O que faz o psicanalista Quotes
O que faz o psicanalista: Ato, semblante e interpretação
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O que faz o psicanalista Quotes
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“Ao falar, estamos sempre interpretando. Mesmo numa fala cotidiana, você está interpretando a partir da sua personagem, a partir da máscara que está usando naquele momento, de seu ego. Uma mulher, por exemplo, fala com determinado semblante com seus colegas de trabalho, com outro semblante com a atendente de uma loja, com outro ainda com seus funcionários, e assim por diante. Pode ser inclusive o mesmo texto, mas a voz muda, a maneira de falar se transforma, todo o seu corpo será outro a cada ocasião. De uma forma bem geral, no cotidiano, o falar é interpretar no sentido teatral, porque você usa a sua enunciação. Não é só o texto que você fala, é a pausa, é o modo de dizer, o ritmo, o andamento, o volume etc. Em suma, estamos sempre no semblante. Falar é interpretar.”
― O que faz o psicanalista: Ato, semblante e interpretação
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“Eu queria chamar a atenção de vocês para um trecho mais adiante nesse “A terceira” em que Lacan fala do semblante em relação ao objeto a: “Não há nada mais no mundo além de um objeto a — bosta ou olhar, voz ou teta —, que refende o sujeito, caracteriza-o nesse dejeto que ex-siste ao corpo”. Portanto, o objeto a é esse objeto que “ex-siste” — na sua existência fora do corpo. E continua: “Para fazer semblante dele é preciso talento. É particularmente difícil. É mais difícil para uma mulher do que para um homem, ao contrário do que se diz”. O termo “talento” nos remete à arte, no caso à arte de representar, ao teatro, à representação teatral, ao jogo de cena. Será mais difícil para uma mulher bancar o objeto a do que o homem, na medida em que a tendência da mulher é a de ser? Ou seja, ser a causa de desejo para um outro, seja homem ou mulher? O que é diferente de bancar o objeto olhar, voz, merda, e olhar para o analisante. “Que a mulher seja o objeto a do homem” de vez em quando, “isso não quer dizer de modo algum que ela goste de sê-lo. Mas, enfim, acontece. Acontece de ela se parecer com isso naturalmente.”
Surpreende Lacan dizer que as analistas, por serem mulheres e estarem mais acostumadas a esse lugar de objeto, talvez tivessem mais facilidade para ocupar o lugar de semblante de objeto a na análise. No entanto, ele diz que não, que isso pode ser uma dificuldade. Eu trouxe isso para pensarmos que esse fazer semblante, “bancar” o objeto a, não é bancar efetivamente o objeto de desejo como uma mulher na caça, numa paquera, numa performance de azaração, fazendo-se desejar. Fazer semblante de objeto a no discurso do analista é bancar o objeto causa de desejo de saber do paciente, não para fazê-lo desejar sexualmente o ou a analista, e sim para querer saber sobre a causa de seu sofrimento. Para tal, Lacan nos indica que o analista faz isso de maneira ostensiva, banca seu semblante de forma explícita.”
― O que faz o psicanalista: Ato, semblante e interpretação
Surpreende Lacan dizer que as analistas, por serem mulheres e estarem mais acostumadas a esse lugar de objeto, talvez tivessem mais facilidade para ocupar o lugar de semblante de objeto a na análise. No entanto, ele diz que não, que isso pode ser uma dificuldade. Eu trouxe isso para pensarmos que esse fazer semblante, “bancar” o objeto a, não é bancar efetivamente o objeto de desejo como uma mulher na caça, numa paquera, numa performance de azaração, fazendo-se desejar. Fazer semblante de objeto a no discurso do analista é bancar o objeto causa de desejo de saber do paciente, não para fazê-lo desejar sexualmente o ou a analista, e sim para querer saber sobre a causa de seu sofrimento. Para tal, Lacan nos indica que o analista faz isso de maneira ostensiva, banca seu semblante de forma explícita.”
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“Dentro do campo da linguagem, o S1 é o significante primordial; o S2 é o segundo significante que equivale ao saber; o sujeito é o significante pulado da cadeia e aquilo que um significante determina para o outro significante; e o objeto a é o resto fora da linguagem, é causa de desejo.
