Despaís Quotes

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Despaís: Como Suicidar um País Despaís: Como Suicidar um País by Pedro Sena-Lino
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“Depois, deitaram os caixões e os corpos dos mortos em forma de quinas, e sobre eles um líquido. Percebi ser gasolina. Levantei-me de um salto. Quis evitar aquilo. Mas não podia. O meu papel era aquele: fotografar. Denunciar.
Incineraram os mortos. E fugiram. O fogo subiu rapidamente pelas paredes da repartição, pelos móveis. Mortos a arderem em protesto.”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País
“(...) os actos democráticos seriam completamente democráticos? Pensava nos suíços, que desde tempos remotos se juntavam nas praças das suas cidades e votavam de espada no ar; pensava nos referendos, o voto directo e claro sobre um assunto. E via como todas aquelas páginas constitucionais acabavam por ser vazio sobre vazio: regulavam e matavam o puro acto democrático. O poder a sair directamente dos cidadãos, a ser refundado a cada momento: isso para ele era a maior Constituição.”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País
“A fama num dia é o cadáver no outro. Tudo existe para arder. Só quem constrói na alma não é cinza com o tempo.”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País
“Eles andam a escavacar tudo. Eu nem sei o nome dos medicamentos. Eu tomava-os com as horas do relógio da Igreja. Eu já não sei assinar, mas pus lá o meu nome, Maria das Dores, era para os assustar. Eu só sei que me chamo Maria, as dores é por causa da falta dos medicamentos e dos meus filhos longe e agora que o Zé não está estou sozinha, e gosto muito de falar com a imagem da Senhora das Dores que está na entrada da casa.”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País
“Mas o senhor fernando agora tem a loja fechada, o pai tem de bater três vezes à porta e só depois é que ele abre, é dos homens das fitas, diz ele, talvez seja por causa do Natal. O senhor fernando tem uma cama no chão ao pé dos iogurtes e do fiambre, e tem também uma faca grande que eu penso que é para matar os sonhos maus porque está ao pé da cama.”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País
“No país vigiado por credores, todos sabem que é quem manipula os trocos que governa nos estômagos”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País
“Então era moda: fazer casas para os sem casa que nunca lhes chegariam às mãos, porque nunca eram terminadas”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País
“E os ministros tentavam fazer-se úteis. Esbracejavam palavras: piada, tragédia, perda de tempo. Atiravam-se palavras vagas entre pulseiras, colares e gravatas, com divertimento, tal como enchiam decretos, portarias, memorandos com leis que não iriam jamais cumprir; a necessidade de mostrar burocraticamente que se existe.”
Pedro Sena-Lino, Despaís: Como Suicidar um País