Miguel Torga retrata nesta obra a dureza do mundo rural português recorrendo a uma linguagem simples mas cuidada. Histórias que giram em torno de personagens duras e terrosas que têm como cenário de fundo a paisagem transmontana que ilustram o confronto do homem contra as leis divinas e terrestres que o aprisionam. Contos: O Alma-Grande | Fronteira | O Pastor Gabriel | Repouso | O Caçador | O Leproso | Destinos | O Lopo | O Sésamo | Mariana | Natal | Névoa | Renovo | O Regresso | A Confissão | O Milagre | O Artilheiro | Teia de Aranha | A Festa | O Marcos | A Caçada | O Senhor
Miguel Torga, pseudonym of Adolfo Correia da Rocha was one of the greatest Portuguese writers of the 20th century. He wrote poetry, short stories, theater and a 16 volume diary.
He was born in a village in Trás-os-Montes, northern Portugal, to small-time farmer parents. After a short spell as student in a catholic seminary in Lamego, also in Trás-os-Montes, in 1920 his father sent him to Brazil where he worked on the coffee plantation of an uncle who, finding him to be a clever student, paid his high school there and afterwards his medicine graduation (1933) at the University of Coimbra, in Portugal (to where he returns in 1925).
After graduation he worked in his village and in other places in the country, publishing his books from his own pocket for a number of years. In 1941, he established himself as an otolaryngologist physician in Coimbra. His agnostic beliefs seems to reflect in his work, that deals mainly with the nobility of the human condition in a beautiful but ruthless world where God is absent or is nothing but a passive and silent, indiferent creator.
After the value of his work was being recognized, he went on to receive several awards, as the Prémio Camões in 1989 and the Montaigne award in 1981. He was several times nominated for the Nobel Prize of Literature, being the last one in 1994, but he never won.
Miguel Torga was a Portuguese author, more contemporary than one might think since he died in 1995. As some people say, it was a classic during his lifetime. Overall, the little novels are as sour as the mountain, which often attacks its inhabitants, abandoned by God, to the priests who frequently lack faith or end up defeated. The author evolves a little between misanthropy and humor, with an anti-academic side, where one feels the will not embellish, among other things, the language of the inhabitants without speaking of the acts. A paradox for an agnostic author, God is somewhat absent in these tales. The rudeness balanced with humor also marks a certain number of novels (that on Gabriel and his flock of thieves, for example). If you want to hope to achieve peace, know that others are at war and that you will have to do your best.
Um prazer como não esperava: cada conto é um primor de estilo, de rudeza, de captação da essência da vida rural. A minha estreia com Miguel Torga não ficará órfã certamente, sobretudo pela sorte que me apanhou ao fazer-me cruzar com 'Novos Contos da Montanha' na altura certa; quando assim é, corremos o risco do elogio ir além da medida justa, mas as 5 estrelas não têm espinhas nem me deram margem para dúvidas.
Um regalo de portugalidade, um Portugal talvez em extinção (e ainda bem, em certa medida), mas com tal autenticidade e beleza da palavra que aviva a diferença entre um escritor e aquele que escreve.
Miguel Torga é o pseudónimo literário adoptado pelo médico Adolfo Correia Rocha. O nome não foi escolhido aleatoriamente: “Miguel”, em homenagem múltipla a Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno, Miguel Ângelo e Miguel Arcanjo; e “Torga”, em referência à vegetação arbústea das montanhas da região de Trás-os-Montes, evocação de resistência e ligação com a terra.
Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste livro. (...) Encontrei tudo como o deixei o ano passado, quando da primeira edição dessas aventuras. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero. Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos. Prefácio à segunda edição
Os Novos Contos da Montanha nasceram cerca de três anos depois da edição, no Brasil, de Contos da Montanha
Acrescentado e com bastantes remendos na vestimenta já várias vezes remendada, sai novamente impresso este livro, mais feliz do que seu irmão gémeo, Contos da Montanha, desterrado no Brasil. Prefácio à quinta edição
A colectânea Novos Contos da Montanha inclui vinte e dois contos, e a paisagem de Trás-os-Montes e as suas gentes no ano de 1944 são respetivamente, o espaço, as personagens e o tempo da obra.
