A heroína é protagonista de sua história. Esse é um romance real.
A desconstrução do Romantismo em “A mão e a Luva” , por Taynara Teixeira Luiz
Em “Notícia da atual literatura brasileira – Instinto de nacionalidade” (1873),
Machado de Assis reitera que o problema da literatura brasileira é a falta de análise e traça o
que deveria ser (ou será) da literatura brasileira. Em “A mão e a Luva'' (1874), ele concretiza
esse intento ao compor uma narrativa na qual a ambição é valorada, enquanto o romantismo
(na figura de Estevão) toma um papel secundário. Exibindo, dessa forma, seu caráter original
e - pode-se dizer - vanguardista. “Machado defende o interesse bem compreendido da
sociedade brasileira: é preciso promover uma gente moderna, com iniciativa, dura se
necessário, para constituir família segundo princípios positivos, da conveniência dos ricos e
dos pobres mais dotados.”1 Feito este breve prelúdio, este trabalho tem como objetivo
analisar a desconstrução do romance romântico em Machado de Assis, a partir da obra A Mão
e a Luva. Trata-se de uma análise de composição de narrativa, caracteres, cenário e demais
elementos que evidenciam o rompimento com os padrões românticos estabelecidos.
Em sua primeira advertência, no lançamento da obra (1874), Machado de Assis
adverte o leitor sobre possíveis incongruências no desenvolvimento, arranjo de caracteres e método de composição do livro, pois foi publicado em folhetins. O seu desprendimento foi
tão notável que concluiu da seguinte maneira: “O que aí vai são umas poucas páginas que o
leitor esgotará de um trago, se elas lhe aguçarem a curiosidade, ou se lhe sobrar alguma hora
que absolutamente não possa empregar em outra coisa, — mais bela ou mais útil.”2
. Na data
de publicação, M. de Assis era conhecido na Corte como Machadinho, todavia, o apelido
diminutivo não alcançava em nada a magnitude de seu trabalho, ele já era um grande escritor
e crítico literário. À época, Machado frequentava os círculos literários do Rio de Janeiro e
tinha como um de seus admiradores José de Alencar, escritor que, com ressalvas, influenciou
em grande parte sua obra.
Dois anos antes, publicou Ressurreição (1872) e já apresentava sinais de disruptura
com o romance tradicional. Fruto de uma herança Flaubertiana, desmistificou a ideia
maniqueísta de certo x errado, bem ou mal. Somado a isso, na obra, esvaziando paradigmas
românticos, ele não dignificou o herói, pelo contrário, o desmoralizou: compôs um retrato do
herói de maneira dúbia e rebaixada. “Em Machado [...] a exposição das qualidades em
confluência com a revelação dos defeitos aproxima o personagem daquilo que se poderia
adjetivar como herói problemático ou ainda moderno” (HILÁRIO, 2012). Essa construção
distinta do herói romântico é continuada em A Mão e a Luva, pois, de forma explícita e
irônica, o narrador zomba de Estevão, um personagem que é romântico por natureza. O livro
pode ser considerado um romance anti-romanesco, uma vez que os elementos oriundos de tal
forma literária são distorcidos ironicamente. “O amor romântico, indiferente às vantagens materiais, aparece na figura de Estevão, mas para ser posto de lado.”4 Dessa maneira, é
possível afirmar que esta primeira fase machadiana é pré-realista.
A escolha da protagonista por um pretendente é o cerne do enredo. Há três
candidatos: o romântico por natureza Estevão, o ambicioso Luís Alves e o preguiçoso e
interesseiro Jorge. O drama da narrativa se dá na dualidade que a heroína se encontra, pois
sua madrinha, a Baronesa, deseja casar a afilhada com seu sobrinho, Jorge, entretanto, o
desejo real de Guiomar é casar-se com Luís Alves. Desse modo, surge a dúvida: ela deve
acatar passivamente a vontade da baronesa ou seguir sua vontade própria? Conclusivamente,
ela se casa com Luís, sem magoar sua segunda mãe, exibindo sagacidade e tino por parte da
protagonista. Ademais, a dualidade e, sobretudo, a liberdade de escolha da heroína expõe
uma posição revolucionária por parte do autor: “Machado opõe ao paternalismo autoritário e
tradicionalista um paternalismo esclarecido, que aproveita os dons naturais e a iniciativa do
beneficiado, em lugar de sacrificá-Ios.
