A Depressão é a Perda de uma Ilusão Quotes

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A Depressão é a Perda de uma Ilusão A Depressão é a Perda de uma Ilusão by Juan-David Nasio
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A Depressão é a Perda de uma Ilusão Quotes Showing 1-9 of 9
“Histérico com sintomas: Se a pessoa pré-depressiva sofreu um trauma infantil de abuso sexual ou de ternura invasiva e excessivamente sensual, pode sofrer mais tarde de uma neurose histérica. Neurose caracterizada por: hipersensibilidade à menor recusa, vivenciada como intolerável Frustração; erotização de tudo que não seja genital (sentimentos, pensamentos, corpos e ação) e repulsa ao que é genital (coito); e uma grande expressividade somática que deixa aflorar os conflitos inconscientes sob a forma de distúrbios físicos. A presença de um ou outro desses sintomas histéricos anuncia a ocorrência provável de uma depressão.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“Como se recordam, a Privação era: eu não tenho o que normalmente deveria ter; a Frustração: não tenho o que me prometeram; a Humilhação: não tenho mais a minha autoestima porque ela foi achincalhada; e a Castração lança uma coloração de angústia nas três vivências da perda. Na Privação, eu sou amputado de uma parte intrínseca do meu ser; a Privação pertence ao domínio do ser. Na Frustração, não recebi o que me prometeram; a Frustração pertence ao domínio do ter. Quanto à Humilhação, ela também pertence ao domínio do ter, pois não tenho mais o orgulho de ser quem sou.
Uma última observação para sublinhar que, seja qual for o tipo de perda — Privação, Humilhação ou Frustração —, o deprimido sente que aquilo que perdeu é uma parte tão essencial de si mesmo que foi ele quem se perdeu. Para o deprimido, perder uma parte é perder tudo. Assim, na Privação, perder a integridade é perder tudo; na Humilhação, perder o amor-próprio é perder tudo; e na Frustração, perder a confiança é perder tudo.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“Dirigindo-se ao objeto divinizado, nosso provável deprimido diria: “Eu te amo infinitamente. Não te amo pelo que és, mas porque me fazes acreditar, quando estou contigo, que sou maravilhoso. Se sinto que me amas sem falta — seja verdade ou não, não importa —, imediatamente imagino que um dia serei o mais livre dos homens, o mais admirado ou o mais castamente amado. Se te perco, perco minha ilusão de um eu grandioso. E se perco essa ilusão, não existo mais”.
No narcisismo saudável, eu amo meu eu ideal sem depender totalmente do parceiro. Se meu amado se for ou morrer, ficarei triste mas continuarei a me amar e a amar a vida em mim. No narcisismo doentio, em contrapartida, amo meu eu hiperideal, dependendo totalmente de meu parceiro. Aí está a diferença entre o narcisismo saudável da neurose comum e o narcisismo doentio da neurose pré-depressiva.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“Ora, como se manifesta a hipersensibilidade em nossos pacientes neuróticos? Quando se trata de uma pessoa sofrendo de fobia e que se angustia com o mais breve afastamento do companheiro, podemos dizer que ela teme ser novamente abandonada e reviver o trauma da infância. Quando se trata de uma pessoa que sofre de obsessão e se crispa ante a mais leve crítica do companheiro, podemos dizer que ela teme ser novamente maltratada ou humilhada e reviver o trauma da infância. E quando se trata de uma pessoa que sofre de histeria e fica furiosa com o desprezo do amado, podemos dizer que ela teme ser novamente reduzida a um objeto sexual e reviver o trauma da infância.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“A tristeza é o sentimento de uma perda, ao passo que o ódio é o sentimento de uma traição. Na tristeza eu me fecho em mim mesmo; no ódio saio de mim, louco de raiva, para atacar o outro e me consolido. Mas na vivência do deprimido a tristeza e o ódio se misturam num só sentimento: o despeito. O que é o despeito? O despeito é uma mágoa misturada com raiva provocada pelo sentimento de ter sido vítima de uma injustiça, de ter sido ferido no amor-próprio ou ainda de ter sido profundamente decepcionado. No despeito, o ódio se transforma em tristeza e a tristeza é carregada de ódio. Podem entender, então, por que devemos qualificar a tristeza depressiva não apenas como ansiosa e atormentada, mas também como despeitada e carregada de ódio.