Gostei de todos os contos, mas estes foram o que mais se destacaram
Alma-Grande – Uma história com três personagens (Alma Grande, Isaac e Abel) levanta as grandes questões que se prendem com a fronteira entre a vida e a morte, designadamente a eutanásia.
Bem que se lhe avivava na consciência a certeza de que era matar a razão do seu destino! Em vão. O puro instinto não tinha coragem para empurrar aquelas mãos e aquele joelho diante de uma testemunha. Ergueu-se. Com o rosto coberto por um pano de lividez igual à do agonizante, voltou-se.
Fronteira- A aldeia que tem a economia baseada no contrabando. O jogo do gato e do rato entre os contrabandistas e as autoridades, e claro uma história de amor entre o guarda Robalo e Isabel.
E aí começam ambos a trabalhar, ele em armas de fogo, que vai buscar a Vigo, e ela em cortes de seda, que esconde debaixo da camisa, enrolados à cinta, de tal maneira que já ninguém sabe ao certo quando atravessa o ribeiro grávida a valer ou prenha de mercadoria.
Leproso - Depois de descobrir o nome da terrível doença que deforma o seu corpo Julião é renegado pela sua comunidade. À medida que a solidão avança começa a ter sentimentos de ódio e vingança.
Renovo - O jovem Pedro é acometido por uma doença que vai dizimando as aldeias e também a sua família.
A pobre Felisberta tinha pago o seu tributo com três filhas, dois netos e o marido. Restava-lhe apenas aquele filho, que a cada instante a renovava. E todo o seu instinto de mulher estava ali, suspenso de respiração e dos olhos da última semente.
Há quase sempre um não sei quê de impactante nos contos desta compilação de Miguel Torga, talvez uma certa crueza subjacente à vida rural nestes Trás-os-Montes de meados do século. São histórias breves, muitas com menos de dez páginas, mas sente-se que cada uma é um capítulo duma história maior: a do povo transmontano, das suas provas e sofrimentos, numa época em que a pobreza e a carência tornavam a vida de muitos destes aldeões uma coisa dura e empedernida.
A escrita é belíssima, fluída e pensada num cuidado quase despreocupado. Estaria disposto a dar quatro estrelas a este livro não fossem os contos serem tão curtos; sinto que precisamente quando me começo a envolver num conto e a estar interessado no desfecho, é quando este acaba, e assim passo toda a leitura numa espécie de quase-descolagem que nunca se chega a produzir completamente. Ainda assim, devo dizer que existem muito poucos elos fracos nesta compilação. Muitos deles dariam belíssimos romances, tivesse Torga tido a vontade de os alargar.
Não sei bem porquê, até porque não me lembro de ter lido algo em concreto deste autor, apesar de me lembrar bem do meu pai ter um exemplar dos Bichos, tinha uma ideia pré-concebida sobre a sua escrita, achava-o muito austero, género Vergílio Ferreira. É possível que os tena confundido. Após a leitura destes contos, verifiquei afinal que é uma escrita fresca, muito natural e fluida, água de nascente montanhosa. Contos muito rápidos, que revelam a sua essência no ritmo certo. Histórias com os pés assentes na terra. Vou pedir ao meu pai que me empreste os Bichos.
Miguel Torga escreve tão bem! Nestes "Novos Contos da Montanha" tráz-nos mais algumas personagens com vidas tão duras, mas tão bem descritas! O nosso Portugal de meados do século XX era mesmo difícil no nosso interior esquecido!
Este livro foi difícil de ler. Além de usar uma linguagem bastante rústica e telúrica (o que é normal em Miguel Torga), os contos não são fáceis de digerir, pois têm sempre elementos cruéis que quase parece darem-nos um murro no estômago, à medida que os vamos lendo. Apesar disso, é um livro fantástico (no seguimento dos Contos da Montanha) e do qual gostei muito. Por ser um livro de contos, não terei guardado grandes memórias dele, mas tenho a sensação de que Miguel Torga é um dos autores do neo-realismo que mais a pena vale conhecer, por ser um exímio contador de histórias acerca do povo transmontano. Vale, sem dúvida, a pena conhecer este autor.
