Ilaria Gaspari
Born
Milano, Italy
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“Caminhar, quando se está triste, até que os sapatos incomodem, é uma daquelas iniciativas que a levam à força para fora de você, no mundo; que freiam a espiral dos pensamentos e fazem você se sentir antes de tudo livre, depois exausta. Dois antídotos para tristeza, não infalíveis, mas úteis, são o sentimento da liberdade e o da exaustão; a tristeza, para se sustentar e durar, requer espaços fechados, sufocantes, e energia. Como os vampiros, ela também teme a luz do sol.”
― Lezioni di felicità: Esercizi filosofici per il buon uso della vita
― Lezioni di felicità: Esercizi filosofici per il buon uso della vita
“Tenho medo dos desejos, mas é claro que não os respeito, mesmo que eu saiba o quanto podem ser fortes: em vez de dobrá-los, de domá-los com essa firmeza não natural, por que não parei para ouvi-los? Eu deveria ter percebido que essa febre de ascetismo, não muito diferente da impetuosidade a que se opõe, se voltaria contra mim. Não é fácil aprender a moderação: creio ser mesmo impossível, pelo menos enquanto eu olhar para ela com esta camada a mais de moralismo, esta mania de conferir um sentido aos mínimos gestos. Quis me impor uma postura austera, mas toda alheia, falsa. Não é verdade que me entusiasma fazer uma sopa, não é verdade que me basta uma maçã. Eu só queria me deixar absorver pelas pequenas coisas: mas o problema é outro. Em pé na frente de um armário semivazio, que se assemelha apenas ao meu lado mais severo – bani as cores, pois não me pareciam necessárias –, percebo estar diante de um bom problema: ao me concentrar em mim mesma, obcecada em aproveitar todo o meu arrebatamento, esqueci a amizade. Não posso pensar só no prazer: nem para tentar torná-lo demasiado sofisticado e essencial (com resultados que depois, como aconteceu comigo, desaparecem), nem para usá-lo como refúgio. Por nos enrodilharmos no interior de nossa vida secreta, a fim de nos consolar e nos proteger do mundo, acabamos nos transformando em pequenos caracóis confinados em suas conchas. Acendemos velas e luzinhas, buscamos serenidade ou minimalismos, abrimos a boca para palavras nórdicas intraduzíveis como hygge, concentramo-nos na simplicidade de pequenos prazeres idiossincráticos e indescritíveis – o primeiro gole de cerveja gelada. Mas, por favor, só o primeiro – porque, no fim das contas, duvidamos do prazer. Mas é tão chato, depois de um tempo, viver enfurnado nos próprios sentimentos!”
― Lezioni di felicità: Esercizi filosofici per il buon uso della vita
― Lezioni di felicità: Esercizi filosofici per il buon uso della vita
“Tenho um cachorro temporário, todo torto, com os pelos eriçados e o rabinho trêmulo. Exploramos juntos as ruas, vamos ao parque correr; conhecemos os outros cães, mastins desanimados, labradores festivos, cavalier kings charles spaniels tímidos e os milhares de cruzamentos imprevisíveis dos nascidos de amores clandestinos enquanto os donos, que nunca sabem de nada, olham para o outro lado. O mundo nunca me pareceu tão vasto. Aproveitamos o dia e eu não trocaria esta nova vida pela de mais ninguém. Não poderia invejar ninguém; a vida que estou vivendo, agora que examinei os mínimos detalhes, agora que não tento fazê-la parecida com algum tipo de ideal inatingível, é tão minha que não posso cotejá-la com nenhuma outra, em nenhuma régua de comparação. Infinitas são as coisas que não tenho, infinitas também as que não conheço; mas desde que perdi minhas velhas certezas e aprendi a me sujeitar às regras das escolas antigas, reencontrei um prazer perdido há muito tempo. O de aprender, de tentar, de virar meus pensamentos do avesso, de descobrir que estava errando e que só o fato de descobrir isso é uma oportunidade para tentar fazer um pouco melhor. Perdi muito, e entre as coisas perdidas há também aquelas que eu pensava controlar, possuir, saber: mas isso pelo menos me dá a chance de continuar a procurar, a demandar, a estudar, a espiar a vida de todos os ângulos. Vivo buscando algo que não sei; talvez apenas a felicidade de continuar a buscar. Penso nas palavras de Sócrates: uma vida sem busca não é digna de ser vivida. Caminho com o Cão pelas ruas do bairro, não tenho nada de meu, sou feliz. Quem sabe eu tenha aprendido a viver um pouco a partir dos filósofos antigos; e talvez seja isso, afinal, o que vale a pena contar.”
― Lezioni di felicità: Esercizi filosofici per il buon uso della vita
― Lezioni di felicità: Esercizi filosofici per il buon uso della vita
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