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“Se pensarmos agora no deprimido, qual seria a ideia que causa sua tristeza doentia? É também a ideia de ter perdido um amor, mas um amor tóxico, um amor fusional. Não há tristeza depressiva que não nasça da perda de um amor fusional. Enquanto a pessoa que sente uma tristeza normal diz a si mesma: “Sinto-me triste porque perdi o que amava e que hoje me faz falta”, a pessoa deprimida diria, “Estou triste, pior, sou pura tristeza. Sinto a tristeza até a medula e a sinto o tempo todo, mesmo quando durmo. Estou triste por ter perdido uma ilusão”, lamenta-se, “a ilusão que me dava forças para ser eu mesmo. Que ilusão? A ilusão de ser amado com um amor fusional que me faz crer que estou absolutamente protegido, que sou absolutamente poderoso ou absolutamente desejável. Ao perder essa ilusão, perdi o essencial, o essencial daquilo que sou, e ao perder o essencial perdi a mim mesmo”.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“O homem, por natureza um ser de ilusão e sonhos, não pode deixar de encontrar a desilusão em seu confronto com a dura realidade e de se deprimir facilmente. É no abuso do sonho, ou melhor, é no abuso do sonho de uma felicidade absoluta, ou seja, na embriaguez de correr atrás da ilusão infantil de se tornar um dia um ser perfeito cumulado de amor, é nessa embriaguez que está a raiz da depressão. Ao querer demais o absoluto, encontramos sempre a dor da decepção. Quando nossa existência é apenas sonho, todo despertar brutal é uma queda inevitável no desespero. Estou convencido de que o grande número de deprimidos em nossa época corresponde ao grande número de sonhadores que todos tendemos a ser.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“A propósito do suicídio, sabemos que há variantes, e cada qual é a culminância trágica de uma doença singular. Um histérico não se mata da mesma maneira que um esquizofrênico, e um esquizofrênico não se mata da mesma maneira que um melancólico. No momento de se suicidar, o homem ou a mulher, qualquer que seja a patologia, é dominado por uma fantasia que o leva irresistivelmente a dar realidade ao ato que lhe será fatal. Só existe suicídio gerado por uma fantasia. A pessoa que se mata está sempre envolvida por um sonho. Por isso é que, quando estiverem diante de um paciente com ideias suicidas, vocês devem encontrar nele a fantasia capaz de provocar a passagem ao ato. Enquanto o histérico toma medicamentos não para morrer, mas para dormir eternamente, o esquizofrênico não se atira da janela para morrer, tampouco, mas para deixar o próprio corpo, para fazer com que as vozes que o torturam se calem para sempre. Não! Nem o histérico nem o esquizofrênico querem morrer: eles querem matar neles mesmos o mal que os impede de viver, e, ao matá-lo, se matam sem realmente desejá-lo. Deixar o mundo ou deixar o próprio corpo, são estas suas funestas fantasias. O melancólico, pelo contrário, quer morrer, faz questão de morrer, faz absoluta questão de se aniquilar para livrar a Terra de seu maldito ser. “Não presto para nada”, pensa, “sou um verdadeiro lixo no universo da humanidade e preciso me aniquilar, desaparecer!” Incontestavelmente, o suicídio melancólico é o mais selvagem e cruel que eu conheço.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão
“Ouvindo-as, ficava impressionado ao constatar que muitas se mostravam particularmente amarguradas. Claro, estavam deprimidas e tristes, mas era uma tristeza rancorosa. Na época eu não me detinha nessa raiva, embora ela fosse tão evidente. Só muito depois me dei conta de que por trás da camada de tristeza transparecia raiva, rancor e ódio. Compreendi que, para tratar a depressão, é preciso fazer o analisando reconhecer seu ressentimento em relação àquele que o teria traído, muitas vezes um parente ou um amigo. É um ódio que o paciente acaba voltando contra si mesmo, a ponto de se deprimir: ódio ao outro, ódio a si mesmo.”
Juan-David Nasio, A Depressão é a Perda de uma Ilusão