O céu para os bastardos Quotes

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O céu para os bastardos O céu para os bastardos by Lilia Guerra
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“Acho que o seu bisavô, branco e muito, muito pobre nunca foi torturado, Betinho. Amarrado a um tronco. Surrado. Marcado com ferro quente. Nunca teve um dente arrancado à força nem recebeu sal e vinagre nas feridas abertas pelo chicote. O seu bisavô branco e pobre não foi separado da família. E, pelo que me consta, nunca trabalhou sem receber pagamento nem dormiu numa senzala. Um homem branco podia sim ser mal remunerado. Mas nunca escravizado. Podia ficar desempregado, sem ter uma colherada de farinha ou um gole d'água pra oferecer aos seus. Mas era livre. A seca e a miséria podiam alcançar um homem branco e pobre como o seu avô, que lamentaria a sua falta de sorte. Sem algemas nos pulsos ou grilhões no pescoço. Se a doença corroesse a carne de um homem branco, ele seria consumido livremente. A loucura podia tomar conta de um homem branco. Ele seria um homem louco. Mas livre. Ele sempre seria livre. Uma mulher branca podia ser muito, muito pobre. Nem por isso teria os filhos arrancados dos seus braços diretamente para as mãos dos compradores. Por miserável que fosse uma mulher branca, não seria obrigada a oferecer o leite do seu peito ao filho de outra, enquanto o seu próprio filho era privado de ser alimentado. E mesmo se fosse tão pobre a ponto de ter os seios secos, não seria impedida de segurar a sua cria junto ao corpo, procurando dar consolo pra ela. Uma pessoa branca e muito pobre podia trabalhar sem descanso, economizando moedas até se tornar próspera. E, se construísse um império, deixaria de ser pobre, tornando-se somente rica. Já um homem negro, mesmo que enriquecesse, continuaria sendo um homem negro. Ainda hoje, Betinho, se um negro, no auge do desespero, furta um pão, a notícia se espalha: “Aquele negro é um ladrão!”. No entanto, se é um branco que rouba, o comentário se modifica: “Aquele homem cometeu um delito”. Então, sua mãe branca, neta do seu bisavô branco, não sabe do que está falando. É o que eu acho.”
Lilia Guerra, O céu para os bastardos