A arte de amar Quotes
A arte de amar
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Christian Dunker88 ratings, 3.52 average rating, 9 reviews
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A arte de amar Quotes
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“As redes sociais trazem fartos exemplos de apaixonamentos que violam a regra genérica da intimidade. Ou seja, em vez de prosperar na conversa lenta que gradualmente se transforma em curiosidade e sedução, as pessoas se apresentam com uma lista de quesitos e predicados a preencher e a serem preenchidos. Ignorância total de que nossos amores passam crucialmente pelos vícios, incongruências e problemas que não conseguimos suportar em nós mesmos, vamos “buscar no mercado” de forma inconsciente. Entreveros, adversidades e conflitos de gosto não são considerados um pretexto para o valor erótico da diferença, e excluímos pretendentes como se estivéssemos em uma entrevista de emprego.
Também podemos perceber como uma parte substantiva do discurso de ódio, que grassa nas redes digitais, se organiza em torno de amores não correspondidos, decepções para promessas nunca feitas e ódios a pessoas-tipo que não são o nosso tipo de pessoas narcisicamente amáveis, como nós. A aceleração na resposta desestimula a dialética entre presença e ausência, dificulta a leitura do desejo para além da demanda e facilmente impede que as diferenças criem transferência ou suposição de saber.”
― A arte de amar
Também podemos perceber como uma parte substantiva do discurso de ódio, que grassa nas redes digitais, se organiza em torno de amores não correspondidos, decepções para promessas nunca feitas e ódios a pessoas-tipo que não são o nosso tipo de pessoas narcisicamente amáveis, como nós. A aceleração na resposta desestimula a dialética entre presença e ausência, dificulta a leitura do desejo para além da demanda e facilmente impede que as diferenças criem transferência ou suposição de saber.”
― A arte de amar
“O outro não é apenas um duplo especular, ao modo de um espelho do Eu. Para começar, o outro tem dois olhos, não apenas um. Então em qual ponto de vista devemos nos colocar? Se os olhos piscam ao mesmo tempo, a imagem permanece ainda que não esteja em presença. Mas, se alternamos o piscar entre um olho e outro, o objeto começa a se movimentar, em função de um efeito de ilusão chamado paralaxe. Ou seja, o fato de nós termos uma visão binocular e supormos no outro um único ponto de vista corresponde a uma diferença estrutural entre o eu e o outro. Isso ocorre também porque há um ponto de ausência na visão, bem no centro do cone ótico, chamado mácula. Além disso, a visão, tomada nesse sentido geométrico, equivale à audição, não à escuta. Para escutar e não só ouvir, assim como olhar e não só ver, é preciso subtrair a representação antecipada que fazemos do outro, da imagem, e que não é uma ilusão ótica, mas uma ilusão cognitiva. Quando alguém começa a aprender a arte do desenho, uma das primeiras lições, e talvez a mais importante, no sentido inaugural, é que você deve se ater ao que objetivamente está vendo, não ao que se “sabe” sobre o formato de uma maçã ou das arestas de um cubo.
Isso significa que, para que os dois olhos colaborem na apreensão de uma única imagem, é preciso pensar a partir do quadro, colocar-se no lugar do outro, mas também supor o que o quadro “ignora” sobre sua própria composição. Por exemplo, o tamanho, a disposição e a distribuição dos volumes impõem involuntariamente ao observador que se coloque no ponto exato em que o quadro forma uma boa imagem. Se nos colocamos a menos de um palmo ou a mais de cem metros da Mona Lisa, sua experiência estética simplesmente será outra. Ocorre que, nesse ponto, ao qual nos ajustamos automaticamente – como ajustamos a distância exata à qual um bebê é capaz de formar seu foco visual, sem que ninguém tenha nos ensinado isso –, emerge outro fenômeno: nos vemos sendo vistos. Nossa percepção é a de que fazemos parte da tela e estamos imersos no espaço do museu. Ou seja, recebemos nossa própria imagem, que nos enxerga ali onde não nos vemos. É assim também com a escuta. Reconhecemos o que o outro não escuta, o que ele mesmo diz, e não adianta simplesmente dizer isso, gritar ou se exasperar, porque ele não escuta. E isso acontece porque, no fundo, “não pode escutar”, pois aquilo foi feito para ficar nessa zona cinzenta do não escutado.
Não obstante, há restos – penumbras, zonas de transição, rastros daquilo que não se escuta perfeitamente –, mas que se denunciam como ruídos, particularmente em distorções, exageros, inibições e excepcionalidades da sua expressividade. O senso comum tenta eliminar tais ruídos entendendo que atrapalham a funcionalidade das relações. A psicanálise dá atenção a essas bobagens e imperfeições comunicativas, pois presume que nelas falta o que não pode ser realmente escutado e que de fato está determinando impasses relacionais.”
