Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise) Quotes

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Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise) (Portuguese Edition) Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise) by Urania Tourinho Peres
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Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise) Quotes Showing 1-6 of 6
“Na procura de estabelecer uma distinção entre melancolia e depressão, Marie-Claude Lambotte assinala que, enquanto o deprimido é capaz de delimitar a origem de seu mal-estar e esboçar tentativas de superação, o melancólico sente-se preso à fatalidade de um destino frente ao qual nada pode ser feito. O deprimido mantém vínculos afetivos, ainda que sustentados pela queixa e pela agressividade; o melancólico se isola, fecha-se em um mutismo, resignado, pois para ele “não há salvação”. Assim, queixa e resignação podem marcar uma diferença a ser considerada.”
Urania Tourinho Peres, Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise)
“No século XIX, o ópio, o haxixe e a cocaína eram considerados verdadeiros antídotos contra o mal-estar da modernidade. Propiciando um bem-estar, favoreciam vínculos sociais mais prazerosos e atenuavam o excesso de individualidade, reduzindo, por outro lado, a solidão, a infelicidade e o sentimento de desamparo.
Entre essas drogas, o ópio se destacava pela sua ação antidepressiva. Transmitia energia sem ser estimulante e, por outro lado, acalmava os agitados. Para alguns pesquisadores da psicofarmacologia, representava um verdadeiro modelo na procura de um antidepressivo, e ainda hoje muitos melancólicos apresentam uma resposta especialmente favorável aos opiáceos.”
Urania Tourinho Peres, Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise)
“Lacan destaca que é importante fazer a distinção entre a imagem narcísica i(a) e o que se desprende em sua própria constituição, a, já que este último está sempre velado, mascarado atrás do primeiro. Para ele, o melancólico necessita passar através de sua própria imagem para atingir esse objeto que o transcende e para dar-se conta de que sua queixa de ser nada em verdade não se dirige à sua imagem especular, ou seja, não é uma queixa de má aparência, porém de “ser o último dos últimos”. E não apenas de “ser”, mas também de “ter”, na medida em que a auto-acusação implica o ter sido arruinado. Lacan fala, ainda, em suicídio do objeto. Ele aponta que o objeto se constituiu, mas que por alguma razão desapareceu. Em suas auto-acusações, o melancólico está inteiramente no simbólico, assinala ele no seminário A transferência.”
Urania Tourinho Peres, Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise)
“A angústia surge quando não há satisfação pulsional por causa do recalque, e a depressão devido ao abandono do objetivo sexual sem que tenha havido satisfação. Tanto uma como outra trazem uma “tendência para negar a vida”. A insatisfação com o objetivo sexual transmite um sentimento de não ser amado, assim como uma incapacidade para amar. Abraham destaca, ainda, um paralelo entre a melancolia e a neurose obsessiva grave, decorrente de uma impossibilidade de desenvolvimento normal da libido pelo constante choque entre amor e ódio.
Havendo um predomínio da tendência hostil em relação ao mundo, conseqüentemente há uma redução da capacidade de amar. O recalque do componente sádico produz uma incerteza nas relações afetivas, auto-acusações e aumento das tendências masoquistas. Quanto mais intensos são os sentimentos de ódio inconscientes, maior a ten-dência para as idéias delirantes de culpa e o sentimento depressivo. Assumindo uma posição passiva, o paciente acaba por obter prazer de seu sofrimento. É, contudo, importante assinalar a ênfase atribuída à diferença entre a depressão neurótica e o afeto de pesar e luto. A melancolia traz uma fonte de prazer oculta.”
Urania Tourinho Peres, Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise)
“Freud, em seu texto magistral O mal-estar na civilização, afirma muito claramente que só podemos desfrutar a felicidade como um “fenômeno episódico”, pois somos limitados em nossa capacidade de senti-la. Entretanto, a infelicidade pode ser experimentada com muita facilidade, pois padecemos permanentemente de três grandes ameaças de sofrimento: nosso próprio corpo, que nos envia sinais de alarme através da dor e da angústia devido a seu inevitável processo de envelhecimento; o mundo externo, que pode nos lançar ataques intensos e destruidores; e, finalmente, o desgosto decorrente de vínculos com os outros seres humanos, que de todos os males é o mais ingrato. Assim, a busca da felicidade acaba por se transformar, apenas, em um esforço para evitar a infelicidade: buscar o isolamento para evitar os conflitos com os semelhantes, tentar proteger-se das intempéries da natureza, procurando agir sobre a própria natureza, e, por último, agir sobre o próprio organismo, quando ele mesmo faz parte dessa natureza.”
Urania Tourinho Peres, Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise)
“O que dizer da dor que não pode ser dita? Sem causa ou natureza definíveis, sem possibilidade de compreensão? Dor do nada, simplesmente do vazio de existir, indescritível, incomensurável, e que, por isso mesmo, chama em vão a palavra? Muitos falaram dela, para dizê-la, traduzi-la ou minorá-la: tristeza, trevas, sombras sem fim, sol negro, nevoeiro, tempestade em céu sereno, certeza infeliz, apatia, acedia, tédio... A melancolia vem de bílis negra, cor terrosa, pacto com Saturno. O desespero da alma encontra refúgio na criação, na permanente procura de sentido. A relação genialidade/melancolia dominou na Antigüidade.
Hoje a melancolia cede terreno à depressão, que implica diminuição, redução e decréscimo. A psiquiatria introduz o uso dessa palavra que melhor se aplica a um estado de doença do que à romântica melancolia. Mas o que de fato define, indica ou revela essa forma de marcar a tristeza? Como transformar em doença a dor de existir?
Muitos que a experimentaram de maneira intensa di-zem-na indescritível, “dor aguda, de ordem não-física, cuja natureza e causa são desconhecidas”, “distúrbio do espírito, misteriosamente recebido, catástrofe”.
Como classificar um sentir que não se descola de quem o sente? Como generalizar a dor de ser que constitui e singulariza?
Mas, verdade seja dita, estamos vivendo a democratização da tristeza em sua dimensão mais aguda. Não é mais uma forma de situar-se no mundo, porém uma característica do homem da atualidade. Globaliza-se um estado d’alma. A depressão é o mal do século.”
Urania Tourinho Peres, Depressão e melancolia (PAP - Psicanálise)