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A Mão Esquerda da Escuridão
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Ficção Científica #3 > Tópico 4 - Capítulo 20 - A Mão Esquerda da Escuridão

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André Sposito | 48 comments Mod
Tópico de discussão #4

Spoiler liberado até o final do livro


message 2: by AprilMarch (new) - added it

AprilMarch | 10 comments Bom, eu vou começar a discussão aqui. Não reli o livro porque li pela primeira vez no começo do ano. (!!) Inclusive, estava lendo quando a LeGuin faleceu. (!!!) Só não postei antes por procrastinação, então...

Demorou um pouco para a leitura engrenar no livro. Mas foi muito a minha culpa. Como o livro tem uma temática bem moderna, falando sobre gênero e talz, eu acho que na minha cabeça ia ser um livro de hoje que por acaso tinha sido publicado no passado. Surpresa! Este livro escrito nos anos 60 parece com um livro escrito nos anos 60. Tem aquela prosa densa e complexa que joga o leitor no mar sem perguntar se ele sabe nadar. Fazia um bom tempo que eu não lia um livro desses, e ainda bem que eu não me deixei perder a prática.

Quando me adaptei a livro, entendi porque a LeGuin é considerada uma das grandes criadores de mundos de ficção científica. É fácil criar um planeta alienígena dizendo algo como 'nas terras áridas do planeta Plörp, vive um povo furioso com um chifre no cotovelo esquerdo!' Criar um planeta alienígena estabelecendo uma cultura e uma civilização diferente, mas com todas as nuances que o nosso planetinha mal-cuidado tem, é um feito bem maior. Um escritor menor teria escrito todo o livro sobre como eles não têm gêneros constantes; a LeGuin faz com que isso seja apenas uma característica deles, e pode-se perceber como ela diferenciou o que é típico da espécie, o que é típico de cada país, e o que é típico de cada personagem, e como cada um desses fatores afeta o outro. Não existem atalhos nem estereótipos: cada pessoa é uma pessoa.

A ideia de uma civilização em que as pessoas não têm gênero, efetivamente, é muito bem desenvolvida. As fábulas antigas que aparecem entre os capítulos mostram de uma maneira bem sutil como as narrativas podem ficar diferentes quando não existem papéis de gênero a serem cumpridos, quando o "fiel amigo" e a "nobre amante" podem ser a mesma pessoa. A única coisa que me deixou confuso foi a asserção de que não existem guerras, no sentido de que não há exércitos organizados. Não que eu não veja a guerra como algo essencialmente masculino, pelo menos no que tange à busca pela glória e pela supremacia física; só não entendo por que foi nesse ponto específico que ela decidiu traçar a linha.

Outra coisa que achei bastante interessante foi a visita de Genly ao profeta. Essa é uma coisa que também associo bem mais a ficção científica moderna - uma representação franca e direta de eventos místicos, sem tentar dar uma explicação científica para eles, simplesmente admitindo que, talvez, haja algumas coisas que não compreendemos no mundo.

Uma coisa que me chamou muito a atenção foi como foi fácil eles tirarem o ansible do Genly e deixá-lo preso, sem recursos. Quando li pela primeira vez achei uma coisa um pouco difícil de acreditar. Será que uma sociedade tão avançada não poderia criar um aparelho implantado, ou outra solução tecnológica para manter seus diplomatas em segurança? Agora, que já faz uns meses que eu li, eu acho que isso é parte da tese humanista que o livro defende. Genly não tinha um aparelho que pudesse ajudá-lo mais não porque LeGuin não podia concebê-lo, nem porque sem isso a história teria um fim chato, mas pelo mesmo motivo que ele veio ao planeta, sozinho, e sem nenhum bricabaque tecnológico para demonstrar que ele realmente era de uma civilização intergalática: porque é assim que as pessoas agem, de braços abertos para o mundo, mesmo sabendo do risco de serem passados para trás. Seja a mudança que você quer ser no mundo... ou no universo.

Achei minha análise bem fraquinha, mas é um livro bem denso e cheio de coisas para estudar, então só peguei uns fios da meada que me chamaram a atenção.


