Quando comprei A Verdadeira História do Queen, foi uma decisão de momento. Estava comprando outros dois livros e, de repente, vi a biografia, que eu nem sabia que existia, sobre o balcão. Como bom fã, de impulso, passei mão na edição e incluí na compra. Só quando cheguei em casa é que pude parar para analisá-lo melhor. Se tivesse feito isso na loja, talvez não o tivesse comprado. Mas ainda bem que comprei.
Ao folhear aleatoriamente suas páginas, achei a tradução um pouco esquisita, com escolhas estranhas. Fui verificar o nome do tradutor e me assustei em não encontrá-lo. Pensei logo numa tradução via Google translator ou numa versão revisada de uma edição portuguesa. Contudo, ao pegar o livro pra ler muitos meses depois, achei a leitura tranquila. Alarme falso (além de ter realmente umas escolhas de termos e formas pouco usuais).
De cara, o título “A Verdadeira História” soa um tanto arrogante, com cara de tabloide britânico. Justiça seja feita ao autor, o título em inglês soa um pouco menos pomposo: Is this the real life? The untold story of Queen. Parece não só que vai contar algo que ninguém mais contou como irá fazer uma série de revelações bombásticas. Nada disso. O subtítulo na capa da edição brasileira só piora as coisas: “os bastidores e os segredos de uma das maiores bandas de todos os tempos”. Tirando a passagem em que Peter Gabriel chama Roger Taylor para ser o baterista do Genesis, antes de convidar Phil Collins, e saber que John Deacon teve seis filhos com a mesma mulher, nenhum outro “segredo” me fez levantar da cadeira. Quanto aos bastidores, ora, toda biografia de um artista visa os bastidores, ou não seria uma biografia, mas uma análise da obra.
A primeira metade do livro é o grande destaque, a que vale a leitura e o dinheiro e tempo gastos. Não que a outra metade seja ruim, mas soa mais como uma compilação jornalística da carreira da banda e de seus integrantes, recorrendo a livros já publicados e a inúmeras entrevistas em rádio, jornal, revista e TV, com algumas entrevistas originais ligando os pontos e preenchendo algumas lacunas.
É mais difícil penetrar nos bastidores de uma banda já famosa, que se torna mais refratária à invasividade da mídia. Seus integrantes transitam em círculos mais fechados, os amigos mais próximos ficam mais precavidos. Nos primórdios, entretanto, as coisas não são assim tão controladas. E o mérito de Mark Blake, que tem as revistas Mojo e Q no currículo, além de livros sobre Pink Floyd, Bob Dylan e Keith Richards, foi justamente encontrar as pessoas que conviveram com Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e até mesmo John Deacon muito antes da banda fazer seu primeiro ensaio. Um amigo de Fred de Zanzibar, por exemplo, só soube que o velho amigo de escola havia se tornado um astro de rock cinco ano após a sua morte, mesmo morando nos EUA. Ele explica quem sempre foi ligado ao jazz.
Assim sendo, as primeiras 238 páginas do livro, que vai desde o nascimento de Farrokh Bulsara até a turnê americana de A Night at the Opera, na esteira do sucesso de Bohemian Rhapsody, é um belo trabalho de jornalismo. Blake conseguiu entrevistar dezenas de pessoas e construir um mosaico que contasse uma historia linear, coerente e interessante. Brian e Roger não parecem ter dado entrevistas ao autor para a biografia propriamente, mas para as revistas, de forma que não são eles que conduzem a narrativa. Porém, a participação deles certamente concede uma aura de oficialidade a toda a obra. Portanto, não temos uma visão “de dentro” do Queen, até porque isso seria impossível diante das reservas de Fred quanto a sua vida pessoal e familiar, a ponto de até mesmo seus companheiros de banda não o conhecerem tão intimamente. Mas é possível ter uma visão de como eram vistos no meio social em que viviam, uma verdadeira narrativa em terceiras pessoas.
A vida de Fred em Zanzibar e no internato na Índia certamente é mais eletrizante que a tranquila infância de Brian em Londres ou as aventuras musicais de Roger na Cornualha. Mesmo assim, dá-se o mesmo peso a cada uma delas. Essas narrativas iniciais seguem até o momento em que os três começam a frequentar o mesmo circuito de pubs e shows nos subúrbios de Londres. Já John Deacon, que foi o quatro baixista do Queen, é quase um fantasma nessa história, aparecendo muito depois, e sempre nos limites de sua discrição e timidez.
O que se vê em seguida é uma divertida descrição do circuito musical da Londres da segunda metade dos anos 60, como viviam os aspirantes a rockstar, a contracultura, a penúria, as influências musicais. Fred ajudando um iniciante David Bowie a empurrar mesas pra construir um palco improvisado em uma escola. Os futuros astros babando no gargarejo das apresentações de Jimi Hendrix e do Cream. A série de formações, troca de bandas, excursões furadas. A luta para compor material próprio.
