Catatau Quotes

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Catatau (Portuguese Edition) Catatau by Paulo Leminski
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“A estrepolia extrapola: misériadiscórdia! Saicaco de cadaboca. Um cisne maquina o último canto, uma fênix fez das suas. Aviso. Extremamente única, a avis rara — exemplário, o inexistente modelar. Partes fudendas, partes infidelium: artes fidelitatum! Já não vi tudo. Hoje é assim. Antes assim fosse. Alguém pensou aqui. Já pensou nisso? Dedico-me. Parece mais verdadeiro, conforme confere. Percorre um discurso, me perco já já. Oponha a memória, inaugure a máscara: risquezas desargonizantes. Per capítulo de porco! Intendência, atendo aqui. Só eu sei dizer, nem sei fazer: faz-se. Não mudei em nada, não toquei em coisa alguma, não alterei nenhuma identidade. Já melhorou o filósofo ilustre em trevas. Lauto juntar. Somos assim: nemo id negat. Laetare aleluia: alegria de quem pensa vendo tudo passando dos limites. Boas novas, estrelas várias desesclarilham, vem vindo aqui. Experímetro: ruminar o rumor, o motor movendo. A verdade vem saindo mais ampla que convinha. Tudo já era passado, não sei se me afobo. A todo preoculpado, o seu cuidado: tortura, torturado! Meu nome é este, não diga outro. Nada esperem de mim os desesperados. Bem feito para o caracolega, sem jeito para morrer. Atortormentava os fantasmas que habitam os mármores e marfins da lógica, fazendo tudo dar certo: leva tempo mas chega. Vale a penúria? Ave et valéria! Penso desbragadamente: chega de dar na estica. Aceito o seu mau jeito: não vai dar para saber. Alguma novidade? Uma ova. Agora é que são elas, distraio-me fazendo. A verdade é o que há de eterno na notícia. Línguas antigas falam na lógica. Super re tam abhorrenti a fide, o real — assíduo no desverdadeiro, ou é outro desses truques malabares? Que é que estão esperando? Dubitatores, quem cochicha — conhece, um quiproqual sofístico.”
Paulo Leminski, Catatau
“Os escribas se multiplicam pela terra, cada escriba faz o filho ser escriba, o qual escreva história de seu escriba pai: um escriba vê o outro e aprende a sê-lo também, ser escriba ou mestre de escribas ou guardião das escritas, ou herói das bibliotecas, gerente de engenhos de escritos, fazendo as sagradas escrituras. Quando o último escriba morrer, outro escriba ao lado pronto para tomar nota. Livro, já estiveste dentro de um sonho e te fiz despertar porque o sol é melhor que o sonho! Desconfio da dúvida, incorro numa certeza: zombo de esquecimento. Mostro e nego o monstro para o monstrengo: acredito no que não sei, três barrufos, três toques! Toco, tuco, tucum! Aconteceu-lhe ser. Haja. Que é que há? Falo tanto que minto algo: muito não está certo. Assisto, míope. Horizonte de cegos: quem tem muitos olhos, comparo aos cegos e às cegas, reis às vistas ou ao alcance de um óculos de ver longe. Cego não vê, não lê, não crê, não é? O escriba sonha com um herói cego? Pois haja cegos nessa Pérsia! Aconteceu-lhe um estado, golpe de graspa na couraça da carcassa. Ofereço o pensamento e só ouvem a voz? Tacanho tacuíno, canhenho alcuinho. Caí em mim e fiquei parado como caí, negando ecos e dizendo o contrário? Mim, quem? Sonho um pouco e já volto para a revanche. Caimcapim! Alminguém... O mundo esquece de nós quando dele nos esquecemos. Obedeço à distração: lembro do Lete, que só de me lembrar um olvido me crise. Dou um salto no claro. Errei. Sobrou uma? Uma vez só, e basta uma. O poeta fala do ciclope cego, cego falando de cegos: não precisa de rei. Rei é para mandar, apreciar, punir: lei, régua, cárcere. Cego não faz nada, portanto não erra, logo não é réu de nada. Báratro de cego, — cucas adentro, ver o fogo, apaga o fogo. Fogapagou, fugapogeu! Minotauroformou-se, cada um trate de ensimesmar-se, mesmo que seja cegovesgo! Vire para dentro a cara que forachove. A sengas arengas, parlongas flamingas: abismo na cabeça, jogo a cabeça no abismo, um hiato nos abismos, pelo prisma dos sofrismas, espicho a cabeça de lado, abismado. Lavo minhas mãos no sangue da vítima, chacoalhar o olho, chácolher de molho! Galope galego, peregringrenalda! Dá tempo ao tempo que atrasa até acabar. Cada um como cada qual vê qualquer como bem quer: por essas e por outras, fico com uma e outras. Os ídolos caem no pensamento, explodindo em adorações. A mãe do esquecimento deixa lembranças, assim veio a filha a fazer-se mãe de sua própria progenitora. Filósofo, louco de propósito; intérprete de verdades, setenciado por si mesmo, pregador contrário a si, mestre de ver, cego. O silêncio é bemaventurado, e ele o exalta falando demasiado? O arqueiro, cego: a flecha não tem pé nem cabeça. Cego, em silêncio, esquecido, esquece de tudo, emudece de surdo e enlouquece de novo. Silêncio, vaso ou vazio? De que lado do espelho estás? Sonho um eco.”
