O Pároco De Aldeia Quotes

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O Pároco De Aldeia O Pároco De Aldeia by Alexandre Herculano
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“Naquele dia a Tia Jerónima chegou a desconfiar de que o padre-prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhã não fez senão cantarolar, ora um pedaço do Tantum ergo, logo um versículo do Te Deum Laudamus, e assim por diante. Até andou, por mais de meia hora, a brincar com o gato do presbitério. E, para resumir em poucas palavras a extravagância de que parecia possuído, basta dizer que, ao descalçar-se, arrumou os sapatos para um canto e, depois de ter lido um capítulo da crónica de Cister, pela primeira vez da sua vida meteu na estante essa espécie de Carlos Magno monástico, sem o pôr de pernas ao ar. Aquele coração sentia dilatar-se na santa paz do Senhor. E porque não cabia o bom do padre na pele? Porque tinha feito felizes duas criaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias de quarenta anos. Achava isso coisa naturalíssima; mas a Providência dava-lhe parte da sua recompensa nessa alegria suave e íntima, que mal pode entrar nos palácios dos grandes e poderosos do mundo; porque é o prémio, não do benefício insolente da opulência, mas sim da abnegação caridosa da humanidade.”
Alexandre Herculano, O Pároco da Aldeia
“Autores de comédias, apressai-vos! Antes que se perca o tipo, levai o incrédulo ostentoso à cena. Dai-nos algumas noites de rir doido e inextinguível.”
Alexandre Herculano, O Pároco da Aldeia
“Entre a filantropia humana e as agonias extremas dos pequenos e humildes a noite e a tempestade ergueram barreira quase insuperável: esta barreira desaparece, porém, diante da caridade que a todos nos ensina o Evangelho e que ao pároco impõem, como dever imprescritível, a sua missão sacerdotal e o seu caráter de pai dos pobres e afligidos. A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava por sendas alpestres exposto às inclemências de noite invernosa, talvez em aposento bem resguardado, no fim de ceia opípara, entre as taças cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e voluptuárias, embriagado em todos os deleites dos sentidos, algum famoso espírito forte cerzia remendos das páginas soporíferas de Holbach ou de Diderot e dissertava profundamente sobre a mandriice, egoísmo e cobiça do clero, ou carpia a superstição do povo, que, para ser completamente feliz, de nada mais precisa do que abandonar as crenças do cristianismo e de amaldiçoar as esperanças de Deus, o conforto único da sua vida de miséria, de trabalho e de amargura. E, naturalmente, os neófitos daquela triste filosofia extasiavam-se em redor do sábio filantropo, que, impando de iguarias delicadas, de vinhos custosos e de grossa ciência, só lamentava a ignorância daqueles a quem muitas vezes faltava então, falta hoje e faltará no futuro um bocado de pão negro para matar a fome; extasiavam-se ali diante da sensualidade e bruteza de um insensato vanglorioso, enquanto a virtude do velho clérigo, exercitada nos desvios dos montes e no silêncio da noite, não tinha por testemunhas senão um céu húmido e cerrado e o vulto impetuoso e bramidor da ventania, mas que, em vez das lisonjarias de parvos, tinha para o aplaudir a voz sincera, consoladora e santa da própria consciência.”
Alexandre Herculano, O Pároco da Aldeia