Cada conto desta obra é, em si, uma obra-de-arte. Com personagens sempre interessantes e apresentadas de forma realista, esta coleção de contos é imperdível. Por exemplo, o conto "Fronteira" tem 8 páginas e, a partir disso, foi feito um mini-filme de 50 minutos - tal o conteúdo presente em tão poucas páginas. Para mim, se Júlio Dinis representa leveza, Miguel Torga representa realismo duro, mas empático. Isto é, o autor não tenta embelezar as histórias, tornando-as idílicas; apresenta-as por vezes de forma inesperadamente direta, mas acabando por comover e dar espaço ao leitor para sentir. 5 estrelas, como sempre.
Se olharmos para a vida com atenção, descobrimos que ela não é assim tão normal, ou inofensiva, como pensamos. Um escritor possui esse olhar especial e transmite para o papel aquilo que os outros nem se dão ao trabalho de observar.
Miguel Torga apresenta-nos a realidade nua e crua. É a tal literatura que não precisa de temas bombásticos, ou de grandes tragédias, para ser grande. Basta aquilo que acontece todos os dias, na casa dos vizinhos, ou na nossa própria casa.
Não tenho muito mais a dizer sobre estes fantásticos contos. Eles falam por si. Põem-nos a pensar na verdade escondida atrás das palavras e dos atos. Nas nossas mãos permanece a decisão sobre o que fazer dos frutos desta reflexão: ignorá-la, continuando a aceitar o mundo tal como ele é; ou usá-la, a fim de entendermos melhor os outros e a nós próprios, o primeiro passo para realmente tentarmos mudar o mundo.
Miguel Torga e a beleza das coisas simples. Um livro de contos, particularmente de contos curtos, nem sempre é do agrado de toda a gente, porque há quem possa sentir que, quando se está investido na história, é quando se é abruptamente abandonado por ela. Não é o meu caso, que serei sempre imensamente apreciadora de contos, por me remeterem para a minha infância feliz e pelo importante momento de entretenimento e introspecção que podem proporcionar. Um bom conto é preciso ser feito com maestria e Torga é exímio nisso: com uma escrita despudorada, cheia de beleza e próxima das gentes rurais, com um ritmo que se cola à oralidade, cria histórias com a dimensão certa, aproximando a vivência e as relações humanas da fluidez da Natureza. Amor, raiva, medo, saudade, doença, morte, nascimento, uma trovoada, o tempo das vindimas, um rebanho de ovelhas que pasta placidamente, uma mudança de estação.
Melancólica e deliciosa noite de Outono. Envergava, pela primeira vez desde a chegada dos calores, uma camisa de manga comprida. Numa encruzilhada cujos pormenores já não consigo precisar, avistei o lobo e para ele me dirigi. Concedeu-me três desejos mas invoquei apenas um: - Que o Senhor Torga, se me estiver a ouvir, não me leve a mal. Mas desejo que hajam várias realidades paralelas onde tantos Torgas viveram e escreveram e morreram, em diferentes sítios de Portugal. O que quero, benevolente lobo, são «Contos da Montanha» enraízados na planície alentejana, ou nas mortais marés da Nazaré, ou nas serras do Algarve, e por aí adiante, para cada cantinho do meu país. Coloca os manuscritos dentro da minha sacola, caro lobo, para que eu os saboreie mais tarde, debaixo de manta, diante de alaranjado lume, infusão quente no colo. O lobo pareceu confortável, e até entusiasmado, com o meu pedido. Disse: - Porque pedes tão pouco? Porque não queres o fruto de um Torga basco? Como não anseias por ouvir um Torga andino, outro da Amazónia, outro empoeirado pelos dourados mantos do Sahara, outro que cavalgou com o grande Khan? Que dizes? - Que horror, caro lobo! - respondi, um tanto escandalizado. - Torga não pode ser concebido fora de Portugal. Seria outra coisa, uma entidade enxertada e malsã. O lobo sorriu, sábio, e disse: - Contudo não te importas de arrancar o Senhor Torga aos maternos baldios de Trás-os-Montes? Compreendi a minha insensatez. Agradeci, afaguei com ternura o lobo, e fiz-me à estrada. Durante o meu escuro e deslumbrante caminho meditei um pouco mais. Compreendi que, na verdade, Torga existe em qualquer recanto da Terra. Existe em qualquer canção, em qualquer lamento genuíno, em quaisquer palavras que invoquem a brutalidade, a loucura, a beleza, a paixão e a ternura da besta humana. Cheguei a casa, extenuado, acendi o fogo e sentei-me. Na mesinha dos livros vislumbrei um desconhecido e nobre alfarrábio em cuja capa se lia : «Novos Contos da Montanha».
