Orfeu Rebelde Quotes

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Orfeu Rebelde Orfeu Rebelde by Miguel Torga
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“Desço aos infernos, a descer em mim.

Mas agora o meu canto não perfura

O coração da morte,

À procura

Da sombra

Dum amor perdido.

Agora

É o repetido

Aceno

Do próprio abismo

Que me seduz.

É ele, embriaguez nocturna da vontade,

Que me obriga a sair da claridade

E a caminhar sem luz.



Ergo a voz e mergulho

Dentro do poço,

Neste moço heroísmo

Dos poetas,

Que enfrentas confiantes

O interdito

Guardado por gigantes,

Cães vigilantes

Aos portões do mito.



E entro finalmente

No reino tenebroso

Das minhas trvas.

Quebra-se a lira,

Cessa a melodia;

E um medo triste, de vergonha e assombro,

Gela-me o sangue, rio sem nascente,

Onde o céu, lá no alto, se reflecte,

Inútil como a paz que me promete.”
Miguel Torga, Orfeu Rebelde
“Orfeu rebelde, canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casca do tempo, a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto, a ver se o meu canto compromete

A eternidade do meu sofrimento.



Outros, felizes, sejam os rouxinóis...

Eu ergo a voz assim, num desafio:

Que o céu e a terra, pedras conjugadas

Do moinho cruel que me tritura,

Saibam que há gritos como há nortadas,

Violências famintas de ternura.



Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo dum poeta que a recusa,

Canto como quem usa

Os versos em legítima defesa.

Canto, sem perguntar à Musa

Se o canto é de terror ou de beleza.”
Miguel Torga, Orfeu Rebelde