“Os juízos morais mudaram de sentido, de significado. Dentro da tradição aristotélica, dizer que x é bom (e este x pode ser, entre outras coisas, uma pessoa, um animal, um conjunto de ideias ou uma situação em geral) é dizer que x é o tipo de coisa que alguém escolheria se quisesse um x com a finalidade com que tipicamente se quer um x. Dizer que um relógio é bom é dizer que é o tipo de relógio que alguém escolheria se quisesse um relógio para marcar o tempo com precisão (e não, digamos, para arremessá-lo contra o gato). O pressuposto, neste emprego de 'bom', é que toda sorte de itens que seja apropriado chamar de bom ou ruim - incluindo pessoas e ações -, tem, de fato, alguma finalidade ou função específica. Dizer que algo é bom, portanto, é também proferir uma declaração factual. Dizer que determinada ação é justa ou correta é dizer que um homem bom faria essa ação em tal situação; logo, esse tipo de afirmação é também factual. Dentro dessa tradição, declarações morais ou valorativas podem-se dizer verdadeiras ou falsas, exatamente como se pode dizer de outras declarações factuais. Uma vez, porém, que a noção de funções e finalidades humanas essenciais desaparece da moral, começa a parecer implausível tratar juízos morais como declarações factuais.”
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Alasdair MacIntyre,
Depois da virtude: um estudo sobre teoria moral