Textamentos Quotes

Rate this book
Clear rating
Textamentos (Portuguese Edition) Textamentos by Affonso Romano de Sant'Anna
3 ratings, 4.33 average rating, 1 review
Textamentos Quotes Showing 1-4 of 4
“ESTRANHAMENTO

Estranho
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.

Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.”
Affonso Romano de Sant'Anna, Textamentos
tags: amor
“SE É PAIXÃO, ME NEGO

Se é paixão, me nego.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.

Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.

Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.

Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.”
Affonso Romano de Sant'Anna, Textamentos
tags: paixao
“MORTE DO VIZINHO

Meu vizinho acaba de se jogar do 15.º andar
e seu corpo caiu no playground
nesta ensolarada manhã de verão.

Estava com depressão, dizem.
Vi-o algumas vezes de bermuda no corredor.
Sei que escrevia sobre Freud.

Seu corpo ainda está lá em baixo.
Se eu tivesse ido à janela há pouco
o teria surpreendido em pleno voo
e lhe estendido a mão.

Estendo-lhe, tardio, o poema
que não interrompe a queda
mas é o gesto possível que antecede o baque.”
Affonso Romano de Sant'Anna, Textamentos
“ENTREGA

Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.

Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demônios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.

Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.”
Affonso Romano de Sant'Anna, Textamentos