Priscila Reis | 6 comments Realmente é um livro que discute mtos temas!
Nunca tinha lido Leguin, e agora estou questionando toda minha vida! Hahahahaha
Mas enfim, assim como a própria diz, a ficção científica não é uma previsão do futuro, mas sim uma análise das coisas como elas são hj. E essa ideia permeou minha leitura do livro.
Ao criar uma sociedade “sem gênero”, ela deixou claras algumas falácias e falhas da nossa sociedade. Vemos isso claramente quando Gently insiste em classificar atitudes ou características como “femininas/masculinas”, mesmo isso não sendo aplicáveis à sociedade. Ou seja, mesmo como uma pessoa que estudou essa sociedade e que deve respeitá-los para conseguir sua confiança, ele ainda não consegue superar seus próprios preconceitos sobre gênero e sua função no governo/sociedade.
Parece que ele só consegue superar isso com seu exílio. Ao ficar meses “confinado” com Estravan, ele finalmente passa a aceitar a realidade daqueles seres: eles são formados pela união do f/m, e tentar entender esses lados de forma separada é desrespeitoso e inútil.

Confesso que não achei o personagem em si mto interessante. Mas acho que ele é um veículo para reflexão mais do que ele é um personagem.

Enfim, estou empolgada para ler os outros livros desse universo


Jayne Oliveira (jayneloliveira) | 19 comments Enrolei muitos meses p/ vir comentar. [não lembro mais de detalhes, então peguem leve. Farei comentários das coisas que me marcaram, ok?]
Tinha desistido e me convencido que não o faria, mas cá estou...
Nunca tinha lido Le Guin (curiosamente quando ela morreu, no começo do ano, eu tinha começado A Mão Esquerda da Escuridão, mas abandonei quando soube de sua morte) e esse foi o primeiro.
Confesso que não esperava nada do que li. Sou tão acostumada à FC clássica, que o texto duro e lento dela me incomodou [e acho ótimo, porque 1) literatura tem que incomodar, e 2) recebi um belo tapa na cara p/ me lembrar que FC não é só Asimov, né?]
Me perdi muitas vezes durante a leitura, fiquei levemente entediada e todas as vezes que eu começava a achar que ia engatar alguma ação, acabava decepcionada com os personagens presos no meio da neve.
Achei super interessante ela ter criado uma sociedade onde não existe gênero, apesar de ainda existir uma transformação fem/masc nos períodos férteis - e queria que isso tivesse sido completamente extrapolado no livro [claro que entendo que é outro tempo, mas eu gosto muito mais do que a Ann Leckie fez em Justiça Ancilar, por exemplo, que é simplesmente tirar a importância do gênero da história. Para mim, foi muito mais eficaz].
Gosto de algumas das discussões filosóficas entre os dois personagens principais perdidos na neve, e acho que o livro é isso, é a jornada e a relação deles que importa e não o objetivo [e quando eu digo que isso me incomodou é porque quando a gente lê ou busca informações sobre ele, parece que é uma ação, uma aventura. Então, obviamente, eu esperava mais ação].
Ah, e os personagens... não consegui me apegar a nenhum deles, não consegui gostar de nenhum deles. Isso, no meu ponto de vista, significa que são pouco construídos, apesar das reflexões que o texto apresenta através deles...

E é basicamente isso.
Achei bom, bem escrito (e traduzido), inovador em alguns pedaços (não sei se alguém antes dela tinha tirado os gêneros dos personagens, acho que não...), mas decepcionante, no geral.

[desculpem, não tenho condições de fazer uma análise mais profunda ou acadêmica, galera].


message 5: by Cleber (new) - added it

Cleber Farinazzo Junior (cleberfarinazzojunior) | 1 comments Minha opnião é exatamente igual a sua. E nas partes do pessoal lá caminhando pela neve eu estava ficando entediado. Parecia que aquilo não ia acabar nunca. Eu achei interessante a proposta do livro, ainda mais considerando a época em que foi escrito, mas também achei decepcionante no geral.


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