No campo do gozo, o S1 se transforma como aquilo que vem comemorar a erupção do gozo, como significante traumático, que está ali sempre comparecendo e traumatizando o sujeito e promovendo a irrupção do gozo. Não é mais o significante que faz barreira ao gozo, mas o significante que traz o gozo. O S2 é um meio de gozo; o objeto a é o objeto condensador de gozo, o mais-de-gozar; e o sujeito é uma resposta real — o sujeito é o efeito da operação em que o organismo é tomado na linguagem.”
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No campo do gozo, o S1 se transforma como aquilo que vem comemorar a erupção do gozo, como significante traumático, que está ali sempre comparecendo e traumatizando o sujeito e promovendo a irrupção do gozo. Não é mais o significante que faz barreira ao gozo, mas o significante que traz o gozo. O S2 é um meio de gozo; o objeto a é o objeto condensador de gozo, o mais-de-gozar; e o sujeito é uma resposta real — o sujeito é o efeito da operação em que o organismo é tomado na linguagem.”
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“Há um quadro clínico em que acontece a queda dos semblantes: são os estados depressivos e em particular a melancolia. Nesta há uma queda total dos semblantes. Quando ficamos deprimidos é muito difícil entrar no semblante, ficamos um trapo, jogados na cama, como um objeto caído, sem conseguir entrar nos laços sociais. Sem o semblante, nos diz o melancólico de forma desvelada, não passamos de um dejeto, somos seres miseráveis, frágeis e impotentes. Freud se perguntava: por que temos que adoecer a esse ponto para nos darmos conta daquilo que de fato somos? É o que nos mostra o melancólico despido de qualquer semblante. Às vezes não dá para fazer semblante, às vezes não dá para entrar no laço social, pois estamos estacionados no autismo do gozo, quando a palavra nos falta para significantizar o real e fantasiar o desejo. Na melancolia o sujeito está extraviado de seu desejo e, sem recurso aos semblantes, ele se vê diante de um real despido, de um corpo mortificado, petrificado pela pulsão de morte sem poder pular de semblante em semblante como fazem os neuróticos, por não terem à sua disposição o semblante fundador do Nome-do-Pai.
Quando Freud diz que na melancolia “a sombra do objeto caiu sobre o eu”, podemos ler que o sujeito está identificado com o objeto perdido, ou seja, ele entra nesse lugar do dejeto, daquele que foi abandonado, que está desamparado, nesse vácuo do objeto. E não é sem dificuldade que tentamos fazer o melancólico segurar-se em algum semblante — como algum significante do desejo — para sair desse nada, desse buraco em que se encontra. Freud nos aponta que há um trabalho de luto para sair desse lugar que é estrutural, pois você entra nesse real onde é muito difícil fazer um semblante. Um luto no qual se trata de passar em revista as lembranças, as imagens, enfim, as palavras que sustentaram a relação com esse objeto perdido representado pela pessoa amada que se foi. Trabalho que se dá com a semblantização sob a batuta do Nome-do-Pai.”
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Quando Freud diz que na melancolia “a sombra do objeto caiu sobre o eu”, podemos ler que o sujeito está identificado com o objeto perdido, ou seja, ele entra nesse lugar do dejeto, daquele que foi abandonado, que está desamparado, nesse vácuo do objeto. E não é sem dificuldade que tentamos fazer o melancólico segurar-se em algum semblante — como algum significante do desejo — para sair desse nada, desse buraco em que se encontra. Freud nos aponta que há um trabalho de luto para sair desse lugar que é estrutural, pois você entra nesse real onde é muito difícil fazer um semblante. Um luto no qual se trata de passar em revista as lembranças, as imagens, enfim, as palavras que sustentaram a relação com esse objeto perdido representado pela pessoa amada que se foi. Trabalho que se dá com a semblantização sob a batuta do Nome-do-Pai.”
