“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.”
― Hour of the Star
― Hour of the Star
“A JAULA
Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.
Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.
Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.
Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.”
―
Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.
Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.
Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.
Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.”
―
“[...] não fugir de mim, não fugir de minha letra, como é leve e horrível, teia de aranha, não fugir dos meus defeitos, meus defeitos, eu vos adoro, minhas qualidades são tão pequenas, iguais às dos outros, meus defeitos, meu lado negativo é belo e côncavo como um abismo. O que não sou deixaria um buraco enorme na terra.”
― Near to the Wild Heart
― Near to the Wild Heart
“O DESPERTAR
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios
Que farei com o medo
Que farei com o medo
Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver
Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue
É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada
Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada
Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi
Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?
Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?
O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual
Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde
Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue
Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo”
―
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios
Que farei com o medo
Que farei com o medo
Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver
Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue
É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada
Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada
Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi
Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?
Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?
O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual
Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde
Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue
Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo”
―
“6
ela se desnuda no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
13
explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me
35
Vida, minha vida, deixa-te cair, deixa-te doer, minha vida, deixa-te enlaçar de fogo, de silêncio ingênuo, de pedras verdes na casa da noite, deixa-te cair e doer, minha vida.”
―
ela se desnuda no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
13
explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me
35
Vida, minha vida, deixa-te cair, deixa-te doer, minha vida, deixa-te enlaçar de fogo, de silêncio ingênuo, de pedras verdes na casa da noite, deixa-te cair e doer, minha vida.”
―
muna’s 2025 Year in Books
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