Análise Quotes
Análise
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Vera Iaconelli648 ratings, 4.35 average rating, 79 reviews
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Análise Quotes
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“Qual a sua parte naquilo de que você se queixa? Qual o gozo que sustenta o seu sintoma? O que insiste em querer gozar/sofrer ali mesmo onde você se queixa? As interpretações/cortes não apareciam como frases eloquentes ou perguntas elaboradas, podiam ser um “Ah! Tá!”, uma risada ou um silêncio sepulcral seguido da abertura da porta. Às vezes, uma afirmação desconcertante e teatral: “Não é isso!”. Uma intervenção que encerrava a sessão num ponto em que você se via obrigado a analisar o que havia dito sem muita reflexão. A interrupção era tão sutil quanto a antiga expressão “A porta da rua é a serventia da casa”.
A analista regia a cadência da fala, os silêncios, as intervenções, levando a um desfecho preciso que lembrava a estrutura de um conto. Concisão e precisão fundamentais para que o efeito pudesse ocorrer entre as sessões. Assim como apenas o ponto-final de um texto literário — tão esperado quanto temido — é capaz de nos fazer recuperar tudo o que foi dito até então e de nos fazer estremecer. Se o livro cumpre sua função, permanecemos arrebatados ao virar a última página, precisando de um tempo para que a transmissão de algo novo possa ocorrer.”
― Análise
A analista regia a cadência da fala, os silêncios, as intervenções, levando a um desfecho preciso que lembrava a estrutura de um conto. Concisão e precisão fundamentais para que o efeito pudesse ocorrer entre as sessões. Assim como apenas o ponto-final de um texto literário — tão esperado quanto temido — é capaz de nos fazer recuperar tudo o que foi dito até então e de nos fazer estremecer. Se o livro cumpre sua função, permanecemos arrebatados ao virar a última página, precisando de um tempo para que a transmissão de algo novo possa ocorrer.”
― Análise
“Não podendo salvar a mim e à minha família de sua própria tragicidade — porque nunca me pediram e porque, se o tivessem, eu não teria os meios para isso —, acabei por aspirar a “salvar” pacientes. Gesto pretensioso de quem precisa ser ajudada mais do que imagina, haja vista a fantasia onipotente — e antianalítica — de que haveria um salvador, de que haveria salvação para a vida. Foi meu segundo analista, winnicottiano, que muito habilmente apontou a falácia de sentir dó do outro. Quando lembro a merda na qual eu estava afundada enquanto me arvorava no lugar de quem salva, sinto um misto de constrangimento pela empáfia e gratidão por ele ter me ajudado a desmontar essa boneca de Olinda da minha autoimagem: inflacionada, frágil e oca.
Não que não houvesse força e capacidade em mim, mas eu apostava minhas fichas justamente naquilo que mais nos empalidece diante da vida: negação do desamparo que é comum a todos, que é estrutural e que, portanto, ninguém elimina de si, tampouco do outro. Meu analista não estava lá para me dar palavras de incentivo ou inflar meu ego, ao contrário, ele me convidava, com seu silêncio, a perder o medo de encarar o que eu mais temia: meu desamparo, outro nome da castração. Quanto antes eu pudesse encará-lo, melhor enfrentaria os perrengues da vida. Mas demorou.”
― Análise
Não que não houvesse força e capacidade em mim, mas eu apostava minhas fichas justamente naquilo que mais nos empalidece diante da vida: negação do desamparo que é comum a todos, que é estrutural e que, portanto, ninguém elimina de si, tampouco do outro. Meu analista não estava lá para me dar palavras de incentivo ou inflar meu ego, ao contrário, ele me convidava, com seu silêncio, a perder o medo de encarar o que eu mais temia: meu desamparo, outro nome da castração. Quanto antes eu pudesse encará-lo, melhor enfrentaria os perrengues da vida. Mas demorou.”
― Análise
“Quando o mundo ampliou seu escopo, a comparação com a vida familiar se mostrou inevitável e não tive mais como ignorar alguns abismos. Os laços afetivos eram truncados pela impossibilidade de comunicação. Quando a comunicação funcionava, ela revelava que as expectativas entre nós eram inconciliáveis. O que pais, filhos e irmãos esperavam uns dos outros era uma lealdade baseada em abrir mão do próprio desejo em nome da família. Está aí uma coisa que a psicanálise vem para esculhambar.”
― Análise
― Análise
“As entrevistas iniciais — sempre mais de uma, pois também se trata de avaliar os efeitos que cada entrevista tem sobre a seguinte — servem para tornar claro que o paciente só poderá ser tomado em análise na medida em que se colocar em questão. “Por que eu?” “Por que eu perdi um filho, um olho, um casamento, um emprego, anos da minha vida?” Não se trata de uma pergunta retórica.
As respostas que damos para as insondáveis causas dos acontecimentos em nossa vida são de nossa responsabilidade e nos orientam. É por isso que, é terrível, por mais que a sua vida tenha sido um show de horrores, o analista quer saber qual a sua parte nesse latifúndio.”
