O estilo de Lacan Quotes
O estilo de Lacan
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O estilo de Lacan Quotes
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“E não deixa de ser curioso que a demanda por democracia, abertura e diversidade concentre-se nas abordagens psicanalíticas, deixando incólumes áreas inteiras que se profissionalizam segundo as regras do mercado. Na mesma direção podemos destacar que tenha sido a psicanálise uma das áreas, inclusive da psicologia e das psicoterapias, que mais cedo se posicionou contra a retração democrática vivida pelo Brasil entre 2016 e 2022. Também nessa linha se pode assinalar que foi desde a psicanálise, com expressiva participação lacaniana, que se despertou o movimento das clínicas públicas, abertas e coletivas, com grande incremento desde 2010.”
― O estilo de Lacan
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“Mas há uma diferença substancial entre Joyce e Lacan. O irlandês se interessava vivamente pelas línguas, tendo sido professor de diversos idiomas em muitos lugares. Para Lacan a fala e a linguagem, o discurso e a escrita são noções muito mais importantes do que a língua, considerada em sua especificidade cultural, histórica e diacrônica. Talvez esse tenha sido o enfrentamento final de Lacan com a linguagem. Depois de começar pela fala, seguir para o enunciado e a enunciação, dali para o discurso e para escrita, ele finalmente se deparou com o problema local e particular da língua, ou melhor, das línguas. Não seria por outro motivo que o conceito emergente e representativo desse período da obra de Lacan é lalangue , alíngua, cujo par e parceiro não é o eu que fala nem o sujeito como efeito de linguagem e posição de discurso, mas o parlêtre , o falasser.”
― O estilo de Lacan
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“A pulsão, na prática da escuta, está mais próxima da montagem e desmontagem fílmica. Boa parte de seu manejo consistiria em operar, sobre uma mesa de dissecação da linguagem, descontinuidades, hiatos e cortes, bem como suturas, reconexões e laços. Percebe-se assim que toda interpretação é histórica , no sentido de que articula como uma unidade um conjunto heterogêneo de temporalidades, referidas por exemplo à repetição, às recordações, à transferência e ao fantasma como sistema memorial de linguagem, sujeito e corpo.”
― O estilo de Lacan
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“Finalmente, do grupo de Bataille, no qual Blanchot se forma, Lacan retira uma maneira alternativa e disruptiva de olhar para as ciências humanas. Ao repetir a estratégia barroca de fazer uma ciência sobre aquilo que a ciência moderna exclui para poder se constituir como método e programa de investigação, Bataille propõe a noção de heterologia como um tipo de antropologia baseada no estudo do que uma sociedade teve que excluir e negar para se constituir como tal. Essa parte exilada, da qual não conseguimos nem nos separar e que tampouco conseguimos integrar, será chamada de parte maldita, embrião do futuro conceito de objeto a em Lacan.”
― O estilo de Lacan
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“Desconhecer a história e o próprio pertencimento do estilo à história é um erro típico daqueles que querem construir léxicos filosóficos estáveis e fixos, com sentidos claros imutáveis. Contra isso, Hegel critica o excesso de confiança em categorias, classes e conceitos desprovidos de seu movimento e subalternizados a suas representações convencionais, exemplos normativos e consensos impostos à força. Ele pratica um método que é congruente com essa expectativa, envolvendo a produção contínua de novas palavras e de jogos de linguagem. Trocadilhos e neologismos inventam assim um alemão hegeliano, que se pode entender pela fluência e pela entrada em sua constelação de termos, mais do que pelo acesso ao dicionário. Usando significantes de modo obscuro e onírico, modificando o sentido do conceito, sem avisar ao leitor, Hegel, assim como Lacan, torna-se intraduzível.”
― O estilo de Lacan
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“Segundo o próprio Lacan o conceito de objeto a teria sido a única novidade que ele introduziu na psicanálise. De fato, a ideia de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, bem como os inúmeros desdobramentos e extensões do que entendemos por linguagem, encontram sólidos correlatos em Freud. Também a abordagem pela negatividade pode ser respaldada no amplo espectro de temas, conceitos e noções freudianas de corte negativo, a começar pelo inconsciente, passando pela teoria da defesa e da angústia, por suas concepções de transferência e resistência, incluindo até mesmo a controversa postulação da pulsão de morte.
Já quando olhamos para o conceito de objeto a não encontramos nenhum correlato freudiano direto, restando-nos pensar pelas vias indiretas do trabalho da pulsão, do sonho e do luto, incluindo o fenômeno do estranho (Unheimlich ), no quadro de uma noção mais genérica, como a de repetição. O desenvolvimento do conceito de objeto a e do conceito de fantasma, que é sua noção clínica mais próxima, dependeu de uma crítica radical da fenomenologia sobre a qual Freud trabalhou. Na esteira desse programa emergiu uma nova concepção de prazer e satisfação, bem como uma nova teoria sobre o que é um corpo. Seria preciso refazer a estética transcendental kantiana, com suas pressuposições sobre tempo e espaço, na formação de fenômenos. Seria preciso desfazer a oposição entre desejo e razão e a descontinuidade entre ciência e ética. Seria preciso criticar a prerrogativa do sujeito como instância de reflexividade, autodeterminação e simetria perfeita sobre o objeto. Seria preciso refundar o estatuto sensível do objeto como patologia da razão a partir de um reexame criterioso do estatuto da imagem e do estatuto inerte das categorias de entendimento. Tudo isso Lacan encontrará sobre os escombros de uma ciência mal-sucedida na modernidade, em uma estética alternativa ao Renascimento e no programa de uma ética trágica, fundada na linguagem e na negatividade. Tudo isso Lacan encontrará no barroco.”
