the thread: A Quarta Voz - uma pergunta > Likes and Comments

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message 1: by Patrícia (last edited Nov 15, 2018 08:47AM) (new)

Patrícia Li muitas reviews aqui no goodreads mas ainda não encontrei ninguém que falasse disso.

Sinto que a riqueza da Dona Filomena ficou muito por explorar. Acho que muitos episódios foram abordados muito superficialmente mas este perturbou-me sobretudo.

Senti inconsistência na forma como foi descrito o "escândalo" com o padre. Essa cena é muito dolorosa e depois é abandonada como se nada fosse. Se não perceberem o que digo aconselho a reler.

Claro que não era a época do #MeToo, mas uma pessoa que diz isto é a mesma que nunca mais fala negativamente do padre senão por ciúmes? É a mesma pessoa que não volta a falar de sofrimento?

"Comecei a tremer (...) Quis gritar de protesto, dizer que parasse com aquilo, estava a magoar-me, mas só conseguia suspirar. (...) Queria magoá-lo e ao mesmo tempo prendê-lo nos meus braços. Queria ouvi-lo gemer de dor. (...) Não mexia um dedo para o ajudar, apenas esperava, como se lhe seguisse os gestos de fora do meu corpo (...) Fiquei petrificada (...) arrancando-me gemidos de pavor (...)"

"Quando a tortura acabou, estava exausta e dorida (...) a tremer de frio e de vergonha, ajeitei as roupas. Légrimas escaldavam-me a face gelada. Saí quase correndo, sem sequer o olhar no meio daquela escuridão (...)"

"Tinha a alma partida. Despedaçada"

Etc... podem ler o resto, à volta da páginas 156, pelo menos na minha edição.

Não percebo como é que uma personagem que sofre uma violência destas depois de contar este episódio faz duplo parágrafo e diz "Nasci na Aldeia da Casa Branca a 19 de Agosto de 1912" e nunca mais fala no assunto com sofrimento. Como se fosse só uma noite. Este tipo de coisa deixa marcas. Ela pode ter deitado para trás das costas, e guardar tudo debaixo do tapete; mas se volta a pensar aprofundadamente (e isso que faz quando conta ao leitor), o mais provável é que voltar a falar nisto no mínimo lhe desse voltas ao estômago.

Esta cena levou-me a acompanhar a Filomena de muito perto como nenhuma outra cena me aproximou, em termos emotivos. Sinto que a forma como o tema foi abordado e abandonado foi muito irrealista e também injusto.

Em 1900 e poucos é normal que ela não compreendesse que podia ter desejado o homem em momentos passados mas nesse momento ser violada. Que é isso que me parece que aconteceu ali. Mas quer compreenda, quer não, as emoções e a confusão teriam de se manifestar. Mas ela está certa de sentir ciúmes e de ele não olhar mais para ela. São essas as emoções, como se ela ainda gostasse dele e nunca medo, ou nada que se pareça. Se calhar dá-me mais náuseas como isso é contado e depois abandonado como se nada fosse do que a própria cena.

Também não percebo aquela cena em que a Lídia a viu beijar o padre. Isto aconteceu depois desta cena tortuosa, certo? Mas não obtemos nem sequer menção a esse episódio, por isso ainda mais perguntas e menos respostas temos.

tl;dr: sou a única pessoa que reparou nesta cena e achou estranho a abordagem dada à mesma e aos sentimentos do pós (que obviamente ficam para a vida toda, para o bem e para o mal)?


message 2: by Gabriela (new)