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“O Nome-do-Pai, assim como o trovão, é um semblante, é o semblante da lei, da interdição do incesto. A introdução do Nome-do-Pai no lugar do Outro como resultado da metáfora paterna faz o sujeito entrar no mundo dos semblantes e, por conseguinte, no mundo dos discursos como laços sociais. Na psicose, devido à sua foraclusão, o sujeito não consegue fazer semblante, existe uma dificuldade de entrar no semblante. Se todo laço social é da ordem do semblante por causa do artefato do aparelho de gozo que permite ao sujeito entrar em contato com o outro, o psicótico é fora do discurso, daí a sua dificuldade de entrar no semblante de professor, de aluno, para dar um exemplo, e até mesmo nos semblantes sexuais.
No meu livro Psicose e laço social, mostro que há na psicose tentativas de entrar nos discursos e estabelecer laços sociais, mas estruturalmente existe uma impossibilidade lógica de o psicótico circular nos diferentes discursos e de fazer semblante.”
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No meu livro Psicose e laço social, mostro que há na psicose tentativas de entrar nos discursos e estabelecer laços sociais, mas estruturalmente existe uma impossibilidade lógica de o psicótico circular nos diferentes discursos e de fazer semblante.”
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“Sobre o ato sexual, ele também não é da ordem do semblante. O ato sexual é a hora da verdade: ou é ou não é, ou se está a fim ou não se está a fim, ou o pênis levanta ou não levanta, ou a mulher fica umedecida ou não — pois a excitação sexual, quando ocorre, toma o corpo. Pode-se até fingir que se goza, mas isso não é da ordem do semblante. A cópula, seja ela como for, não é um ato propriamente dito, pois não faz laço social, não está na ordem dos discursos. Pode se revelar muito triste para o ser humano, que é um romântico incurável, mas o ato sexual não quer dizer nada. O ato é um dizer, o ato sexual não. É onde o semblante não funciona, ou, dito de outra forma, é um ato que não quer dizer nada, ou seja, não é ato.
Uma mulher transa com um cara e no dia seguinte eles nem se falam, e aí cada um constata: foi ótimo, maravilhoso, mas não quis dizer nada. Um ato sexual não está no laço social. Assim como a psicose, o sexo está fora do discurso. O amor tampouco está dentro de um laço social que pudesse ser previsto com seus settings, seus acordos, por mais que se tente com o Dia dos Namorados, as bodas de prata ou de ouro. Não adianta. Não há regra nenhuma nem discurso estabelecido que possa determinar a relação amorosa e sexual entre dois seres humanos.”
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Uma mulher transa com um cara e no dia seguinte eles nem se falam, e aí cada um constata: foi ótimo, maravilhoso, mas não quis dizer nada. Um ato sexual não está no laço social. Assim como a psicose, o sexo está fora do discurso. O amor tampouco está dentro de um laço social que pudesse ser previsto com seus settings, seus acordos, por mais que se tente com o Dia dos Namorados, as bodas de prata ou de ouro. Não adianta. Não há regra nenhuma nem discurso estabelecido que possa determinar a relação amorosa e sexual entre dois seres humanos.”
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“O semblante mais evidente e “saliente” que temos na sexualidade é o falo. Segundo Lacan, o falo é o gozo sexual “coordenado com um semblante, como solidário a um semblante”. O membro sexual do homem pode fazer semblante de falo, e a mulher, ela mesma, pode fazer semblante de falo e o homem pode, de modo fetichista, fazer de falo qualquer parte do corpo dela. Para sermos mais exatos e não nos deixarmos guiar pela anatomia dentro de uma leitura sexista, temos de afirmar que qualquer ser falante pode fazer de falo qualquer parte do corpo do parceiro ou parceira sexual e assim fetichizar essa parte. O real do gozo sexual é articulado ao falo como semblante. Na verdade, quantas partes do corpo e quantos objetos podem fazer o semblante do falo, não é? E, por outro lado, qualquer pessoa pode representar o falo para a outra, independente do sexo anatômico e biológico — não precisa ter um pênis na jogada. O falo é o paradigma do semblante, mas para haver falo como semblante é necessário o Nome-do-Pai no lugar do Outro, ou seja, é necessária a estrutura edipiana, sem a qual estamos na psicose. Daí a dificuldade de o psicótico entrar no semblante social, porque estruturalmente ele está fora do discurso, ou seja, fora do semblante.”