(...)
Quase todos os contos deste precioso almanaque são pedras preciosas genialmente esculpidas por alguém com um poder de observação sobre-humano. Estão imaculadamente bem escritos e pejados de cultura e vida, vida ancestral e sagrada. Os mistérios da existência dissipam-se na paisagem transmontana. A sabedoria e a loucura de mão dada durante a desnorteada procissão humana. Ri e chorei. Muito obrigado, Senhor Torga, do fundo do meu humilde coração.
São histórias de tempos idos, algumas duras e tristes, outras duras também mas com um final redentor. A linguagem é antiga, há expressões que já ninguém usa como “espera um migalho” e outras, que me fizeram sorrir e lembrar as minhas avós. São contos para saborear um a um, devagar, ao ritmo de quem percorre os caminhos a pé. Gostei muito e recomendo.
Miguel Torga tem uma escrita que não me fascina, embora lhe reconheça mérito. Nesta obra acompanhamos 22 contos marcados pela rude e austera paisagem transmontana, traçada com expressões e vocábulos utilizados naquela zona do país e noutros tempos, o que torna a leitura mais difícil para quem está fora do contexto.
muito bom! senti que estava a ler portugal inteiro. como é que vamos escrever quando já ninguém souber expressões populares e palavras como alapardado??
Ler Miguel Torga é sempre como ler Portugal. Torga tem um jeito de falar das gentes, dos lugares, que é indubitavelmente português. Faz-me ter saudades de uma ruralidade perdida.
Já tinha falado dos Contos da Montanha aqui. Com os Novos Contos da Montanha, Torga traz-nos uma nova colecção de 22 contos pungentes e intemporais. Publicados pela primeira vez em 1944, três anos depois da publicação d’Os Contos da Montanha, os heróis destas histórias sãos os mesmos a que Torga nos habituou: a gente comum. Os seus destinos são trágicos mas não de um modo lírico ou elevado: são trágicos porque não lhes podem escapar.
Os contos são os seguintes: O Alma Grande, Fronteira, O Pastor Gabriel, Repouso, O Caçador, O Leproso, Destinos, O Lopo, O Sésamo, Mariana, Natal, Névoa, Renovo, O Regresso, A Confissão, O Milagre, O Artilheiro, Teia de Aranha, A Festa, O Marcos, A Caçada e O Senhor.
Alguns são extremamente tristes, outros extremamente felizes, como é a vida. Nenhum tem um “final” propriamente dito, pois a continuidade é inevitável. Mais uma leitura que não desaponta e que recomendo a toda a gente, principalmente, a todos os portugueses.
Não sei porque demorei tanto tempo a chegar a estes contos de personagens serranas duras e desamparadas, que só contam consigo mesmas para sobreviver na alma e no corpo. Mas ainda cheguei a tempo, e destaco o Alma Grande (pp.13-19), o abafador que encontra alguém à sua altura; o Leproso (pp.51-63), à mercê do fogo da turba medrosa, e Mariana (pp.85-92) a mulher que é mãe exclusiva dos filhos que não têm pai.
