MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos Quotes

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MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos by Daniel Munduruku
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“Eles [os indígenas] são parte de cada brasileiro que aqui habita, até dos que não têm ascendência indígena alguma, pois não se trata de sangue, mas, sim, de pertencimento.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“É interessante lembrar que a Memória é quem nos remete ao princípio de tudo, às origens, ao começo, a Um criador. É ela quem nos lembra de que somos fio na teia da vida. Apenas um fio. Sem ele, porém, a teia se desfaz. Lembrar disso é fundamental para dar sentido ao nosso estar no mundo. Não como O fio, mas como Um fio. Ou seja, lembrar que somos um conjunto, uma sociedade, um grupo, uma unidade. Essa ideia impede que nos acerquemos da visão egocêntrica e ególatra nutrida pelo Ocidente.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Às vezes, penso que tudo isso faz parte de um caminho que hoje traço, mas que não foi inventado por mim. É um caminho seguro por ter sido pisado muitas vezes pelos pés descalços dos ancestrais. As marcas não são minhas, porém foram plantadas em mim.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Para se manter viva, atualizada, [a Memória Ancestral indígena] procura fazer uso dos instrumentais de que dispõe. Ser indígena e ficar apegado a uma tradição – escrita em minúsculo – é não perceber, compreender e aceitar a dinâmica da cultura. É não estar em sintonia com a lógica que fundamenta a criação do mundo. É fugir da função de cocriação que nos é responsabilizada pela Memória. O que pretendo dizer com isso é que – como na espiral – a convivência entre o passado e o presente é absolutamente possível se não nos deixarmos cair na armadilha dos estereótipos e da visão tacanha de que usar as novas tecnologias arranca do indígena seu pertencimento à Tradição. Pior ainda quando se afirma ser esse uso um meio para destruir a cultura. Na verdade, é o contrário. É a não utilização desses instrumentais que faz com que a cultura esteja em processo de negação de si mesma. Portanto, caminha para um fim. Na sua dinâmica, a cultura precisa se atualizar para se manter permanentemente nova, útil e renovada.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Ser alguém é sentir-se parte de algo que não nasceu e nem vai morrer em si mesmo. É uma teia que nasceu muito antes de mim, e que deve permanecer para além de minha existência.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“A Memória é, pois, parte fundamental na formatação de um corpo que resiste. Também por isso precisa ser atualizada constantemente em um movimento cíclico que acompanha o tempo cronológico do qual somos vítimas preferenciais. Cíclico é o conceito da Memória. Ela se desdobra sobre si mesma para se compor e se oferecer aos viventes. Parece difícil entender, mas é simples. Basta imaginar uma espiral matemática em que tudo se resolve. Ela é uma circunferência que se encontra, mas não se toca. E, mesmo sem se tocar fisicamente, compõe uma unidade, uma sincronia perfeita que harmoniza as curvas e os sentidos. A Memória é, assim, um convite à unidade pessoal e social.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“É interessante lembrar que a Memória é quem nos remete ao princípio de tudo, às origens, ao começo, a Um criador. É ela quem nos lembra de que somos fio na teia da vida. Apenas um fio. Sem ele, porém, a teia se desfaz. Lembrar disso é fundamental para dar sentido ao nosso estar no mundo. Não como O fio, mas como Um fio. Ou seja, lembrar que somos um conjunto, uma sociedade, um grupo, uma unidade. Essa ideia impede que nos acerque mos da visão egocêntrica e ególatra nutrida pelo Ocidente.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“O movimento indígena – como instância política – cresceu, e se multiplicaram as organizações comunitárias em busca de reivindicações específicas, que culminaram com a necessidade de formar profissionais qualificados em diversas áreas do conhecimento. Essas pessoas – homens e mulheres – formam o que hoje chamo de Indígenas em Movimento, pois atuam de forma autônoma na sociedade brasileira sem abrir mão de sua ancestralidade.”
