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Não queria o último desejo como os homens costumam escrever, e que denuncia sempre o pavor secreto de morrer. Também não queria que este papel tratasse de coisas que são evidentes e claras e que por fim têm de desaparecer um dia depois dele: o seu último desejo devia ser um poema, uma despedida tranquila e sorridente do mundo que ele vencera.
Tal como a protagonista de “Menina Else” que o autor viria a escrever três décadas depois, Marie enfrenta um dilema: Felix, a sua cara-metade, sofre de uma doença terminal e foi-lhe dado apenas um ano de vida. Instintivamente, abalada pelo choque e pela perspectiva de viver sem ele, propõe-lhe um pacto suicida. Apesar de se opor de imediato à ideia, com a aproximação da morte, Felix acaba por cobrar o prometido, ameaçando-a até, numa altura em que a noiva, ao assistir ao seu suplício, se apega ainda mais à vida naquilo que ela tem de mais puro e simples: um passeio pela natureza para retemperar forças ou o sol e o ar fresco que entra por uma janela do quarto de um moribundo.
Fazer mais por ele, melhor, o máximo. Se lhe prometesse matar-se na sua campa, ele iria com a dúvida se ela o faria na verdade. Com ele, não, queria morrer antes dele. Quando ele lhe fizer a pergunta, quer ter a coragem de dizer: “Ponhamos um fim ao sofrimento! Morramos juntos e morramos já!” E enquanto se inebriava com esta ideia, a rapariga cuja imagem vira antes – fugindo pelos campos, e a quem o vento fazia carícias, precipitada, correndo para a vida e para a alegria, e que era ela própria – parecia-lhe desprezível e vergonhosa.
Nesta sua primeira novela, Arthur Schnitzler, escritor da belle époque vienense, mostra Felix a lidar com as várias fases do luto por si mesmo, oscilando entre a esperança, a resignação e a revolta, sem descurar o papel da cuidadora, Marie, que fica ao seu lado até ao fim. O fim de Felix ou o fim do casal?
Como amaldiçoava a hora em que a incerteza o tinha levado ao médico, que inundara de mentiras e falsa dignidade, até obter a verdade completa e inexorável. E assim lá estava ele, cem vezes maldito, na mesma situação de um condenado de quem o carrasco se aproxima todas as manhãs para o levar para o patíbulo, e compreendeu que não era capaz de perceber em nenhum momento todo o horror da sua existência.
Criticado por abordar sempre os mesmos temas nas suas obras, Schnitzler respondeu: “Escrevo sobre o amor e a morte. Que outros temas existem?”
Em “Morrer”, essas duas temáticas são indissociáveis: morrer altruisticamente e matar egoisticamente por amor.
Sim, só mais uns dias e noites, e depois… Mas ela gostava tanto de viver. Teria coragem alguma vez? Mas não precisava de a ter, nem sequer de saber. Em qualquer hora adormecerá nos seus braços, como agora – e não acordará mais. E quando ele tiver a certeza – sim, então também ele pode ir. Mas não lhe dirá nada, ela gosta demasiado de viver! Ficaria com medo dele e, no fim ele encontrar-se-ia sozinho… Horrível! O melhor seria agora mesmo… Ela dorme tão bem! Um forte aperto aqui no pescoço e já está.