A Tolice da Inteligência Brasileira Quotes

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A Tolice da Inteligência Brasileira A Tolice da Inteligência Brasileira by Jessé Souza
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“Retira-se dos indivíduos a possibilidade de compreender a totalidade da sociedade e suas reais contradições e conflitos, os quais são substituídos por falsas questões. A fragmentação do conhecimento serve aos interesses dos que estão ganhando na sociedade, já que evitam sua mudança possível. À ação da mudança, a capacidade moral e política de escolher caminhos alternativos pela vontade de intervir no mundo, pressupõe “conhecimento do mundo” para não ser “escolha cega”. É isso que faz com que todo conhecimento fragmentário e superficial seja necessariamente conservador. Ele ajuda a manter e justificar o que já existe. Mostraremos neste livro como essa justificação dos privilégios injustos se faz possível no Brasil pela continuação do culturalismo e do economicismo como leituras dominantes fragmentárias e superficiais de nossa realidade.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Ora, na história do Brasil, nos raros instantes em que se prestou atenção a demandas dos setores oprimidos, isso sempre aconteceu por meio do engajamento estatal, e nunca do mercado. Por que o reconhecimento racional e frio dos próprios interesses, quando se trata de setores populares, ganha o nome de burrice? Os autores chegam a dizer com todas as letras que atender aos anseios da maioria da população — no Brasil as classes populares perfazem mais de 2/3 da população total — é “populismo”. Certamente, por pura exclusão e necessidade lógica, atender o 1/3 de privilegiados seria, com certeza, a verdadeira “democracia”, o verdadeiro governo da maioria, pelo menos da maioria que se considera “gente”. Estamos, realmente, em um estranho mundo onde os ideólogos nem sequer precisam mais esconder seu “racismo de classe” mais óbvio e cruel.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“A ênfase de Faoro em uma “dominação à distância” de Portugal no Brasil, que atravessava praias e sertões com olhos de “big brother”, que tudo viam e controlavam, equivale a uma quimera. Portugal era um país pequeno e pouco populoso, e sua estratégia de delegar a particulares a colonização das novas terras foi um imperativo de sobrevivência. Aqui, como em outros lugares, a “fantasia histórica” serve apenas para corroborar uma tese “política” sem qualquer fundamento na realidade.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Primeiro, como todo racismo, ele “explica”, de modo aparentemente evidente, um mundo complexo de difícil apreensão. Possibilita”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Buarque é o grande criador de uma tradição “colonizada até o osso” que,”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“homem cordial” e “protestante ascético” são maneiras simplistas e superficiais de não fazer o trabalho do sociólogo, que é reconstruir as precondições militares, políticas, econômicas, tecnológicas e também culturais (sem idealizações que não se aplicam à realidade) das relações desiguais entre classes e entre sociedades. Em”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“a ciência só nasce e se torna possível se construída “contra” as ilusões e cegueiras da sociologia espontânea do senso comum. Uma”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“deixamos de ter “interesses e ideias em conflito” e passamos a ter um mundo político dividido entre “honestos” e “corruptos”. O”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“basta personalizar o debate político, de modo consequente, ao nível das telenovelas. À”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Essa tentativa de perceber São Paulo como uma espécie de “Massachusetts tropical”39 já é mencionada diretamente no Raízes do Brasil, mas será também o fio condutor de todo o trabalho mais historiográfico de Buarque depois dessa obra.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Primeiro, como todo racismo, ele “explica”, de modo aparentemente evidente, um mundo complexo de difícil apreensão. Possibilita atender as exigentes demandas de entendimento e explicação do mundo sem grande esforço da inteligência. Depois, no caso brasileiro, ajudará a indicar o caminho político do liberalismo que é, na verdade, a real causa de seu sucesso. Afinal, as ideias só adquirem “força prática” na realidade se estiverem ligadas a certos “interesses” especialmente econômicos e políticos. E é isso que explica o caso de extraordinário sucesso do “racismo culturalista” como fundamento da ideologia liberal brasileira.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“racismo”. A única diferença essencial entre “racismo culturalista” e “racismo de cor”, como “explicação” para as hierarquias fáticas do mundo, é que o primeiro defende a ideia de que certo “estoque cultural” é a causa e também a legitimação da desigualdade entre indivíduos e nações. Toda violência simbólica e toda “ideologia” que legitimam a desigualdade fática (como se fosse merecida, como a do “protestante ascético” racional e democrático, oposta ao “homem cordial”, irracional e familista) necessitam que o oprimido pela violência a aceite como legítima. Buarque”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“A virtude da identidade nacional é, portanto, “pragmática”, pois serve a uma função fundamental como “conto de fadas para adultos”, cumprindo um papel semelhante ao das antigas religiões mundiais.