Paulo Leminski, Catatau
“O dedo duro aponta os cinco dedos, cada dedo acusa o que o dito cujo! Um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho dentro, e no fundo do sonho dos sonhos, o Senhor das Luzes e das Sombras, Lúcifer, rex somniorum! Ouço música dentro da minha cabeça, gês gingando, rês pingando: o lixo da música, silêncio. Cai um som em cima do ronco; bater coisas em coisas é música e é coisa. Regime do solitário. Desconfio da flecha, Bardesanes. Parece saber dos nossos intentos. Saberá que Zenão atira mas não? Pouco curiosos em relação ao que sabemos, e como sabemos tão pouco, mal, demais, sobre tão pouco e um outro tanto! Onde estarão minhas flechas, já estão aí à porta, já ouço, si ego sibilinus sibilo crudeliter te excruciabo! Profecia. Essa flecha ia. Decreto. Seja lançada. Princípio. A flecha, de todos. Réplica. Os que atiram. Súplica. Não atire. Oração.Ó fecha de Zenão. Corrigenda. Disse senão? Reprimenda. Eu disse não. Flecha de quatro lados, lance de desenlace numa jogada! Flechas persas, intermediárias entre os gregos e o sol: incendiárias. Cadabrilho atrai trabalho, cada bicho troca de barulho. Constraço. Retrusco: traga. Trinca de quatro. Tome um trago, toque aqui. Um treco. Um taco, um tranco. Trinque o trunfo em três, tranque troco. Truque: repito o que digo e discuto com o eco. Morre ser, fica o signo: chinfrim de três em pipa, papo, pepo e pupo!”
Paulo Leminski, Catatau
“Presente, um preso pronto se apresentando! Da alçada do coração, a laçada do pensamento, o laço! A flecha contra Aquiles acabou de cruzar a flecha de Zenão, perdida num carrosselcarretel de senões... A máquina da infelicidade trabalha celelecereremente. Pelo visto, tiro a base do porver. Pelo pensado, traço uma linha por baixo dum quadrado inscrito num triângulo isósceles, o equivalente a três cubos de um outro sisteminha que penso, de joguinhos humílimos e subminúsculos, adminísculos pequenininhos, o diabrete no saquitel, microminimimequenihilmirim! Colossomausoleão! Rei é o leão, matem os outros! Cabeçorrabarroca de cachorralouca! Macacomecomam! Numa quermesse belga, num convescote persa, as conversas dos bispos do Japão! Caligrafia sob tortura, o sumoprimor da arte. O leão está na nau capitânea, é lógico. Morra, essa foi fácil. E a da flecha furando a bandeira persa? Erro crasso, era a máscara trágica. Par sem igual, tuas aparições, visagens viajando na miragem, viu-as Pacômio, Pafnúncio viu-as, e viram-na os padres do deserto, diamantes se polindo nas rochas da vastidão! A roda rola em plano inclinado côncavo, — o olho: duas bolas esbugalhadas olhando dois cocos. A zurrapa do ser, néctar dos deuses. Saudade, atraso de vida. O óbvio: apogeu do assombro. O ápice do exemplo: cópia do modelo. Primor do nervo é crer imortal a alma, o ventre elegantemente posto entre parênteses.”
Paulo Leminski, Catatau
“Daqui não dá para ver bem mas é alguém matando um outro. O qual já morreu, mas vamos ao que interessa. Onde é que nós estávamos mesmo? Falando. Um jurisconsulto, um dia, fez o projeto do juiz perfeito chegando à conclusão que o juiz seria tanto mais perfeito quanto mais se assemelhasse ao réu, para conhecê-lo e puni-lo com justiça. Ora, ninguém mais semelhante ao réu que ele mesmo. Assim o juiz e o réu são a mesma pessoa, que se absolvem e fazem as pazes.”
Paulo Leminski, Catatau
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