― A arte de amar
Isso significa que, para que os dois olhos colaborem na apreensão de uma única imagem, é preciso pensar a partir do quadro, colocar-se no lugar do outro, mas também supor o que o quadro “ignora” sobre sua própria composição. Por exemplo, o tamanho, a disposição e a distribuição dos volumes impõem involuntariamente ao observador que se coloque no ponto exato em que o quadro forma uma boa imagem. Se nos colocamos a menos de um palmo ou a mais de cem metros da Mona Lisa, sua experiência estética simplesmente será outra. Ocorre que, nesse ponto, ao qual nos ajustamos automaticamente – como ajustamos a distância exata à qual um bebê é capaz de formar seu foco visual, sem que ninguém tenha nos ensinado isso –, emerge outro fenômeno: nos vemos sendo vistos. Nossa percepção é a de que fazemos parte da tela e estamos imersos no espaço do museu. Ou seja, recebemos nossa própria imagem, que nos enxerga ali onde não nos vemos. É assim também com a escuta. Reconhecemos o que o outro não escuta, o que ele mesmo diz, e não adianta simplesmente dizer isso, gritar ou se exasperar, porque ele não escuta. E isso acontece porque, no fundo, “não pode escutar”, pois aquilo foi feito para ficar nessa zona cinzenta do não escutado.
Não obstante, há restos – penumbras, zonas de transição, rastros daquilo que não se escuta perfeitamente –, mas que se denunciam como ruídos, particularmente em distorções, exageros, inibições e excepcionalidades da sua expressividade. O senso comum tenta eliminar tais ruídos entendendo que atrapalham a funcionalidade das relações. A psicanálise dá atenção a essas bobagens e imperfeições comunicativas, pois presume que nelas falta o que não pode ser realmente escutado e que de fato está determinando impasses relacionais.”
― A arte de amar
“O amor, porém, assim como o pecado, envolve atos, palavras e pensamentos, e como todo amor depende de ficção e metáfora, a forma como o praticamos é que levanta problemas. Pensar pode – fantasiar também –, obrigar o outro a participar, não. O problema é que as fantasias têm sede de realidade. Tântalo, Prometeu, Sísifo, as Danaides e os demais acorrentados do reino de Plutão só conseguem beber da água da realidade em fontes narcísicas, em cachoeiras repetitivas e em lagos pantanosos.
Isso sugere uma dificuldade estrutural para toda forma de amor, representando uma tarefa ingrata quando se trata do processo de desamar alguém. A irrealização do amor, sua imanente virtualidade, sua contingência, que inclui o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, continua a acontecer em nossa fantasia. Em outras palavras amamos também o que “poderíamos ter sido”, assim como temos saudade do que “nunca aconteceu”. É nesse sentido que o amor compreende sempre uma fantasia delirante de liberdade. Essa liberdade é pensada aqui não a partir de um limite exterior – independentemente de leis que permitem isto ou aquilo, e proíbem aquilo e aquilo outro –, mas de um limite interior, formado na experiência singular daquela pessoa com o outro amoroso, inclusive nessas diferentes qualificações do amor.”
― A arte de amar
Isso sugere uma dificuldade estrutural para toda forma de amor, representando uma tarefa ingrata quando se trata do processo de desamar alguém. A irrealização do amor, sua imanente virtualidade, sua contingência, que inclui o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, continua a acontecer em nossa fantasia. Em outras palavras amamos também o que “poderíamos ter sido”, assim como temos saudade do que “nunca aconteceu”. É nesse sentido que o amor compreende sempre uma fantasia delirante de liberdade. Essa liberdade é pensada aqui não a partir de um limite exterior – independentemente de leis que permitem isto ou aquilo, e proíbem aquilo e aquilo outro –, mas de um limite interior, formado na experiência singular daquela pessoa com o outro amoroso, inclusive nessas diferentes qualificações do amor.”
― A arte de amar
“Quando o apaixonado é tomado por uma “sensação de verdade”, ele intui a plena realização de seu desejo. Diante do abismo, ou seja, “lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação”, ele vê todos que o cercam situados diante de sua paixão. A paixão demanda provas de amor, signos estáveis e seguros de que não estamos sozinhos. As palavras do amado repercutem em alto volume na alma do amante. O apaixonado sente-se raptado e errante, querendo possuir o impossível. Nunca acreditamos demasiadamente no amor que o outro nos dispensa. Por isso o apaixonado vive entre a nuvem do mau humor e a noite do desespero. A espera, o mutismo, a incerteza da resposta fazem de todo apaixonado um louco em potencial. O sintoma mais comum é a loquela, ou seja, diálogos imaginários sem fim com e contra aquele que se ama. Frequentemente tem ideações suicidas apenas para imaginar a falta que causaria àquele que ama. Ele recorre a informantes, cria ciúmes como cenas de amor, fica vulnerável a fofocas, sente-se ofendido por pequenas faltas do amado. Como resposta ao tormento da paixão, o sujeito começa a transformar afetos, emoções e sentimentos em uma disposição amorosa para a transformação social. Escreve cartas de amor, nas quais admite que pode existir ausência entre eles, além de esconder seus sentimentos e criar filosofias sobre o caráter inexprimível do que sente. Transforma sua desrealização e despersonalização em romances ficcionais. Negocia sua dependência a ponto de circunscrever o acontecimento amoroso e finalmente se perguntar: o que fazer com essa paixão?”
