Freud e a Religião Quotes

Rate this book
Clear rating
Freud e a Religião Freud e a Religião by Sérgio Nazar David
4 ratings, 4.00 average rating, 1 review
Freud e a Religião Quotes Showing 1-3 of 3
“Diferentemente, Schopenhauer arma sua teoria sobre o homem, trazendo uma nota de desacordo em relação ao que era dominante na filosofia de seu tempo (a Natureza para ele seria má), mas trazendo também muitas notas de concordância, na medida em que subordina o amor e o desejo sexual a uma norma (da Natureza): fazer o Mal. O Bem, para Schopenhauer estaria no aniquilamento, na ex-tinção da própria espécie. Schopenhauer irá abalar os ter-mos considerados harmônicos (dever/razão/felicidade do homem no mundo). Mas irá também, por outro lado, apoiar aqueles que defendiam a relação sexualidade/natu-reza/propagação da espécie, tão bem acolhida à época.
Jacques Lacan, no Seminário 7 — A ética da psicanálise, vai mostrar que o desejo do homem, “longamente apalpado, anestesiado, adormecido pelos moralistas, domesticado pe-los educadores, traído pelas academias” , será abordado por Freud numa perspectiva totalmente distinta. E a diferença maior está no fato de Freud colocar um ponto de interro-gação no campo do desejo. É por isso que dizemos que o sujeito para a psicanálise é dividido: porque é acossado a todo instante por forças nunca completamente dominadas, as pulsões; e porque a pulsão sexual, que o afeta, tem por objetivo sempre tão-somente aquilo que pode proporcionar satisfação. Ou seja: só o que é único na pulsão é o alvo (satisfação), nunca o objeto.”
Sérgio Nazar David, Freud e a Religião
“Freud não via nada de bom no idealismo. Para ele, com um ideal o homem ilude a si mesmo e aos outros. Todo ideal é enganoso e enganador. Isso quer dizer que a proposta freudiana é não crer em nada? Claro que não. É, pelo contrário, desconfiar daqueles que prometem tudo. Por exemplo: quando dizemos que devemos desconfiar do amor enquanto ideal, isso significa que o amor não existe? Não. Significa apenas que não devemos esperar tudo do amor, que o amor — assim como todas as coisas da vida — é finito e tem limites. Quando, a partir de Freud, dizemos que devemos desconfiar do Mandamento “ama ao próximo como a ti mesmo” , isso significa que estamos pregando o egoísmo e a violência? Também não. Apenas estamos lembrando o que é puro ideal: que ninguém é capaz de amar alguém só porque esse alguém é seu semelhante. Para Freud, o amor é uma moeda muito preciosa, que não deve ser distribuída assim, sem se olhar a quem. (Aliás, normalmente não é amor o que o homem dá sem olhar a quem.) Pelo contrário, sob o manto da caridade e da compaixão, o que o homem faz é satisfazer no próximo sua agressividade, é explorar seu trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consenti-mento, apropriar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Ao nos lembrar desse trecho da obra de Freud, que está em O mal-estar na cultura, Jacques Lacan completa: “Aqueles que preferem os contos de fadas fazem ouvidos moucos.”
Sérgio Nazar David, Freud e a Religião
“A última e a mais severa crítica à religião teria vindo, segundo Freud, da psicanálise, que mostra que a religião se originou do desamparo da criança prolongado na idade adulta. No lugar do pai protetor da infância, o homem adulto põe o Deus, Pai, Todo-Poderoso, a quem se deveria louvar e dar graças em todo o tempo e lugar. Com esta associação, Freud impugna também a origem divina da religião. Alguém dirá que isso é muita presunção de Freud.
Ele mesmo respondeu a isso, mostrando que, mesmo que estivesse ele também iludido, suas ilusões não possuiriam caráter de delírio, e que se a experiência demonstrasse que ele estivera enganado abandonaria seus pontos de vista. Sua tentativa de compreender as idéias religiosas deveria ser tomada por aquilo que de fato era: uma tentativa.
As posições de Freud não são nada fáceis de serem admitidas. Ao estender o campo de observação aos fenôme-nos da vida mental, ele questiona o abrigo e o conforto que o homem vai buscar na religião, e ainda acrescenta: onde esse homem julga ter sua morada mais segura (i.e, na consciência), é justamente aí que invasões incômodas (i.e., pensamentos indesejáveis) vêm lhe turvar a paz.”
Sérgio Nazar David, Freud e a Religião