― O estilo de Lacan
Já quando olhamos para o conceito de objeto a não encontramos nenhum correlato freudiano direto, restando-nos pensar pelas vias indiretas do trabalho da pulsão, do sonho e do luto, incluindo o fenômeno do estranho (Unheimlich ), no quadro de uma noção mais genérica, como a de repetição. O desenvolvimento do conceito de objeto a e do conceito de fantasma, que é sua noção clínica mais próxima, dependeu de uma crítica radical da fenomenologia sobre a qual Freud trabalhou. Na esteira desse programa emergiu uma nova concepção de prazer e satisfação, bem como uma nova teoria sobre o que é um corpo. Seria preciso refazer a estética transcendental kantiana, com suas pressuposições sobre tempo e espaço, na formação de fenômenos. Seria preciso desfazer a oposição entre desejo e razão e a descontinuidade entre ciência e ética. Seria preciso criticar a prerrogativa do sujeito como instância de reflexividade, autodeterminação e simetria perfeita sobre o objeto. Seria preciso refundar o estatuto sensível do objeto como patologia da razão a partir de um reexame criterioso do estatuto da imagem e do estatuto inerte das categorias de entendimento. Tudo isso Lacan encontrará sobre os escombros de uma ciência mal-sucedida na modernidade, em uma estética alternativa ao Renascimento e no programa de uma ética trágica, fundada na linguagem e na negatividade. Tudo isso Lacan encontrará no barroco.”
― O estilo de Lacan
“Temos aqui três procedimentos análogos da escuta psicanalítica: 1. atenção equiflutuante nesta ou na outra cena; 2. sustentação ou subversão da transferência; e 3. interpretação ou corte. A arte do gesto único será sintetizada por Lacan na abertura de seu seminário público em 1953:
O mestre interrompe o silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé.
É assim que procede, na procura de sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta às suas próprias questões. O mestre não ensina ex cathedra uma ciência já pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la.
Essa forma de ensino é uma recusa de todo sistema.”
― O estilo de Lacan
O mestre interrompe o silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé.
É assim que procede, na procura de sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta às suas próprias questões. O mestre não ensina ex cathedra uma ciência já pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la.
Essa forma de ensino é uma recusa de todo sistema.”
― O estilo de Lacan
“A coexistência entre opacidade e brilho, na estilística lacaniana, corrobora uma hipótese sobre a formação dos psicanalistas. Quando estamos diante de nossos analisantes, grande é a tentação de compreender. Diante do sofrimento intenso, da pressão por uma palavra de orientação ou consolo, da demanda de alívio ou esclarecimento, a sedução para deixar-se levar pelo enredo, ou a propensão a tirar partidos e formular juízos sobre a situação vivida, é permanente. Por isso, a capacidade de habitar espaços discursivos de alta rarefação do sentido é condição para quem quer escutar os outros. A habilidade para valorizar o caráter inclusivo da significação, o adiamento ou aceleração temporal do sentido e o paradoxo do significado definem a escuta analítica, colocando-a em contraposição à tendência natural para a adivinhação e sobrevalorização do que o analisante “quer dizer”.”
― O estilo de Lacan
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“Quando Lacan afirma que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, isso implica que o inconsciente é tanto uma estrutura de língua (metáfora e metonímia, sincronia e diacronia) quanto uma estrutura de fala (pela qual o sujeito recebe sua própria mensagem invertida desde o Outro). Portanto, instância pode ser o lugar da letra no inconsciente e também uma forma de temporalidade de instanciação, desde que se mantenha entre esses dois sistemas, cada qual contendo uma relação reversa entre Simbólico e Imaginário, além de um intervalo para o Real. Instanciação é uma prática típica da linguagem oral, que acentua a função performativa da linguagem em detrimento do uso constatativo ou descritivo. Instanciar é semelhante a interpelar, ou seja, convocar, chamar.”
― O estilo de Lacan
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“A explicação conceitual do discurso de Lacan é importante, mas sem um trabalho sobre seu estilo ela se torna inútil ou simplesmente aberta a usos e abusos arbitrários. O estilo de Lacan envolve uma espécie de sedução que pode alienar, nos fazendo imitar aquilo de que não conseguimos nos apropriar, mas também nos separar do que está sendo dito. Entre o comentário e a interpretação situa-se uma terceira posição, que reúne o estilo de Freud ao de Lacan: a atitude de pesquisa. É por meio dela que a psicanálise pode avançar para seu próprio tempo — seja pela atualização de suas questões, seja pelo reconhecimento da mutação histórica das formas de sofrimento que ela trata, seja pelas descobertas que afetam seus conceitos e fundamentos.”
― O estilo de Lacan
― O estilo de Lacan
“O leitor ideal de Freud e o de Lacan não poderiam ser mais diferentes. Freud emprega recursos textuais caridosos, dialoga com interlocutores conjecturais e frequentemente chama o leitor como se estivesse em uma conversa. Lacan, ao contrário, conta com um leitor ideal que se comporta como um ouvinte extasiado, que se deixa levar por digressões, giros discursivos, ironias e chistes do mestre. Para obter alguma compreensão ele tem que escavar, pedra por pedra, até extrair alguma generosidade do texto. Tudo se passa como se houvesse uma inversão: Freud, o escritor que se dedica à retórica da oralidade; Lacan, o orador que foi sequestrado pela escrita.”
― O estilo de Lacan
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