Machado delineou de maneira minuciosa seu caracter: ao mesmo tempo que é
graciosa, delicada e grata por tudo que sua madrinha fez, é uma mulher misteriosa, que exala
frieza e cálculo. O leitor, ávido de encontrar respostas ao longo da narrativa, busca entender o
que se passa na mente da heroína, mas sem sucesso. Apenas nos últimos parágrafos é
possível delinear seu gosto e sua ambição.
Retomando um dos pontos centrais da narrativa, a desconstrução do romântico,
voltemos a falar sobre Estevão, o típico romântico que, ao contrário de Luís Alves,
desprendido, calculista e ambicioso, é sensível à poesia e à natureza. Os caracteres em
contraste se revelam na própria estrutura da narração, amparada pelo narrador machadiano
onisciente que, com seu estatuto irônico, permite a elaboração de uma caricatura dos
romances românticos. A escolha de Guiomar é a chave da narrativa, todavia, o que a
direciona é, certamente, o narrador. Este, aponta as distorções do romantismo, que aparece
como sinônimo de afetação e frivolidade.
Ao longo do livro, há diversas menções, entretanto, duas em especial são essenciais
ao sentido que desejo expressar: Byron e Goethe, dois expoentes da estética ultra romântica.
A intensidade de Estevão se assemelha a de Werther. Com a recusa de Guiomar, o seu
casamento com Luís Alves, ou em instantes de ressentimento e dor, seu ímpeto era de morrer
ou fugir da cidade (escapismo). “Desde a primeira página o sentimento romântico de Estevão
é cômico, apresentado que está como byronismo [...] em contraste com a inteligência do real,
muito valorizada em Guiomar e Luís Alves”. Em relação à Jorge, personagem interesseiro e
preguiçoso, mesmo aparentando certo desprendimento, em sua carta à Guiomar, fica evidente
um reflexo romântico: “falo porque morreria talvez se me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão que lhe peço, me não der uma esperança mais
segura do que esta, que me faz viver e consumir. Jorge."
Em Machado, a natureza é real. De início, pode parecer reflexo dos românticos,
porém, M. de Assis expõe que a natureza não muda em nada a realidade. Prova disso é que
no capítulo III, o narrador descreve “um céu claro e límpido, um ar puro, o sol a coar por
entre as folhas uma luz ainda frouxa e tépida, a vegetação em derredor, todo aquele reviver
das coisas parecia estar pedindo uma igual aurora nas almas.”10 Entretanto, Guiomar não
demonstra nenhum sinal de interesse por Estevão, pelo contrário, “Guiomar falava com certa
graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza, nem calor.”11 Já a natureza em Lucíola (1862),
por exemplo, faz transparecer o caráter e a bondade da heroína. Machado, na verdade, critica
os críticos que julgam ser necessário retratar a natureza e os elementos afins, ele deseja falar,
acima de tudo, da natureza humana. Desse modo, o que há, sobretudo, em A Mão e a Luva, é
a exploração da linguagem corporal em suas múltiplas facetas. O corpo pode ser lido em uma
força gestual. M. de Assis enriquece a obra descrevendo de maneira minuciosa,
principalmente, as feições e gestos de Guiomar, o que traz o leitor ainda mais para perto da
história, pois há passagens em que apenas o leitor tem conhecimento do gesto/emoção da
heroína, traçando, dessa maneira, uma narrativa envolvente.
A única vez que aparece no texto o adjetivo “ambiciosa” referindo-se à Guiomar é
após a elucubração de Luís: “não há dúvida; é uma ambiciosa”. Talvez, seja desse ponto em
diante que o interesse de Luiz por Guiomar começa a tomar forma, não de maneira incipiente,
visto que já tiveram um instante no passado, mas agora de maneira robusta. Tornou-se claro a
preferência de Guiomar por Luís nos últimos capítulos, todavia, sua recusa a Estevão e Jorge
já era conhecida: “Dos dois homens que lhe queriam, nenhum lhe falava à alma; ela sentia que Estevão pertencia à falange dos tíbios, Jorge à tribo dos incapazes, duas classes de
homens que não tinham com ela nenhuma afinidade eletiva.”
Pode-se dizer que a união entre Guiomar e Luís se deu a partir da conformidade e o
idêntico desejo de ambos de ambição. Apenas ao final da obra é que se tem a explicação do
título do livro. Sim, foram feitos um para o outro, pois tinham em comum a ambição: “—
Mas que me dá você em paga? um lugar na Câmara? uma pasta de ministro? — O lustre do
meu nome, respondeu ele.”