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Tendo tamanho territorial e populacional similares aos do Brasil, com história colonial e escravista também semelhante, os Estados Unidos foram e continuam sendo o êmulo de todo brasileiro à procura de um modelo. Como”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“O aspecto decisivo – traço comum a toda a tradição liberal brasileira – é a relação com uma imagem “idealizada” dos Estados Unidos. E,”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Assim, dizer que o Brasil é uma continuação de Portugal quando aqui, ao contrário de lá, a escravidão era a instituição total que comandava a vida de todos, inclusive dos homens livres, os quais não eram nem senhores nem escravos,33 é um absurdo científico. O”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Afinal, a instituição mais importante do Brasil colonial desde seus inícios, a escravidão, não existia em Portugal, salvo em casos muito passageiros e tópicos. E faz toda a diferença a vida em uma sociedade escravocrata e em uma sociedade não escravocrata.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“O necessário é que as pessoas “acreditem nele”. O “mito”, portanto, não possui compromisso com a “procura da verdade”, o que o diferencia da ciência.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Brasil. É importante perceber que o objetivo de um “mito nacional” é produzir solidariedade social ao criar um elo comum entre os nacionais, ainda que seja produto da fantasia. O”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Talvez ele percebesse que, hoje em dia, boa parte dos interesses que não se podem exercer à luz do dia é legitimada pela própria ciência que deveria denunciá-los.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Entre nós o uso dessa noção é sempre “político”, e não “científico”, ou seja, a noção de patrimonialismo “simplifica” e “distorce” a realidade social de diversas maneiras e sempre em um único sentido: aquele que simplifica e “idealiza” o mercado e subjetiviza e “demoniza” o Estado. Para”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“É a partir desse raciocínio que o tema da corrupção política passa a ser um dos assuntos mais centrais e recorrentes do debate acadêmico e político brasileiro. O”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Se dissemos acima que Freyre é o pai-fundador da concepção dominante de como o brasileiro se percebe no senso comum, então Sérgio Buarque é o pai-fundador das ciências sociais brasileiras do século XX e, consequentemente – e muito mais importante –, o autor da forma dominante como a “sociedade brasileira” contemporânea se compreende até hoje com a chancela e a autoridade “científica”. Sérgio Buarque”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Essa ideia caiu “como uma luva” nos interesses de arregimentação política do governo industrializante e modernizante de Getúlio Vargas e passou, como política de Estado, a ser ensinada nas escolas e cantada em prosa e verso como fundamento da “unidade morena” da nação brasileira. Afinal,”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Foi Freyre, portanto, quem construiu o “vínculo afetivo” do brasileiro com uma ideia de Brasil, em alguma medida, pelo menos, “positiva”, com a qual a nação e seus indivíduos podiam se identificar e se autolegitimar.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“José Bonifácio já percebia a necessidade prática de se criar uma fonte de solidariedade social, além do poder local e pessoal dos donos de terra e gente, ou seja, a partir de um “mito nacional” para a jovem nação que se constituía – foi apenas quando Freyre inverteu a fórmula “racista científica”, que condenava a nação de mestiços a um futuro sombrio, que a “identidade nacional” passou a ser um elemento de extraordinário sucesso, tomando corações e mentes de brasileiros de norte a sul. Foi Freyre, afinal, o primeiro a articular a tese do “mestiço is beautiful”, permitindo interpretar a miscigenação visível e palpável da sociedade brasileira como uma “virtude cultural” – quando durante todo o século XIX e até os anos 1930 era considerado por todos como nosso principal defeito – e sinal, “empiricamente verificável nas ruas”, da suposta tolerância e abertura cultural brasileira. Foi”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“figura de Gilberto Freyre é central nesse tema, pois Freyre fundou, efetivamente, a forma dominante como o Brasil contemporâneo percebe a si mesmo, não apenas neste “romance da identidade nacional” chamado Casa-grande & senzala,20 mas em toda a sua obra. Ainda”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Atualmente, essa tese da “singularidade cultural” brasileira, pensada de modo absoluto como um povo com características únicas e incomparáveis – para o bem e para o mal –, é como uma “segunda pele” para todos os brasileiros, intelectuais ou não. Essa”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“O que outrora era legitimado como diferença racial e biológica passa a ser obtido pela noção de “estoque cultural” – em um caso, o das sociedades do Atlântico Norte, cognitiva e moralmente superior, e, no exemplo das sociedades latino-americanas, cognitiva e moralmente inferior.”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira
“Mais do que isso, Weber é uma espécie de “chave mestra” que nos permite abrir o registro profundo desse “racismo científico” dominante, ainda que até hoje inarticulado, mas, por isso mesmo, “naturalizado” e aceito por todos no âmbito científico e na esfera prática e cotidiana de todas as sociedades modernas.8”
Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira

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