― Análise
As respostas que damos para as insondáveis causas dos acontecimentos em nossa vida são de nossa responsabilidade e nos orientam. É por isso que, é terrível, por mais que a sua vida tenha sido um show de horrores, o analista quer saber qual a sua parte nesse latifúndio.”
― Análise
“A paciente não sentia prazer com suas conquistas, mas gozava — com grande sofrimento — de ser aquilo que achava que a mãe queria que ela fosse: uma mulher frustrada. Entre o prazer e o gozo, há essa dose de sofrimento que o paciente não reconhece como sendo autoimposto. (...) Qual a sua parte naquilo de que você se queixa? Qual o gozo que sustenta o seu sintoma? O que insiste em querer gozar/sofrer ali mesmo onde você se queixa?”
― Análise
― Análise
“Lacan criou o passe em 1967 com a esperança de que esse dispositivo operasse na formação do analista e na transmissão das análises. Ele é acionado por psicanalistas que querem dar testemunho de suas próprias análises e que entendem terem chegado ao que Lacan preconizou como sendo o final de análise . Sua estrutura é simples: ser entrevistado por dois ou mais psicanalistas da instituição à qual endereçamos nosso pedido de acolher o testemunho. Se o pedido for acolhido, são sorteados dois analistas, que nos escutarão, separadamente. A ideia é atestar se o testemunho da experiência foi transmitido para além do espaço privado da análise e se dizia respeito ao processo de uma análise até seu final. O que se busca é formalizar um relato extraído da experiência. Não passar no passe não significa que uma análise não chegou ao fim, apenas que, mesmo que tenha chegado, o dispositivo não atestou sua transmissão.”
― Análise
― Análise
“Uma paciente que foi morar do outro lado do mundo na tentativa de se separar da mãe, e que levava uma vida cheia de realizações, não se furtava a se apresentar como uma coitadinha, que não conseguia usufruir de nenhuma de suas conquistas. Oferecer seu sofrimento a uma mãe que ela entendia ser ressentida com a maternidade era uma forma de pagar com sua própria existência para ter um lugar ao lado dela. A paciente não sentia prazer com suas conquistas, mas gozava — com grande sofrimento — de ser aquilo que achava que a mãe queria que ela fosse: uma mulher frustrada. Entre o prazer e o gozo, há essa dose de sofrimento que o paciente não reconhece como sendo autoimposto.”
― Análise
― Análise
“Mais do que reconhecer minha competência emocional ou intelectual, tratava-se de descobrir se eu seria capaz de quebrar o encanto segundo o qual haveria alguém que, acima dos demais, garantiria algo, um fiador. Ideia na qual se sustenta a crença em Deus, fiador dos fiadores, de cuja existência não paramos de procurar exemplos à nossa volta. Pode ser um marido, um amigo ou um presidente, tanto faz.
Mas, como estamos todos improvisando sobre o mesmo vazio, quem se arvora nesse lugar de poder é um impostor. É disso que se trata o fim de uma análise, a perda de algo que lamentamos perder sem nunca tê-lo tido de fato. Mais um dos nomes da nossa “paixão pela ignorância”.”
― Análise
Mas, como estamos todos improvisando sobre o mesmo vazio, quem se arvora nesse lugar de poder é um impostor. É disso que se trata o fim de uma análise, a perda de algo que lamentamos perder sem nunca tê-lo tido de fato. Mais um dos nomes da nossa “paixão pela ignorância”.”
― Análise
“Para a psicanálise, nossos corpos são colonizados pela linguagem. A expressão “língua materna” é sugestiva daquilo que nos insere no simbólico e que se dá a partir de um cuidado carregado de afeto e paixão. Os cuidadores principais — muito frequentemente a mãe, mas não só — introduzem a linguagem a partir de olhares, toques, cheiros e sons, nos marcando com o sabor afetivo da língua, através da qual entramos no campo do humano. Recuperamos isso na poesia, que nos faz vibrar, e na qual o sentido corriqueiro das palavras é subvertido em favor do prazer.”
― Análise
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“Comecei minha primeira análise porque meu irmão havia morrido quatro anos antes, meu pai era alcoólatra, minha mãe era submissa a ele e havíamos sido despejados. Não. Comecei porque precisava conversar com algum adulto que fosse confiável, nem que precisasse pagar para isso. Não. Comecei porque esse irmão estudou psicologia e morreu no ano em que se formaria, e fazer terapia era uma forma de me aproximar dele. Não. Porque eu tinha uma profunda identificação com essa mãe, de quem sempre tive pena sem entender sua participação ativa no drama de sua vida, e de quem temia me separar para bancar meu desejo. Não. Porque foi indicação da ex-namorada do meu irmão, a quem o luto transformou em melhor amiga. Comecei porque era nos Jardins, eu morava no centro da cidade e dava para ir a pé. Comecei minha análise porque eram treze horas do dia 20 de novembro de 1982 e eu havia marcado uma entrevista com uma analista.”
― Análise
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