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Minha mãe chamava as caminhadas pela montanha de “divertimento que o diabo dá a seus filhos”,
Gino matriculou-se em engenharia; quando voltava para casa depois de um exame e contava que tirara um dez, meu pai perguntava: — Como é que você foi tirar dez? Por que não tirou dez com louvor? E se havia tirado dez com louvor, meu pai dizia: — Ah, mas era um exame fácil.
Tinha sempre um medo louco de “se encher”, e tinha medo de que as pessoas viessem visitá-la quando ela queria ir passear.
Somos cinco irmãos. Moramos em cidades diferentes, alguns de nós estão no exterior: e não nos correspondemos com frequência. Quando nos encontramos, podemos ser, um com o outro, indiferentes ou distraídos. Mas, entre nós, basta uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma daquelas frases antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no tempo de nossa infância.
Uma dessas frases ou palavras faria com que nós, irmãos, reconhecêssemos uns aos outros na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas.
Lidia! O mezzorado não “deu!” — trovejava pelo corredor. O mezzorado ficava na cozinha, dentro de uma sopeira, coberto por um prato e envolto num velho xale cor de salmão, que antes pertencia à minha mãe.
Então, os poemas eram assim: simples, feitos de nada; feitos das coisas que se olhavam. Olhava à minha volta com olhos atentos: procurava coisas que pudessem assemelhar-se àquelas pedras pretas, àqueles prados verdes, e dessa vez ninguém iria tirar isso de mim.
Que farolagens são essas? Para meu pai, farolagens eram os segredos; e detestava ver as pessoas conversando absortas e não saber o que diziam.
Os Olivetti eram os primeiros industriais que víamos de perto; e eu ficava impressionada com a ideia de que aqueles cartazes de propaganda que via na rua, e que representavam uma máquina de escrever correndo sobre os trilhos de um trem, estivessem intimamente ligados a esse Adriano, de farda cinza esverdeada, que à noite costumava tomar conosco nossas insípidas sopinhas.
Por onde diabos você andou? — berrava meu pai. — Estava ficando preocupado! Aposto que foi ao cinema hoje também! Você passa a vida no cinema!

