Uma volta pela lagoa Quotes

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Uma volta pela lagoa Uma volta pela lagoa by Juliana Krapp
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Uma volta pela lagoa Quotes Showing 1-2 of 2
“Conversa séria

Não é justo que você culpe tanto os homens
juliana os homens
não estão menos perdidos ou assombrados também eles
estão tentando fazer o seu melhor sabemos
como é difícil que mal tem
que não consigam preparar
a própria refeição ou cuidar da própria imundície ou
enxergar além do próprio umbigo eles não foram
acostumados a tantas coisas qual o problema
de acordarem tarde e começarem cedo
a beber e a postergar as necessidades
dos filhos todo mundo
precisa de um pouco de descanso que importa
se endeusam o próprio falo se fodem
exigindo gritos para se certificar
de como são mesmo imbatíveis se paralisam em mágoa
ante instruções quanto ao que dá e o que não dá prazer
num corpo que não é o deles por que te irrita tanto
que não se limpem que não se vistam que não aparem
os pelos eles são homens não é
da sua natureza ademais
quem nunca subjugou traiu se apossou violentou
socou a parede ante um ciúme cobrou
devoção quis fruir o melhor da vida guiado apenas
por seu próprio e cego desejo quem nunca
cobrou exclusividade no amor enquanto
cortejava às escondidas quem consegue
não dar tanto espaço para o próprio ego não urrar
quando se sente vulnerável não precisar
se envaidecer muitas vezes ao dia não é razoável
que você os critique por frequentarem debates políticos
enquanto não se importam com as mulheres que limpam suas privadas você
exagera são homens
e fazem mesmo piadas riem juntos
de nossas ideias e fracassos eles nos apontam
nosso lado monótono é natural e possível
conviver com isso veja se seu problema
não é algum tipo de insatisfação patológica um medo
profundo de se envolver eu vejo
como você está ficando cada vez mais sozinha e além disso
olhe esses seus fios brancos
essas unhas por fazer esse seu
sorrisinho”
Juliana Krapp, Uma volta pela lagoa
“Dúvida

Dizer que sonhou com alguém

e nunca saber se isso será interpretado
como mau presságio
sinal de grande estima ou de inveja obsessiva
como um flerte ou como
deslize do qual se arrependerá no instante seguinte
ao perceber
que por distração escancarou as portas
de seu id envenenado

Dizer que sonhou com alguém

que por exemplo nadou com D. entre águas-vivas
na praia imersa
em cerração

que se enervou com J. ao ver os papéis
queimando num hangar sombrio

que estava com A. no ventre da baleia

e por alguns minutos com
C., que deixou marcas de dente
e tufos empapados de sangue nos lençóis

Mas sobretudo

nunca dizer
— jamais —
que no fundo tudo o que sonhou
tem a ver
sempre
com aqueles nós cegos que florescem
na passagem das noites
a nos amestrar com dor

a nos amestrar
para a necessidade da fuga

e, logo, para o voo, para voar
desesperadamente

voar e fazer força
para não cair

voar e não olhar para baixo voar
e evitar

a todo custo encarar
aqueles que ficaram
ao rés do chão
tremeluzindo
anônimos e amigos, decepcionados
sabendo que fujo
porque lhes tomei algo
tal como eva
devorando
desdenhosa
desde 2 milhões de anos atrás”
Juliana Krapp, Uma volta pela lagoa