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“O discurso como laço social é um vínculo que prescinde da fala, mas não do ato. Freud diz que a palavra substitui o ato, por isso a psicanálise, que lida com as palavras, tem efeitos de ato. Ao invés de você matar alguém, você pode dizer “Vai à merda”, e assim já está matando simbolicamente a pessoa. Freud diz isso desde os Estudos sobre a histeria. O que Lacan mostra é o contrário: todo ato é uma palavra não dita — o que encontramos em Freud com o conceito de ato falho. O ato falho não é propriamente apenas um dito que não foi dito — ele é da ordem de um dizer.
Todo ato sem palavras é da ordem de um dizer, e se é da ordem do dizer está na linguagem, ou seja, quer dizer alguma coisa. Se você está na linguagem ele é ambíguo, um equívoco, está ali no semblante que pode ser verdade ou mentira, mas, se opera, tem efeito de verdade. É aquela coisa que diz “Isso é mentira”, mas é verdade. “Isso é verdade”, mas é mentira. Não conseguimos escolher se é verdade ou mentira. Todo ato é da ordem do semblante porque todo ato é da ordem de um dizer.
A psicanálise propõe para o analisante transformar o dizer num dito. Ao invés de você ficar repetindo a sua fantasia em atuações, não é melhor formulá-la num dito? Questionaremos também o que é esse atuar do neurótico. O neurótico atua bem no sentido teatral. Ele fica fazendo cenas, repetindo às vezes a mesma cena, ou seja, substitui os seus ditos por um dizer em ato. Esse dizer pode ser um ato ou um sintoma.
A atuação neurótica, dentro da literatura, aparece ligada ao acting out. O atuar neurótico, ou seja, aquela forma de agir que significa um dito inconsciente, não se reduz talvez ao que a literatura chama de acting out, pois além dele temos o automatismo de repetição, que faz a pessoa atuar um dito inconsciente ou aquela cena inconsciente que ela repete. Então, vemos que o sintoma também é um dizer e, nesse sentido, o sintoma é o que equivale à atuação do neurótico. É uma forma de o sintoma dizer algo que ainda não encontrou o seu dito. Freud propõe exatamente que a psicanálise visa restituir a palavra do ato.
Os atos obsessivos e o acting out histérico são atos que significam um dizer. A mãe que tem medo de se aproximar da janela com o neném no colo porque teme que ele caia pode substituir esse medo por um ato que vai impedir e ao mesmo tempo instigar aquilo que evita, um ritual que acabe levando-a para perto da janela. O ato obsessivo tem essa característica de evitar e, ao se transformar, ele se aproxima da realização daquele desejo. Nisso, ele se aproxima também da atuação histérica, que é mais explicitamente a realização de um desejo recalcado.”
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Todo ato sem palavras é da ordem de um dizer, e se é da ordem do dizer está na linguagem, ou seja, quer dizer alguma coisa. Se você está na linguagem ele é ambíguo, um equívoco, está ali no semblante que pode ser verdade ou mentira, mas, se opera, tem efeito de verdade. É aquela coisa que diz “Isso é mentira”, mas é verdade. “Isso é verdade”, mas é mentira. Não conseguimos escolher se é verdade ou mentira. Todo ato é da ordem do semblante porque todo ato é da ordem de um dizer.
A psicanálise propõe para o analisante transformar o dizer num dito. Ao invés de você ficar repetindo a sua fantasia em atuações, não é melhor formulá-la num dito? Questionaremos também o que é esse atuar do neurótico. O neurótico atua bem no sentido teatral. Ele fica fazendo cenas, repetindo às vezes a mesma cena, ou seja, substitui os seus ditos por um dizer em ato. Esse dizer pode ser um ato ou um sintoma.
