Segundo livro de Crónicas Quotes

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Segundo livro de Crónicas Segundo livro de Crónicas by António Lobo Antunes
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“Hoje estava capaz de me ir embora: pegar nas chaves do carro sem motivo nenhum (as chaves que estão sempre no prato da entrada) descer as escadas (não descer pelo elevador, descer as escadas) até à garagem da cave, ver o fecho elétrico abrir-se com dois estalos e dois sinais de luzes, ver a porta automática subir devagarinho e, logo na rua, acelerar o mais depressa possível, queimando semáforos, na direção da auto-estrada, sem ligar aos paineis que indicam as cidades e a distância em quilómetros, sem uma ideia na cabeça, sem destino, sem mais nada para além desta pressa de me ir embora, colocar entre mim e mim o maior espaço possível, esquecer-me do meu nome, dos nomes dos meus amigos, da minha família, do livro que não acabo de escrever e me angustia. Parar num desses restaurantes à beira das portagens e comer sozinho, sem olhar para ninguém, sem ver ninguém nem sequer aquelas crianças que correm aos gritos entre as mesas e acelerar de novo, segurando o volante tal como, em pequeno, segurava o guiador da bicicleta enquanto o meu pai, correndo ao meu lado, me ensinava a pedalar.”
António Lobo Antunes, Segundo livro de Crónicas
“Hoje estava capaz de me ir embora: pegar nas chaves do carro sem motivo nenhum (as chaves estão sempre no prato da entrada) descer as escadas (não descer pelo elevador, descer as escadas) até à garagem da cave, ver o fecho elétrico abrir-se com dois estalos e dois sinais de luzes, ver a porta automática subir devagarinho e, logo na rua, acelerar o mais depressa possível, queimando semáforos, na direção da auto-estrada, sem ligar aos painéis que indicam as cidades e a distância em quilómetros, sem uma ideia na cabeça, sem destino, sem mais nada para além desta pressa de me ir embora, colocar entre mim e mim o maior espaço possível, esquecer-me do meu nome, dos nomes dos meus amigos, da minha família, do livro que não acabo de escrever e me angustia. Parar num desses restaurantes à beira das portagens e comer sozinho, sem olhar para ninguém, sem ver ninguém nem sequer aquelas crianças que correm aos gritos entre as mesas e acelerar de novo, vazio, segurando o volante tal como, em pequeno, segurava o guiador da bicicleta enquanto o meu pai, correndo ao meu lado, me ensinava a pedalar.”
António Lobo Antunes, Segundo livro de Crónicas
“Aos vinte anos julgava que o tempo lhe resolvia os problemas: aos cinquenta dava-se conta de que o tempo se tornara o problema. Jogara tudo no acto de escrever, servindo-se de cada romance para corrigir o anterior em busca do livro que não corrigiria nunca, com tanta intensidade que não lograva recordar-se dos acontecimentos que haviam tido lugar enquanto os produzia. Esta intensidade e este trabalho faziam que não sofresse outra influência que não fosse a sua nem erigisse como modelo nada fora de si, embora o tornassem mais sozinho do que um casaco esquecido num quarto de hotel vazio, enquanto o vento e a desilusão fazem estalar, à noite, a persiana que ninguém fechou. Não conhecendo a tristeza sabia o que era o desespero: o próprio rosto no espelho para a barba da manhã, ou antes não um rosto, pedaços de rosto reflectidos numa superfície inquieta, incapazes de construírem o presente, devolvendo-lhe fragmentos soltos de passado que se não ajustavam.”
António Lobo Antunes, Segundo livro de Crónicas