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“[...] As comunidades indígenas passaram a se organizar politicamente, e a demanda por uma educação realmente diferenciada, capaz de responder às necessidades reais, fez com que jovens e adultos quisessem se aventurar no mundo acadêmico, para cursar universidades já pensando nas possibilidades futuras. Além disso, a própria situação em que se encontravam algumas comunidades praticamente obrigou seus integrantes a procurar alternativas econômicas. A consequência de tudo isso foi o crescimento de uma população indígena mais urbanizada e com carências materiais (terra, escola, saúde, alimentos) tamanhas que ocasionou um problema até então desconhecido: o êxodo para os grandes centros urbanos, formando o que alguns sociólogos batizaram de urbaíndios.”
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“Vale lembrar que, até a década de 1960, havia uma ideia disseminada de que os indígenas, do jeito que estava sendo conduzida a política de Estado, não chegariam a conhecer o século XXI. Tal ideia estava baseada na visão integracionista, que profetizava que os indígenas aceitariam sua condição de neobrasileiros e passariam a viver uma vida mais apropriada aos princípios da 'civilização'.”
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“[...] A política exterminacionista, inicialmente, tinha a ver com o extermínio dos indígenas por considerá-los um empecilho para a exploração colonial. Em seguida, foi gestada a política assimilacionista, com a clara intenção de fazer as diferenças desaparecerem como em um passe de mágica, desejando que os indígenas fossem assimilados pela cultura europeia.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Surgiu, então, a ideia de fazer do 'índio' um símbolo nacional. Só que não é do indígena que estamos falando e sim de uma imagem do 'índio' elaborada para dignificar o brasileiro, pois, afinal, os nativos brasileiros continuavam sendo um 'estorvo' para a nação. Nesse ponto, começou a construção do 'índio' romantizado, que aparece nas literaturas de José de Alencar e de Gonçalves Dias, entre outros, e nos discursos políticos, obras artísticas e pesquisas científicas que passaram a retratar os nativos como seres de um passado exótico, guardados apenas na memória ruim da história nacional. [...] A história oficial escondia os conflitos enquanto a realidade de resistência dos povos continuava em campo aberto. Os pensadores brasileiros procuravam justificar a maneira como aqueles povos, que teimavam em levar uma vida localizada no princípio do primitivismo humano, eram exterminados. Eles só poderiam fazer parte da história se deixassem de ser o que eram e passassem a desejar a vida civilizada.”
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“[...] Foi no contexto dessa política [do 'bom selvagem'] que surgiu a figura do 'índio' aculturado ou em contato permanente com a urbanidade. [...] De um lado, o índio romântico que traz consigo as virtudes europeias; de outro, aquele que carrega consigo os genes da maldade, da traição, da luxúria, da preguiça etc.”
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“Tupinambá, os quais aceitavam a escravidão dos cativos em guerra, mas não que guerreiros fossem submetidos a um trabalho braçal, forçado, que 82 não fizesse jus à sua condição de valentia e destreza na arte da guerra. Trabalhar no campo, na roça, nas lidas domésticas era, para os Tupinambá, função das mulheres, e eles não podiam admitir esse tipo de mudança social. É, em parte, esse o motivo principal por ter recaído sobre os Tupinambá o rótulo de “preguiçosos”, não afeitos ao trabalho.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Entendi que cada um dos elementos vivos segura uma ponta do fio da vida e o que fere e machuca a Terra, machuca também a todos nós, os filhos da Terra.”
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“cada ser da natureza, inclusive o homem, precisa compreender que seu lugar na natureza não é ser o senhor, mas um parceiro, alguém que tem a missão de manter o mundo equilibrado, em perfeita harmonia para que o mundo nunca despenque de seu lugar.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Um povo sem memória ancestral é um povo perdido no tempo e no espaço.”
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“Ocidente construiu um olhar sobre o trabalho colocando-o como o centro da vida, da realização e da dignidade da pessoa humana. E jogou por terra outros pensamentos, outras teorias, outras práticas que não levavam em consideração uma visão de tempo centrada na produção.”
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“No caso, os portugueses que chegavam e traziam em sua teia conceitos, crenças, medos e ganância olhavam para aquela gente nativa com um misto de curiosidade e espanto, acreditando, inclusive, terem chegado ao paraíso descrito no livro Gênesis. Por parte dos indígenas, houve também curiosidade, receio, mas, em especial, a vã esperança de aqueles forasteiros serem enviados dos deuses, de coração generoso e bom. Naquelas grandes canoas que vinham sobre as ondas salgadas do mar estaria o transporte que os levaria para “a terra sem males” propagada por seus profetas, os Karaíba, que garantiam que era onde Maíra, o deus-fundador, morava e por todos esperava.”