A atuação neurótica, dentro da literatura, aparece ligada ao acting out. O atuar neurótico, ou seja, aquela forma de agir que significa um dito inconsciente, não se reduz talvez ao que a literatura chama de acting out, pois além dele temos o automatismo de repetição, que faz a pessoa atuar um dito inconsciente ou aquela cena inconsciente que ela repete. Então, vemos que o sintoma também é um dizer e, nesse sentido, o sintoma é o que equivale à atuação do neurótico. É uma forma de o sintoma dizer algo que ainda não encontrou o seu dito. Freud propõe exatamente que a psicanálise visa restituir a palavra do ato.
Os atos obsessivos e o acting out histérico são atos que significam um dizer. A mãe que tem medo de se aproximar da janela com o neném no colo porque teme que ele caia pode substituir esse medo por um ato que vai impedir e ao mesmo tempo instigar aquilo que evita, um ritual que acabe levando-a para perto da janela. O ato obsessivo tem essa característica de evitar e, ao se transformar, ele se aproxima da realização daquele desejo. Nisso, ele se aproxima também da atuação histérica, que é mais explicitamente a realização de um desejo recalcado.”
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“Ao denunciar que o capitalismo é um simulacro, um fazer parecer, um semblante, Marx faz irromper uma verdade: a exploração do trabalho humano nesse falso laço social, que é o discurso capitalista, e a promoção de uma mercadoria como objeto de desejo incondicional. É em torno do dinheiro, ou seja, do capital, que é guiado o eixo de denúncia que reside no fetiche. Há algo mais da ordem do simulacro do que fazer crer que um sapato, uma roupa, um celular, um carro seja o objeto a? Marx denuncia a mercadoria como fetiche e Lacan o coloca no âmago da própria teoria psicanalítica, mostrando que são os objetos que vêm no lugar do objeto a. E a partir do conceito marxista de mais-valia inventa o termo mais-de-gozar, rebatizando com ele o objeto a ao acentuar seu caráter de gozo.”
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“Não é à toa que Freud trouxe o conceito de lembrança encobridora, que é uma memória que traz em si um esquecimento, encobre alguma coisa. Ela encobre no mínimo o real ou outra associação que Freud, dentro de uma lógica da temporalidade, diz que acontece. Uma pessoa se lembra de uma coisa que aconteceu com ela aos cinco anos pois quer esquecer o que aconteceu aos três anos, dentro da lógica do inconsciente como cronológico. Mas para Freud o inconsciente é uma “des-memória”. Porém, por mais que você se lembre, sempre mantém um esquecimento-base, que é o recalque original.”
― O que faz o psicanalista: Ato, semblante e interpretação
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“Participante do seminário: Sobre a questão do ato que opera como enigma, você acha possível que um sujeito em análise possa se confrontar com algo de fora do setting, por exemplo um filme, que tenha para ele um valor de enigma e que, portanto, desencadeie uma construção em análise e se torne uma verdade?
Antonio Quinet: Claro! Porque a obra de arte está no lugar de objeto a para o sujeito. A obra que opera sobre o sujeito, que desencadeia afetos e associações, que divide e que emociona. Podemos dizer que foi a primeira coisa captada pelo primeiro livro de estética do mundo ocidental: a Poética de Aristóteles. Ao abordar a tragédia, ele percebeu a divisão subjetiva no espectador causando um misto de prazer e dor: a catarse dos afetos de terror e piedade e ao mesmo tempo o entusiasmo com a obra de arte. Para que tal objeto ou performance seja efetivamente uma obra de arte é preciso causar a divisão do sujeito. Basta reler Aristóteles com Lacan, pois uma tragédia provoca esses afetos denotando algo que tocou o real do sujeito, ou seja, causou algo que escapa ao próprio sujeito.
A obra de arte está nesse lugar de objeto a. Para o analista, é dar nó em pingo d’água estar no lugar de uma obra de arte para desencadear no sujeito suas associações e tudo o mais. Fazendo uma associação com o que você falou, Lacan propõe que a interpretação deve ser poética, deve estar no nível da poesia. E sobre seu lugar de analista, ele diz: “Não sou um poeta, sou um poema”.”
