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Se as coisas vão mal é que você ofereceu pouco, não o bastante, não procure outros motivos.”
A covardia é uma opção, o medo, um estado.
História aflitiva. História que muitos acreditarão ser marginal, ocorrida num pedaço de terra ignorado e desimportante. E no entanto é central. É a origem do mundo, me dá vontade de dizer.
O que vivemos hoje, a economia que regula nossas vidas e nossas escolhas, é mais determinado pelo que Félix Gallardo “El Padrino” e Pablo Escobar “El Mágico” decidiram e fizeram nos anos 1980 do que pelo que decidiram e fizeram Reagan e Gorbatchóv. Pelo menos, eu penso assim.
Quem ignora o México nunca compreenderá o destino das democracias transfiguradas pelos fluxos do narcotráfico.
Mas já no século XIX os mercadores chineses haviam levado o ópio para Sinaloa. O veneno negro, assim o chamavam. Sinaloa era cheia de ópio.
O medo e o respeito andam de braços dados, são as duas faces da mesma moeda: o poder.
Será o primeiro a ter ódio de você. E não será o único. Até mesmo quem lhe dá ouvidos, ou seja, quem opta por fazê-lo sem nenhuma coerção, vai odiá-lo porque você estará mostrando algo nojento.
A violência é um ser autofágico, degrada voluntariamente a si mesma para se renovar. No território massacrado do México, os Zetas são como uma célula que se aniquila para renascer mais forte, mais potente, mais destrutiva.
A ferocidade se aprende. A ferocidade funciona. A ferocidade tem regras. A ferocidade marcha como um exército de ocupação.
mas eu sei que a casa aberta é uma das características dos ternos feitos sob medida, é o símbolo de pertencimento a uma elite.
O vazio é a gasolina da evolução. Uma trajetória que se interrompe não esgota a própria energia, reivindica outra, diferente, que ocupe o espaço vago.
Julio César Correa é um dos primeiros narcos colombianos a concluir uma tratativa que oficialmente nunca existiu.
Bruno e Felipe conhecem José, e se obrigassem Thiago a contar a própria história por outros motivos eles decidiriam, nesse caso, ficar em silêncio por alguns segundos e depois recomeçariam a rodada. Um fala e o outro escuta, até intervir para redimensionar a narrativa. Porque esse é o objetivo da brincadeira: suavizar a fantasia sem reduzi-la a escombros. É a resposta automática desencadeada no cérebro das crianças abandonadas.
De um lado estão o sol, as praias e todas aquelas coisas que recheiam os folhetos sobre o Brasil; de outro está a parte negra do seu trabalho. Essa parte negra, mesmo se você fingir que não existe, mesmo se você tiver um combustível inesgotável de moralidade para empurrá-lo sempre para frente, acaba sendo corrosiva. Tim percebe os primeiros sintomas na vez em que se disfarça de vendedor ambulante de água e esconde uma microcâmera no isopor. Quer filmar as gangues de rua que atacam os transeuntes. Tudo acontece em um piscar de olhos. Um menino se aproxima de um casal, saca uma faca, um taxista
...more
Uma escolha sempre transcende o cálculo, extrai força e inelutabilidade de sua zona cega. Você nunca sabe quando precisará pagar. Não compreende realmente o que está fazendo, o que já foi feito.
Às vezes recorrer à experiência pode nos pregar grandes peças. Confia-se excessivamente na percepção daquilo que já foi experimentado com sucesso, peca-se de forma míope ao sopesar os elementos não assimiláveis.
Quando penso em Bruno, quando repasso suas palavras, me pergunto o que significa atravessar um destino por engano. Não por acaso, porque a diferença entre fato e casualidade só depende dos pontos de vista: das explicações sobre o significado de nossas vidas que podemos nos dar ou refutar. Por erro.
Ambos são transversais a qualquer pensamento político e moral.
Porque quem faz a droga girar redesenha o mundo.
Mas o modelo de funcionamento das máfias não é mais que uma declinação peculiar do modelo empresarial dominante na Itália.
O broker do Norte e o broker do Sul são o Copérnico e o Galileu do comércio de cocaína. Com eles se modifica o movimento de rotação dos negócios. Antes era a cocaína que rodava em torno do dinheiro. Agora é o dinheiro que entrou na órbita da cocaína, atraído por seu campo gravitacional. Quando acompanho seus rastros, tenho a impressão de folhear um manual que coincide com o raio de ação de duas pessoas singulares.
A intuição é antes de tudo empatia, saber colocar-se na situação de quem está à sua frente, farejar hábitos, pontos fracos, resistências. Para Bebè e Mario, o cliente é um livro aberto.
Isto é a intuição: conhecer a natureza dos homens e saber manipulá-la.
Pannunzi e Locatelli intuíram que a heroína, como mercado de massa, estava acabando. Entenderam isso enquanto o mundo ainda consumia toneladas dela e as máfias italianas ainda investiam tudo em heroína. A cocaína invadirá o mundo e se tornará mais onipresente, mais difícil de deter — e eles já estarão lá, bem antes dos outros.
Existe uma regra básica para dar vida a uma ficção perfeita ou aproximar-se o mais possível dessa perfeição: fixar-se naquilo que realmente pertence à pessoa que deve transformar-se em outra.
