Tradutor de Chuvas Quotes
Tradutor de Chuvas
by
Mia Couto312 ratings, 3.79 average rating, 31 reviews
Tradutor de Chuvas Quotes
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“POEMA DIDÁTICO
Já tive um país pequeno,
tão pequeno
que andava descalço dentro de mim.
Um país tão magro
que no seu firmamento
não cabia senão uma estrela menina,
tão tímida e delicada
que só por dentro brilhava.
Eu tive um país
escrito sem maiúscula.
Não tinha fundos
para pagar um herói.
Não tinha panos
para costurar a bandeira.
Nem solenidade
para entoar um hino.
Mas tinha pão e esperança
para os viventes
e sonhos para os nascentes.
Eu tinha um país pequeno,
tão pequeno,
que não cabia no mundo.”
― Tradutor de Chuvas
Já tive um país pequeno,
tão pequeno
que andava descalço dentro de mim.
Um país tão magro
que no seu firmamento
não cabia senão uma estrela menina,
tão tímida e delicada
que só por dentro brilhava.
Eu tive um país
escrito sem maiúscula.
Não tinha fundos
para pagar um herói.
Não tinha panos
para costurar a bandeira.
Nem solenidade
para entoar um hino.
Mas tinha pão e esperança
para os viventes
e sonhos para os nascentes.
Eu tinha um país pequeno,
tão pequeno,
que não cabia no mundo.”
― Tradutor de Chuvas
“INSÔNIA
Envelhecem as horas,
Entontecem ponteiros
como punhais vazando insaciáveis relógios.
O sono é um vidro
onde se guardam cansaços
de antes de termos nascido.
Piso estilhaços desse vidro,
tropeçam-me os olhos nas pestanas:
um tropel de luz
assusta um bando de aves sem asas.
A noite, em mim,
ganhou diurno vício:
uma outra vez,
tomei luar na veia.”
― Tradutor de Chuvas
Envelhecem as horas,
Entontecem ponteiros
como punhais vazando insaciáveis relógios.
O sono é um vidro
onde se guardam cansaços
de antes de termos nascido.
Piso estilhaços desse vidro,
tropeçam-me os olhos nas pestanas:
um tropel de luz
assusta um bando de aves sem asas.
A noite, em mim,
ganhou diurno vício:
uma outra vez,
tomei luar na veia.”
― Tradutor de Chuvas
“A CASA
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Raras vezes, sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu...
E tanto em mim
demoraram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
essa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.”
― Tradutor de Chuvas
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Raras vezes, sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu...
E tanto em mim
demoraram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
essa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.”
― Tradutor de Chuvas