Gabriela Trindade Cara Patrícia,
Não tenho o costume de visitar esta página, daí que só hoje tenha lido esta sua pergunta.
Tem razão, o que descrevi é uma violação. Não, a personagem não a definiria assim. Ela amava aquele homem loucamente, de uma forma quase doentia. E naquele tempo não me surpreenderia que a grande maioria das mulheres sofresse este tipo de violência e nem sequer se apercebesse. Não se esqueça de que não havia educação sexual. O sexo era um assunto do qual os homens eram os entendidos. Às mulheres era dito que satisfizessem o seu homem; era esse o dever de uma boa esposa. Isso incluía comer e calar, e nunca pôr em causa a suposta sapiência masculina em relação ao assunto.
Os capítulos deste livro chamam-se vozes, mas são as vozes do pensamento. Em cada capítulo ouvimos os pensamentos daquela personagem, tal como lhe ocorreram naquele momento. Filomena está acamada, com uma depressão profunda, despoletada pela partida do filho para a guerra. Vai recordando estes episódios na sua cabeça, o amor pelo padre, etc, até que chega a esta episódio. Tudo coisas que aconteceram há muitos anos. Claro que é algo que lhe custa recordar; algo que ela muito provavelmente preferia que não tivesse acontecido (ou que tivesse acontecido de outra forma). Foi a primeira experiência sexual dela, é bom não esquecer. Ela não conhece outra coisa. Naquele tempo não se falava em sexo, muito menos em violação. Como é que ela se poderia aperceber de que foi violada? Foi sem dúvida um acontecimento marcante. O facto de ela passar, no parágrafo seguinte, para o sítio onde nasceu, e o ano, etc, indica uma interrupção do curso do pensamento, uma mudança de direcção. Como quando estamos a pensar em algo que nos incomoda, por ex, e paramos de pensar nisso e começamos a pensar noutra coisa. De qualquer forma, as interpretações dos motivos para tal ficam também muito do lado do leitor. Eu apenas posso referir o que para mim, como autora, faz sentido.
O sofrimento desta personagem transparece em quase todas as palavras dela. Essa foi uma das coisas que não entendi no seu comentário. Mas lá está, podemos dar interpretações diferentes às palavras. Eu diria que as coisas não precisam de estar escarrapachadas, de forma óbvia, para transparecerem.
Quando se cria uma personagem, não devemos criá-la à nossa medida. Aquilo que a Patrícia diz parece-me ser a forma como a Patrícia acha que a personagem devia reagir - baseado nas suas próprias emoções em relação à cena da violação, por ex. As personagens são pessoas diferentes de nós, e como tal, terão reacções diferentes, baseadas na sua história de vida e na época em que vivem. De outra forma, não se criam personagens, mas sim alter-egos.
Muito obrigada pelos seus comentários e espero que a resposta tenha ajudado a esclarecer as suas dúvidas.


message 3: by Patrícia (new)

Patrícia Cara Gabriela,

Obrigado pela sua resposta. Nem estava à espera de ter uma resposta da autora directamente. Obrigado pela sua atenção de ter dado esta resposta tão dedicada.

De facto tive uma reacção muito visceral à cena e foi ainda mais difícil por não encontrar na internet ninguém a falar sobre a história, mas vou confessar que me descansa saber que tudo é propositado. Não me surpreenderia saber que muitos escritores escrevem cenas assim sem saberem o que estão a escrever - pensando que não é uma violação, tal como a Filomena nunca pensaria. E como senti, ao ler, que não havia mais nada onde me agarrar para compreender melhor a forma como este episódio se manifestou no resto da sua vida... Senti que não havia o suficiente para saber se era uma descrição consciente. Mas agora sei que sim, que era.

Mas é verdade; é como diz; cada pessoa reage da sua maneira, não posso concordar mais. Não vivi nesse tempo nem conheci a Filomena. Não é que a personagem não tenha reagido como eu queria (longe de mim); só queria ver mais sobre a reacção, compreender melhor como ela lidou com tudo. Mas o livro tinha mais histórias a contar, a Filomena também, e muitos mais factores a ter em conta. E agora que sei que é propositado, compreendo a opção de sentir ciúme e nada mais. É possível não compreender o que se sente, e é possível canalizar sentimentos. Enfim. Podia ficar aqui a escrever mais duas horas.

De qualquer modo, achei que fazia sentido abrir a discussão, visto que não encontrei mais nada sobre este tema do livro nas críticas e análises ao mesmo. E isso para mim é o mais central. Ver a cena reconhecida como o que é, ver pessoas a falar sobre ela (mesmo que seja apenas eu e a Gabriela).

Podia ficar aqui a escrever muito mais e teria muito gosto. Obrigado pela sua resposta e acredite que me descansa muito saber que reconhece a cena como o que é. Que interpretei mal. Obrigado por isso ser propositado. Pela história completa da Filomena. E obrigado pela sua resposta, também.


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