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Antonio Quinet: Claro! Porque a obra de arte está no lugar de objeto a para o sujeito. A obra que opera sobre o sujeito, que desencadeia afetos e associações, que divide e que emociona. Podemos dizer que foi a primeira coisa captada pelo primeiro livro de estética do mundo ocidental: a Poética de Aristóteles. Ao abordar a tragédia, ele percebeu a divisão subjetiva no espectador causando um misto de prazer e dor: a catarse dos afetos de terror e piedade e ao mesmo tempo o entusiasmo com a obra de arte. Para que tal objeto ou performance seja efetivamente uma obra de arte é preciso causar a divisão do sujeito. Basta reler Aristóteles com Lacan, pois uma tragédia provoca esses afetos denotando algo que tocou o real do sujeito, ou seja, causou algo que escapa ao próprio sujeito.
A obra de arte está nesse lugar de objeto a. Para o analista, é dar nó em pingo d’água estar no lugar de uma obra de arte para desencadear no sujeito suas associações e tudo o mais. Fazendo uma associação com o que você falou, Lacan propõe que a interpretação deve ser poética, deve estar no nível da poesia. E sobre seu lugar de analista, ele diz: “Não sou um poeta, sou um poema”.”
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“A verdade se utiliza da fala para se expressar, mas seu efeito não é da ordem do semblante, é da ordem do real. Então, como algo que é da ordem de um artefato, que é da ordem do semblante, toca no real? Podemos dizer que essa é toda a questão da psicanálise; a partir daquele setting analítico — a psicanálise inglesa usa esse termo do teatro, um set —, mostra-se uma cena em que há uma pessoa que ocupa um lugar, tudo marcado, e interpreta um papel que é o de objeto a — papel que varia a cada análise, a cada analisante.
Nós temos um certo grau de improvisação, na verdade é preciso improvisar o tempo todo, mas há uma marcação ali. Mais artificial que uma análise impossível, se paramos para refletir. Você não pode responder, se você já entrou no diálogo já errou, já não é psicanálise. Há uma marcação e você tem que obedecer a certos preceitos determinados pela estrutura: a política do mais-de-gozar, a estratégia dos semblantes, a não resposta à demanda de amor.
A posição principal do analista — o não responder, responder com o silêncio — é uma das modalidades de fazer semblante de objeto a, em sua face opaca, silenciosa, fora do simbólico. A queixa habitual do analisante — “Mas eu falo, falo e você não diz nada” — se dá porque ele está acostumado, na cena cotidiana, a falar e ter uma réplica, e a análise não é isso. A análise é antinaturalista e, no entanto, opera. Ao contrário do que podemos dizer, quanto mais artefato, quanto mais claramente não naturalista, mais ela opera em nível do real.”
― O que faz o psicanalista: Ato, semblante e interpretação
Nós temos um certo grau de improvisação, na verdade é preciso improvisar o tempo todo, mas há uma marcação ali. Mais artificial que uma análise impossível, se paramos para refletir. Você não pode responder, se você já entrou no diálogo já errou, já não é psicanálise. Há uma marcação e você tem que obedecer a certos preceitos determinados pela estrutura: a política do mais-de-gozar, a estratégia dos semblantes, a não resposta à demanda de amor.
A posição principal do analista — o não responder, responder com o silêncio — é uma das modalidades de fazer semblante de objeto a, em sua face opaca, silenciosa, fora do simbólico. A queixa habitual do analisante — “Mas eu falo, falo e você não diz nada” — se dá porque ele está acostumado, na cena cotidiana, a falar e ter uma réplica, e a análise não é isso. A análise é antinaturalista e, no entanto, opera. Ao contrário do que podemos dizer, quanto mais artefato, quanto mais claramente não naturalista, mais ela opera em nível do real.”
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“O discurso como laço social é sempre um a um. Freud, em Psicologia das massase análise do eu (1921),fala que a relação do liderado com o líder é um a um. Cada liderado da massa tem uma relação com o líder, mas é possível coletivizar um laço a partir da identificação dos liderados entre si. Mas todo praticante de uma religião tem uma relação especialíssima com o guia religioso, é pessoal, é um a um, e isso é muito importante. O sujeito do coletivo é o mesmo sujeito do individual, então é um a um. Assim, a psicologia das massas é composta pelos laços sociais que os liderados têm com o líder. É a coletivização dos laços que leva à massa.”
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