― A arte de amar
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“Ficar longe dos ambientes tóxicos e evitar gatilhos são duas maneiras de controlar a transposição de afetos por meio de sentimentos sociais homogêneos, vigiados e harmônicos, ao modo de paisagens internas e externas de condomínios artificiais. Ocorre que discursos protetivos como esses nos protegem também da angústia que cerca o desencadeamento ou o gatilho amoroso, que é igualmente imprevisível, surpreendente, perigoso e indutor de afetos incontroláveis. Por outro lado, seria difícil pensar em uma forma de vida amorosa sem momentos tóxicos, que envolvessem desavenças, infortúnios, repetições de equívocos e mal-entendidos.”
― A arte de amar
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“Com Clarice Lispector acontece o contrário. A intimidade leva ao sexo, assim como o sexo leva à intimidade. Isso acontece porque Lory não sabe muito bem o que sente por Ulisses, ela precisa passar por um processo de aprendizagem dos prazeres. Ela hesita entre tomar o desejo como seu ou como o desejo do desejo do outro. Parte dessa hesitação a leva ao desconhecimento da fronteira entre amor e desejo. O sexo aparece aqui como uma espécie de ponto de convergência, mas também de agudização do conflito vivido.”
― A arte de amar
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“O bom ouvinte não vai pegar apenas aquela demanda, aquele sofrimento que está visível em primeiro plano. Vai se ocupar também do que está na periferia, do que muitas vezes não é possível reconhecer muito bem a razão e a causa do sofrimento. Certamente, a escuta envolve a capacidade de se deixar impressionar e de se colocar no lugar do outro. Mas ela prossegue, além disso, como uma investigação sobre como e por que foram escolhidos precisamente aqueles e não outros meios de expressão. Por isso, o problema da escuta, da empatia, não foi inicialmente estudado por psicólogos nem psicanalistas, mas por teóricos da estética. Quando vamos a um museu e nos deparamos com imagens que nos interpelam ou que nos assuntam, é como se fôssemos projetados para o lugar de uma questão. Ou seja, para apreciar uma obra de arte é preciso colocar-se no lugar em que somos a questão que ela nos faz, e ao mesmo tempo na posição em que ela responde às nossas questões. Apreciar uma obra de arte é conversar com ela, incluí-la em nossa conversa e nas conversas que nos antecederam.”
― A arte de amar
― A arte de amar
“A escuta é uma técnica, um método e frequentemente se subordina a uma abordagem ou atitude. Jornalistas, cientistas, artistas, médicos, antropólogos e psicoterapeutas usam a escuta de forma profissional, mas ela está disponível para qualquer um que se disponha e se interesse por relações. Vendedores são escutadores profissionais natos, assim como os palhaços. As atitudes e disposições nas quais o desenvolvimento da escuta ocorre de modo orgânico envolvem um certo interesse e curiosidade pelo outro, a fascinação por história, literatura ou teatro. Frequentemente encontramos entre escutadores uma inclinação para tirar o outro de si mesmo, desorganizar situações ou papéis sociais, por isso às vezes eles podem ser percebidos como provocadores, irreverentes ou bagunceiros. Ou seja, escutadores não se contentam com o funcionamento ordenado do mundo com seus papéis e sua funcionalidade, eles querem saber o que há por trás de tudo. Querem conhecer as coxias, saber como é feito o cenário, quem compôs a música, quem são os atores por trás dos personagens e, afinal, quem está na direção da peça, seja ela cômica ou trágica, dramática ou epopeica, a qual chamamos vida. Escutadores, como detetives policiais, querem descobrir o que há por trás das máscaras, das intenções declaradas, dos afetos explícitos e das moralidades constituídas.”
― A arte de amar
― A arte de amar
“A escuta é uma experiência diferente de se meramente ouvir. Não é uma recepção passiva do que o outro diz, muito menos a aceitação incondicional do que o outro quer dizer. Escutar é a arte de suspender nosso exercício de poder sobre o outro e sobre nós mesmos. Como abordei no livro que escrevi com o palhaço Cláudio Thebas, escutar implica passar por quatro estações:
1. Abrir-se em hospitalidade para a língua e da estrangeiridade de outrem.
2. Mergulhar em um exercício investigativo e curioso sobre as causas do sofrimento do outro.
3. Colocar-se no lugar do outro até o ponto em que o Outro que o habita convoca nossa loucura mais íntima.
4. Formular, a partir dessa loucura, um novo fragmento compartilhado de saber, por meio do qual a conversa continua e retorna à primeira de nossas quatro estações, mas agora em uma língua, uma cultura e uma relação diferente da primeira.”
― A arte de amar
1. Abrir-se em hospitalidade para a língua e da estrangeiridade de outrem.
2. Mergulhar em um exercício investigativo e curioso sobre as causas do sofrimento do outro.
3. Colocar-se no lugar do outro até o ponto em que o Outro que o habita convoca nossa loucura mais íntima.
4. Formular, a partir dessa loucura, um novo fragmento compartilhado de saber, por meio do qual a conversa continua e retorna à primeira de nossas quatro estações, mas agora em uma língua, uma cultura e uma relação diferente da primeira.”
― A arte de amar