"Mas quero que saibas [tu leitor] que ousei partir desse regalo e dessa comoção para te responsabilizar na salvação da casa que, por arder, te deslumbra os sentidos". P. 8
Este foi o meu primeiro livro de contos, por isso, talvez tenha sido o choque à ficção contínua e extensa a que me habituei que resultou nas 3,5 ⭐️. Na verdade, mais que um dos contos foram, para mim, 4 ou até 5 estrelas (Renovo, Destinos, Fronteira, O Alma Grande...). De Miguel Torga só conhecia alguma (pouca) poesia mas ficou evidente, nesta obra, o seu vocabulário riquíssimo e imaginário rural manifesto e cru. Os contos são muitas vezes trágicos e cruéis, inesperados mas, ainda assim, não simulados. A Natureza é a personagem mais bonita aqui.
Torga is easily becoming a fascinating writer to me, both the way he writes and the subjects he chooses deeply resonate with me. Some of these histories are truly magnificient and bring something that rings true even across such different times and mindsets.
I think this is the book that will pull me towards trying to read his entire prose.
Não sei se é do género textual (não sou muito adepta de contos), mas a escrita não me prendeu o suficiente para conseguir apreciar a maioria das histórias.
Nesta pequena coletânea de contos as personagens movem-se num microcosmos espacio-temporal distante do nosso mundo urbano e algo descaracterizado, representando uma visão visceral e autêntica do que é ser humano.
As personagens estão numa constante luta de sobrevivência com a natureza agreste e hostil, por um lado, e com a sua própria natureza de seres feitos à medida da sua circunstância; uma luta que os conduz na comunhão fraterna de seres irmanados na sua própria condição. Uma mistura de sagrado e profano.
Este livro fez o meu Verão, embora a estação ainda vá a meio. Não sou fã de contos, mas o Torga conta estórias como ninguém. Este livro aquece o coração dos filhos pródigos do meio rural e desvenda os segredos das serras aos leitores que lhes são estranhos.
Na tua ideia, o que escrevo, como por exemplo estas histórias, é para te regalar e, se possível for, comover.
E como promete Miguel Torga na 1ª edição deste livro, as suas histórias de gentes e terras duras e áridas não deixam de nos comover e regalar. Um dos maiores escritores portugueses.
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. - É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também. E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira. - Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.
Escrita castiça e mordaz da aspereza da montanha, abandonada a si mesma, à sua rudeza e tradição - "casa que, por arder, te deslumbra". As realidades sempre presentes da morte e da vida, da pobreza e do trabalho muitas vezes ingrato - do modo como se as carrega como se pode. O Alma-Grande e O Caçador, O Leproso e O Senhor, O Marcos e a Mariana... contradições e convergências - vidas de pessoas (mesmo ficcionais) reais. “Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos. (…). Crestados e encarquilhados, os rostos dos velhos parecem pergaminhos milenários onde uma pena cruel traçou fundas e trágicas legendas. Na cara lisa dos novos pouca mais esperança há.”
Gostei mais deste livro do que do "Bichos". No entanto, continuo a não me sentir fascinada com o que este autor escreve. A sua escrita é eloquente e bastante acessível, o que facilita a rápida leitura da obra. De todos os contos, recomendo apenas dois: "Repouso" e "O Leproso", ambos são bastante satisfatórios, em comparação com o resto.
Quando era mais nova li e gostei, parecendo que o autor possuía o dom de me fazer gostar de pequenas histórias simples sobre a vida de pessoas portuguesas. Revendo uns 13 anos depois, sinto o isolamento através das suas palavras e como a sua escrita já não me impressiona como antes, mas o seu conteúdo perdura no que sinto.
Um conjunto de contos que estiveram proibidos em Portugal e que nos ajudam a conhecer a situação do país antes da revolução de abril de 1974. Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, é um sinónimo de luta pela liberdade (chegou a estar preso, entre 1939 e 1940). Trata-se de uma obra incontornável, segundo penso. Bem-haja, pela partilha. Virgínia Ferreirinha