Brian e Roger logo se juntaram e sempre estiveram às voltas com grupos musicais. Já Fred Bulsara parecia o mais improvável a se tornar uma lenda viva do rock, embora dissesse a todos que um dia se tornaria um grande astro enquanto tocava sua barraquinha hippie em Kensington junto com Roger.
Nesta parte do livro, é muito comum citações a frases que Fred teria dito, dando uma noção de seu jeito e maneirismos. Em cada uma dessas cenas, vinha a minha mente não a figura de Mercury, mas a do ator que interpreta Felix em Orphan Black, Jordan Gavaris. Este seria o melhor intérprete do jovem Fred Bulsara.
É justamente esse período formativo do artista que gera os melhores filmes. Não só pelo desafio, pelos obstáculos a serem transpostos, mas também pelo material mais desabrido, menos controlado e estudado. Ainda que alguns pontos de uma carreira consolidada possam render boas narrativas, como a morte de Mercury, geralmente é difícil contar uma boa história coesa e com bom ritmo do início ao fim. Por isso um Backbeat (a história dos Beatles com Stuart Sutcliffe) rende melhor do que o filme que conta tooooda a vida de Chaplin; assim como aquele que narra os tempos de Renato Russo em Brasília é mais vibrante que a narrativa picotada sobre Cazuza.
Das gravações de A Day at the Races em diante, o livro se assemelha a uma gigantesca (e boa) matéria especial de revista. Bastante detalhada, mas com poucos momentos palpitantes. Exceto, talvez pela doença de Mercury, a primeira turnê sulamericana (se a passagem pelo Brasil em 1981 fez eu me sentir constrangido, logo o sentimento foi superado pela aterradora turnê no México) e o show no Live-Aid. Aliás, a introdução do livro é o Live-Aid.
Inicialmente, achei estranha a opção do autor. Mas, no decorrer da leitura, passa a fazer sentido. Desde The Game, mais especificamente o single Crazy little thing called love, que fez a banda finalmente acontecer nos EUA e, consequentemente, na América Latina (de fato, eu e meus irmãos só viemos a tomar conhecimento da banda a partir daquele cara que “imitava Elvis” no rádio), que a banda se mantinha na ativa no embalo de sucessos imprevistos. A má recepção de Hot Space e as confusões na turnê americana (que foi a última nos EUA) levaram a banda ao limite. Talvez uma motivação estilo Abbey Road (“vamos parar deixando uma boa imagem”) levou ao The Works, cujo sucesso os colocou na estrada novamente. No final da turnês, o plano era ficarem cinco anos dedicados a projetos solos. Mas aí veio o convite para o Live-Aid… O resultado foi mais impactante do que o salto do Bono em Bad (o próprio autor classifica esse momento do U2 como o único de todo o espetáculo, tanto em Londres quanto na Filadélfia capaz de rivalizar com o esmagador sucesso da apresentação do Queen).
Pelo menos daqui, do meu ponto de vista tupiniquim, eu sempre vi o Queen como uma das grandes bandas da história do rock. Mas o que se nota é que sua relação com a crítica musical chegou a ser tão áspera quanto a de Roberto Carlos nos anos 80. Principalmente nos EUA, onde a boa vontade se limitou ao disco de estreia e ao The Game. Na Inglaterra, ainda que às turras, a mídia não podia ignorar o grande sucesso da banda. Havia, claro, o surgimento do punk (que Mercury confessava não entender) e a new wave, sendo o Queen associado aos dinossauros virtuoses dos anos 70. Mas talvez todo esse “nariz virado” se deva mais ao comportamento de Freddie Mercury, que realmente não fazia a menor questão de ser simpático com quem quer que seja, fosse a imprensa, o pessoal da produção, os músicos de abertura ou mesmo o público.
Curiosamente, se externamente Freddie era a personalidade mais difícil da banda (e Brian o bom moço), dentro do estúdio ele era o diplomata, a pessoa que conseguia contornar os atritos entre os demais integrantes da banda e fazer o trabalho fluir. Na hora de trabalhar, não havia divas ou celebridades (Roger adorava a vida de rockstar), todos trabalhavam duro.
Um dos méritos do livro é não acabar com a morte de Mercury. Ele segue em frente com a vida de Brian e Roger (e, quando possível, a de John), suas carreiras, a vida privada e o retorno com Paul Rodgers. Ainda que isso soe como um arrastado anticlímax, como em O Senhor dos Anéis após a destruição do anel.
Mas uma coisa realmente me incomodou no livro, uma falha básica de informação: dizer que o Queen abriu e encerrou o Rock in Rio. Quem encerrou foi o Yes. A segunda apresentação do Queen ocorreu duas noites antes. Se Blake foi capaz deste pequeno deslize, quantos mais não terá cometido?