O Vaqueano Quotes

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O Vaqueano O Vaqueano by Apolinário Porto-Alegre
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O Vaqueano Quotes Showing 1-7 of 7
“Todos que conheciam o vaqueano, ainda que muitos lhe invejassem a morte, o choravam. É que o pranto é sempre o epitáfio da saudade numa ruína onde vicejam flores olentes.”
Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano
“Aos bamburrais da tristeza
Foi-se o pobre coração.
Que de saudades que sinto
Das cochilhas lá do sul,
Dos campos onde escarceia
Meu parelheiro taful!
Ai vida longe dos pagos,
Vida tirana, por Deus!
Quem não gosta da querência,
Da querência que é dos seus?
Abombado, cabisbaixo
Ando nas terras de cá,
Deixo as bolas, deixo o laço,
Deixo o pingo, tudo já.
Boi xucro que vai de tropa,
Não chora o que eu já chorei;
Ai saudades de meu peito,
Saudades do que deixei!
Vem-me tudo na memória:
As tronqueiras e o curral,
A estância com seus potreiros,
O vargedo e o macegal!”
Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano
“Não tinha pouso certo e nunca acontecera ficar duas noites a eito num mesmo sítio, sendo raramente nos povoados, cujo rebuliço o inquietava. A campanha imensa, ondeando em cochilhas, salpicado de capões, como oásis do deserto, o cerro empinado entestando as franças com os céus davam alguma trégua à mágoa que o flagelava. A solidão da natureza consorciava-se à solidão de sua alma, compreendiam-se, talvez.
Uma trazia a expressão indefinida da criação depois de muitos cataclismos, a outra o selo de uma agonia sem termo. Sob o manto verde do campo e sob o peito do homem sentiam-se dois infinitos intraduzíveis, duas almas cheias de vida, porém numa luta titânica com os invólucros que as revestiam. O globo e o homem são uma série de revoluções. Os séculos asassinalam em camadas e gerações.”
Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano
“A prece no sertão é sublime. Parece que Deus deve ser mais visível no espetáculo maravilhoso de criação. Crer-se-ia ali que cada folha, cada brisa, cada volátil murmura seu nome em místico segredar, cada gota espelha sua imensidade. Quantas vezes o homem, a sós, no regaço da floresta, não ouve ruídos indefiníveis, que ele não pode adunar no espírito a coisa alguma conhecida? Ora suave cicio como a nota de uma harpa eólia a lhe prurir a alma; ora um som profundo e misterioso a premar-lhe o anélito no lábio? Sempre como uma voz que faz vibrar-lhe as fibras do sensório, uma por uma, chamando-o a cogitações transcendentes sobre imaterial?
Quem fala nas solidões?
De onde vem o mistério que recolhe a alma nas mais recônditas dobras de sua essência?
Por que essa espécie de respeito, melancolia e terror, que nos possui sob o pavilhão viridante das selvas?
Não será a intuição do infinito?
O mesmo fenômeno moral que observamos nos vastos plainos do mar, quando aos pés temos os abismos imperscrutáveis das águas, e sobre a fronte os abismos sem fim do firmamento?
Por isso, cremos que não há templo onde a oração seja mais sincera e mais ouvida.
Em nossas cidades, estábulos em que se embotam as santas Crenças e os ternos sentimentos, o lábio balbucia geralmente o que não sente o coração. Dos fiéis que enchem o recinto de uma igreja, poucos rezam com unção, os mais satisfazem as conveniências sociais, cumprindo automaticamente as fórmulas de uma etiqueta. O culto das cidades, nos tempos que vão, é uma mentira, uma profanação, conseqüentemente.”
Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano
“Nesta terra abençoada onde a charrua do progresso só há quatro séculos começou a rotear, todos têm o seu quinhão na distribuição dos bens; ainda a esfinge da miséria e do infortúnio sem nome não atirou aos ângulos do espaço um enigma desolado que faz aborrecer a vida e blasfemar de Deus. Ninguém morre de fome. Os frutos prendem das árvores seculares, a maniva rebenta por mil estolhos do terreno inculto, os campos pejam-se de armentio sem conta. Parecem dizer: "Pássaros do céu, habitantes das florestas e das campinas, vinde, isto tudo é vosso". O colono deixa a pátria, e das praias ultramarinas vem faminto, sequioso, desesperado ao éden do Colombo, à luz de um sol que alenta e não mata. A Europa é o Prometeu mítico, em cujas vísceras o bico de um abutre trabalha sem cessar: a comuna que há de arrojá-la moribunda às portas do futuro. Às vezes, o homem aqui mesmo arranca um grito de angústia, rola na degradação de sua própria entidade... Por quê? Porque herdamos com uma civilização estranha, importada diariamente, seus vícios orgânicos.”
Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano
“Caia neve em flocos. O frio, intenso. O mistério daquela natureza recolhida e inânime, profundo e terrível. Não tinha só a melancolia do deserto, o vago e indefinido, que coam na alma as savanas e matas americanas, tinha mais o tom baço, a desoladora taciturnidade, a paralisia, a inércia, a aparência de cadáver, que ressaltam da quadra hibernal. Só quem viajou por noites assim através do ermo selvagem pode compreender a expressão aziaga que lhe é
própria, os sentimentos inefáveis que ele desperta, expressão e sentimentos que jamais a linguagem conseguiria reproduzir, são tão indescritíveis! Então cada folha, cada filamento de relva, cada seixo parece ter um segredo medonho a contar um cochicho de torva ameaça! Tudo se anima, tudo fala.”
Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano
“Não sei que íntima e mística afinidade existe entre a natureza e a alma humana, que a morte-cor de uma se reflete na outra como em bacias de límpidas águas, que o múrmur surdo e merencório desta, como num tímpano, encontra ecos naquela”
Apolinário Porto-Alegre, O Vaqueano