Não há muita dúvida sobre o fato de que Joaquim Maria Machado de Assis (1839/1908) é o maior escritor brasileiro de todos os tempos.
Suas obras clássicas – “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro”, “Memorial de Aires”, “Esaú e Jacó”, “O alienista” – pertencem ao “cânone” da literatura brasileira e a fama e o talento do “Bruxo do Cosme Velho” só fazem crescer hoje em dia em que novas e excelentes traduções de suas obras para o inglês tem contribuído para “globalizar” o apelo de Machado a um público cada vez mais amplo.
Apesar dos romances de Machado chamarem mais a atenção do público e da crítica em função de suas tramas encorpadas, amargas, realistas que nos levam a refletir acerca da natureza humana, o lado contista do autor é de inegável e reconhecida qualidade e muitos de seus contos figuram com galhardia e merecimento em várias coletâneas dos melhores contos brasileiros de todos os tempos.
Esse excelente “Várias Histórias” foi publicado originalmente em 1896 e reúne contos publicados no periódico “Gazeta de Notícias” entre 1891 e 1894.
Todos os contos são excelentes e trazem a marca registrada da excelência que é típica do mestre Machado mas merecem especial destaque o lúgubre “A cartomante”, o curioso e algo delirante “Entre Santos”, o surpreendente "Uns braços” em que o mestre faz uma das mais belas e pertinentes descrições dos tormentos vividos por um adolescente apaixonado:
“Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi encostar-se a uma das janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e lhe fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade ir embora e de ficar”.
Destaco também o melancólico e irônico “Um homem célebre”, o mordaz “A causa secreta” em que é clara a influência do estadunidense Edgar Allan Poe (1809/1849), outro mestre das narrativas curtas, “Trio em lá menor” que traz uma criativa e envolvente abordagem do tradicional tema do triângulo amoroso, os algo sacrílegos “Adão e Eva” e “Viver” além do brilhante “Um conto de escola”, uma espécie de ensaio acerca da eterna luta entre os valores e as tentações.
Leitura obrigatória!