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“Os [povos] que aqui estavam eram falantes do tupi, língua que depois foi aprendida pelos colonizadores e missionários e se tornou oficial até o século XVIII, quando foi proibida pelo Marquês de Pombal.”
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“Os tupis – assim chamados por causa da língua – tinham uma tradição agrícola e se fixavam mais em regiões de solo fértil. Essa prática serviu como desculpa para a escravização desses indígenas, que foram submetidos a maus-tratos e desconsiderados em sua sabedoria ancestral. Já os povos nômades – e que, portanto, pouco sabiam sobre plantar – acabaram sendo perseguidos, maltratados, exterminados e desqualificados para o trabalho.”
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“— Posso fazer só mais uma pergunta?
— Faça.
— Karu-Sakaibê e Rairu existem de verdade?
Minha avó olhou de soslaio para minha mãe, que escutava, atenta, a nossa conversa. Depois, me chamou bem pertinho dela e, encostando sua boca em meu ouvido, sussurrou:
— Para quem precisa deles, sim; para quem não precisa, não.”
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“O importante não é saber como aconteceu, mas, sim, sentir que o que aconteceu foi um evento importante. Esse evento se chama consciência. Tomar consciência foi a grande revolução que Rairu proporcionou às pessoas que estavam no mundo de baixo. Elas não sabiam que havia outra maneira de viver. Quando desejaram partir em busca desse novo mundo, puseram-se a caminho, e muitos conseguiram chegar até em cima, porém, outros não quiseram...”
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“Levei um tempo para compreender que a palavra “tribo” é mais uma forma colonialista de se referir a algumas culturas que eram consideradas inferiores. É um termo que reduziu a cultura de um povo a apenas uma manifestação cultural. [...] Um povo, além de todas as características próprias, traz consigo o fato de ser autônomo. Ou seja, não depende da cultura da sociedade que o hospeda.”
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“Levei um tempo para compreender que a palavra “tribo” é mais uma forma colonialista de se referir a algumas culturas que eram consideradas inferiores. É um termo que reduziu a cultura de um povo a apenas uma manifestação cultural.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Muito recentemente é que nós estamos conquistando espaço para podermos contar a história segundo o nosso olhar, o olhar dos indígenas, ou seja, sob uma visão de mundo particular. Não se pode pensar que a nossa história segue o mesmo percurso da ocidental. E isso é um outro nó, que necessita ser desatado.”
Daniel Munduruku, MUNDURUKANDO - Sobre vivências, piolhos e afetos
“Índios' foram, na verdade, uma invenção dos colonizadores a fim de reduzi-los e escravizá-los. [...] Ao reduzi-los, dominaram; ao dominá-los, enfraqueceram valentes civilizações. Tudo isso contido em uma única palavra: índio.”
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“índios“ foram, na verdade, uma invenção dos colonizadores a fim de reduzi-los e escravizá-los.”
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“Durante muito tempo aprendemos a chamar os primeiros habitantes do Brasil de índios. [...] Essa alcunha – para usar uma palavra erudita – trazia embutidos imagens e significados que nem sempre dignificavam aqueles a quem ela desejava nomear. Normalmente, vinha acompanhada de adjetivos que não faziam jus à riqueza da diversidade que ela compunha. Quase sempre significava atraso tecnológico, primitivismo, canibalismo, entre outros termos negativos. Nomear alguém com essa palavra era qualificá-lo aquém dos demais seres humanos e enquadrá-lo em um passado imemorial, que já não existia mais. Essa ideia congelava os “índios“ em um passado tão remoto que a vaga lembrança deles nos remetia à dos homens das cavernas ou dos dinossauros. Assim eram estudados: como seres do passado.”
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“Elas [as palavras] servem para alçar, elevar, dignificar, mas, em contrapartida, podem detonar, denegrir, humilhar e desqualificar pessoas, povos, grupos, civilizações. Esse é o duplo poder que elas têm. Felizmente, porém, as palavras têm como intermediária a consciência humana. Digo felizmente porque a consciência pode ser educada, transformada e é possível utilizar o aprendido para transformar as relações humanas por meio da escolha correta das palavras.”
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