigo publicado em 1937, em Voz das Criadas, intitulado «Doutor Oliveira Salazar», pode ler-se: «A fé que professamos manda-nos amar a ordem, a paz, o respeito aos nossos go-vernantes. Manda-nos, além disso, testemunhar gratidão a um homem que salvou a pátria dos maiores cataclismos.»
— Jun 05, 2026 07:30AM
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Ricardo Silvestre
is on page 39 of 320
“Para António de Oliveira Salazar, se um trabalhador se convencesse de que conquistaria maior grau de liberdade ao ocupar um posto de trabalho numa unidade fabril, desprendido de laços pessoais, isso denunciaria uma deformação de espírito e indiciaria que, em vez de colaborar numa empresa como homem, lhe interessava apenas vender o seu trabalho como força.”
— Jun 05, 2026 07:26AM
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Leonor
is on page 50 of 320
Servil é quem bajula, quem tem falta de dignidade; é aquele indivíduo que se sujeita por uma qualquer razão.
— Jun 04, 2026 04:56PM
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Leonor
is on page 45 of 320
Os subalternos são classificados como dependentes e parasitas.
— Jun 04, 2026 04:30PM
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Leonor
is on page 43 of 320
De um ponto de vista linguístico, o hábito de usar a palavra "servir" para referir o trabalho doméstico tem vindo a desaparecer. Quando se chama "criado" a alguém, o sentido é depreciativo e irónico. A memória social guarda uma representação negativa do conceito. (.)A atitude do servidor é encarada como a de alguém que não contesta a autoridade.(.)A palavra "criada" dá ênfase ao laço de dependência para com a família
— Jun 04, 2026 04:25PM
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Leonor
is on page 38 of 320
Determinava -se a prestação de obediência como elemento constitutivo do trabalho. Uma das suas disposições referia: "O serviçal é obrigado a obedecer, a desempenhar com diligência o seu serviço e a vigiar os interesses do patrão."(...)
A primazia do patriarcado como estrutura reguladora do trabalho doméstico estava aqui bem vincada.
— Jun 04, 2026 04:05PM
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A primazia do patriarcado como estrutura reguladora do trabalho doméstico estava aqui bem vincada.
Leonor
is on page 27 of 320
A sua entrada no serviço doméstico foi aos 12 anos, ainda na terra natal. Aos 17, corria o ano de 1949, veio para casa de uma família inglesa, em Lisboa.(...) Lucinda tinha o sonho de ser tecedeira, que nunca chegou a realizar. O enxoval que foi fazendo para a vida de casada também nunca chegou a ser estreado, confessou, com um sorriso mudo.
— Jun 04, 2026 12:47PM
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Marta Silva
is on page 68 of 320
“O que levavam na bagagem? Na maior parte dos casos, o baú era limitado a um vestido bordado com desvelo pela mãe, fazendo jus à filha que partia, uma espécie de fato de festa, com o qual se ambicionava dar longos passeios domingueiros pela cidade. Os vestidos de renda, as sandálias, luxo que no campo não era permitido, uma ou outra toalha íntima, uma muda de roupa de Verão e outra de Inverno.”
— Jun 04, 2026 12:40PM
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Leonor
is on page 24 of 320
O pai emigrou para o Brasil, deixando a mãe com três filhas pequenas. Não tornaram a vê -lo. A mãe ganhava o sustento da casa com trabalho à jorna. Catarina veio "ao engano" para Lisboa, pela mão de uma tia. Prometeram-lhe a escola, mas foi colocada como criada de servir. A patroa, divorciada, vivia com dois filhos maiores de idade, já licenciados. Após tentativa de abuso sexual por parte de um deles, Catarina fugiu.
— Jun 04, 2026 12:36PM
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Leonor
is on page 19 of 320
Passados alguns meses de convivência com a família, a patroa interceptou uma carta da mãe de Antónia em q esta expunha a sua preocupação relativamente à "má fama" dos filhos da casa.(.) Antónia deixou então o serviço doméstico e passou a trabalhar na área da restauração. Actualmente, vive em casa da filha, em Peniche, com a pensão mínima, e fala no sonho de ir para um lar de terceira idade, onde terá sempre companhia
— Jun 04, 2026 12:20PM
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Ricardo Silvestre
is on page 38 of 320
“Lucinda tinha o sonho de ser tecedeira, que nunca chegou a realizar. O enxoval que foi fazendo para a vida de casada também nunca chegou a ser estreado, confessou, com um sorriso mudo.”
— Jun 04, 2026 11:49AM
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Leonor
is on page 14 of 320
Das18 antigas criadas de servir q conheci,cinco são analfabetas e uma frequentou apenas a 1°classe;sete frequentaram a 3a classe; três concluíram a 4a classe.Uma das entrevistadas é, hoje,juiz do Tribunal da Relação de Lisboa,e uma outra completou estudos na vida adulta.Embora todas as memórias sejam sempre apenas fragmentos,é possível identificar pontos comuns na linha de vida q as conduziu das aldeias para a cidade
— Jun 03, 2026 07:26PM
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