As qualidades fundamentais e os recursos de uma pessoa permanecem os mesmos, independentemente de qual uso se queira fazer deles. Depois há a escolha. Quase nunca se cumpre num momento lúcido, preciso. Mas acontece. A escolha caracteriza tudo, bombeia em círculo os açúcares do desejo, alimenta o sangue, se torna metabolismo.
O coração escondido sob os paletós aderentes dos tailleurs de grife continua hospedando o tipo mais perigoso de coragem: aquele alimentado pela curiosidade, pela vontade indomável de conhecer, que não perde o ânimo diante do imprevisto e do desconhecido.
Pasquale Locatelli tem consciência de que a cocaína transpassa as pessoas e se adapta aos vácuos; por mais que tentem detê-lo, ele é o Galileu do pó. Podem condená-lo, “no entanto — o pó — se move”.
Se você conta o dinheiro, não o possui ou não tem o bastante. Somente se você for capaz de pesá-lo, pode por sua vez estar certo de seu peso.
Mas o vor lava sua identidade, tal como lava dinheiro. Seva Moguilevich, Semon Yudkovich Palagnyuk, Semen Yukovich Telesh, Simeon Mogilevitch, Semjon Mogilevcs, Shimon Makelwitsh, Shimon Makehelwitsch, Sergei Yurevich Schnaider, ou simplesmente “Don Seva”. É um fantasma com o dom da ubiquidade e senso de ironia.
No início de 1995, sempre em sociedade com a Solntsevo, ele adquire joalherias em Moscou e Budapeste, como atividade de fachada para traficar com pedras preciosas, antiguidades e obras de arte russas de igrejas e museus russos, inclusive o Hermitage de São Petersburgo.
Mogilevich sempre mostrou talento para as fraudes e montou algumas de proporções gigantescas, como o roubo de bilhões de dólares do erário de três Estados da Europa Central — República Tcheca, Hungria e Eslováquia —, vendendo-lhes gasolina camuflada como combustível para aquecimento, evitando assim pagar a pesadíssima taxa sobre combustível para automóveis, cobrada por esses Estados. Dessa forma, em vez de ir para a receita desses países, o dinheiro foi para o bolso de Don Seva e de sua organização.
A história da Rússia é a história de homens que souberam aproveitar a transição após a queda do comunismo. Homens que navegaram sem bússola durante os anos 1990.
Os negócios a que se dedicam os que ganharam dinheiro de verdade, aquele dinheiro que se pode pegar, folhear, cheirar, estão sempre ligados, em sua origem, a necessidades irrenunciáveis. Até The Brainy Don, o homem das fraudes e caixas chinesas financeiras, sabe muito bem disso.
Cresci movido a livros sobre o mar. Eu ficava fascinado com a lista dos navios da Ilíada, e desde moleque sentia intuitivamente a Odisseia como uma exploração do perímetro daquilo que é humanamente possível conhecer.
E como a maior parte dos investimentos e dos lucros do narcotráfico está no transporte marítimo, ele passou a ser um problema tão complexo que criou uma nova figura profissional especializada e remunerada a peso de ouro: o executivo da logística, chamado por alguns de analista de sistema, por outros de Doctor Travel.
Saber, conhecer, não basta. É preciso captar uma dimensão mais profunda, imprimir-lhe cada órgão, metabolizar a massa de noções até que se converta numa percepção natural, numa segunda visão.
Nenhum empreendimento é tão dinâmico, tão constantemente inovador, tão devotado ao puro espírito do livre mercado quanto o empreendimento mundial da cocaína.
A nova mutação já chegou e se chama cocaína líquida.
Se eu pudesse realmente quantificar o dano causado aos poderes pelos olhos que conhecem, pelas pessoas que querem saber, tentaria traçar um diagrama. Detenções, prisões e tribunais valem a metade da metade em relação ao perigo que pode ser gerado por conhecer os mecanismos, os fatos, por sentir essas histórias como próprias, vizinhas.
Talvez o massacrassem de qualquer maneira, porque os novos líderes da Mara 18 pertenciam a uma geração ainda mais violenta e feroz do que a precedente, uma geração que só se sentia existir matando, pouco importa quem.
Não existe obra que possa dar sentido e justificativa a um fim com o metal espetado na cabeça. Suas últimas palavras são mais eloquentes do que qualquer epitáfio: “O governo não faz ideia do monstro que se encontra à sua frente. Agora a Mara 18 está cheia de loucos. Estou muito preocupado… e triste.” Triste, sim.
Quanto mais desço aos circuitos embranquecidos pelo pó, mais me dou conta de que as pessoas não sabem. Há um rio que corre sob as grandes cidades, um rio que nasce na América do Sul, passa pela África e se ramifica por toda parte. Homens e mulheres passeiam pela via del Corso e pelos bulevares parisienses, encontram-se em Times Square e caminham de cabeça baixa pelas avenidas londrinas. Não ouvem nada? Como fazem para suportar todo este rumor?
São trabalhos humildes, mas não para Bladimir, que graças às suas histórias descobriu o quanto são instáveis os limites da dignidade.
O único sacrifício possível é aquele que não espera recompensa.
Eu carrego esta certeza dentro de mim sem muitas melancolias comprazidas: ninguém se aproxima de você se não for para obter um favor.

