A tia Agatha, no prólogo deste livro, faz logo uma advertência ao leitor.
Isto não é um livro profundo - não vos dará informações interessantes sobre arqueologia, não conterá belas descrições do cenário natural, nem comentários sobre problemas económicos, nem considerações de natureza racial, nem história.
Na verdade, é uma insignificância - um livrinho pequeno, cheio de afazeres e acontecimentos do dia-a-dia.
É sim, um livro sobre o dia-a-dia de Agatha, do marido, Max, e dos restantes membros das expedições realizadas na Síria, uma terra que é quase como um sítio onde Judas perdeu as botas, pelo menos foi assim que eu a imaginei, mas os episódios corriqueiros são contados de uma forma tão despreocupada e espirituosa que me arrancaram uns sorrisos e me fizeram admirar uma senhora que foi para o meio do deserto.
Além dos problemas de estarem longe da civilização:
Há coisas rastejantes horrorosas por todo o lado!
Max pronuncia palavras calmantes.
Vê se dormes, diz ele. Quando estiveres a dormir, nenhuma destas criaturas te apoquenta.
Excelente conselho, mas não é fácil de seguir! Primeiro, uma pessoa tem de adormecer e, com ratos a fazerem exercício físico e desportos de ar livre em cima de nós, isso é pouco possível.
(...) Hamoudi explica que brevemente estará tudo como deve ser. (..) Além disso, está para chegar um gato; é emprestado. É um super-gato - um gato altamente profissional. (...)
O gato fica na nossa companhia cinco dias. Após esses cinco dias não se vê um único rato. O gato vai-se embora e os ratos nunca mais voltam. Nunca conheci, nem antes, nem depois, um gato tão profissional. Não tinha qualquer interesse em nós, nunca pediu leite nem um pouco da nossa comida. Era frio, científico e impessoal. Um gato muito prendado!
E os eternos problemas com os criados que davam com todos em doidos. O criado, Michel, que fazia "economia" a comprar duzentas laranjas que já estavam verdes de bolor, que não abastecia o carro pois queria ver até quando dava a gasolina e outras peripécias que muitas das vezes acabavam resolvidas pela diplomacia de Max. As avarias, atolamentos e pneus furados, os homens preguiçosos nas escavações, as gorjetas pelos achados, as idas ao banco e aos correios que requeriam sempre beaucoup de timbres, um sem fim de coisas que aconteciam. Acho que não havia momentos mortos nas expedições.
Este episódio com Subri, um dos criados é só, nem sei:
Subri, depois de passar noites acordado com dores de dentes, pede autorização para se ausentar a fim de ir de comboio a Alepo, ao dentista. Regressa dois dias depois, a sorrir.
A sua narrativa dos acontecimentos é a seguinte:
"Eu vou ao dentista. Sento-me na cadeira. Mostro-lhe o dente. Sim, diz ele, tem de ser arrancado. Quanto é, digo eu. Vinte francos, diz ele. É absurdo, digo eu e saio de casa. À tarde vou outra vez. Quanto é? Dezoito francos. Digo outra vez absurdo. A dor vai aumentando o tempo todo, mas uma pessoa não pode permitir que a roubem. Volto na manhã seguinte. Quanto é? Dezoito francos ainda. Outra vez ao meio-dia. Dezoito francos. Ele julga que a dor me há-de vencer, mas eu continuo a regatear! Por fim, khwaja, eu venço.
"Ele baixa?"
Subri abana a cabeça.
"Não, ele não baixa, mas eu faço um belo negócio. Muito bem, digo eu. Dezoito francos. Mas por esse preço tem de me tirar não um dente, mas quatro!"
Subri ri-se com enorme satisfação, mostrando vários espaços sem dentes.
"Mas os outros dentes doíam?"
Não, claro que não. Mas um dia ia começar a doer. Agora já não podem. Foram arrancados pelo preço de um."
Michel, que tem estado à porta a ouvir, acena com a cabeça em sinal de aprovação. "Beaucoup economia", diz ele.
Isto sim, é profilaxia e economia, meus amigos! :D
Apesar destes episódios caricatos e de estar longe de um chuveiro, um banho de espuma e outras coisas ditas civilizadas, a tia Agatha divertiu-se muito e este livro é reflexo disso.