This 1854 collection of short stories includes the beautiful Sylvie, an influential work in which the author recalls the women he loved and the French countryside where he spent the innocent days of his youth, Jemmy, a kind of adventure story set in the American Midwest, Octavie, which tells of strange encounters in the area around Naples, Isis, reflections on the Egyptian religion, its practices, and its common points with Christianity, Émilie, a tragic tale from the French Revolution, Angélique, the split narrative of an impetuous 17th noblewoman and a writer's struggle to find an elusive historical book and The Chimeras, a collection of poetry including the famous El Desdichado. The book begins with a dedication where the author, who had recently been institutionalized and would commit suicide the following year, gives a vivid description of his experience with madness. There is also an essay where the writer collects and examines French folk songs.
Gérard de Nerval was the nom-de-plume of the French poet, essayist and translator Gérard Labrunie, one of the most essentially Romantic French poets.
Gérard de Nerval, nom de plume de Gérard Labrunie, écrivain et poète français. Figure majeure du romantisme français, il est essentiellement connu pour ses poèmes et ses nouvelles.
It will preceded by a dedication to Alexandre Dumas, where Nerval evokes the epitaphs of his death and his spirit because there came a time when it believed him to be dead. Another when it felt to be mad, this collection of prose texts, followed by a few poems, has something fascinating, surprising, and magical. Overall, we will get little specific for practical life but various impressions full of sweet poetic reveries. Its author has something unique and genuinely mysterious since he does not appear anywhere in a defined way. He always disappears behind various borrowed styles, which he appropriates so perfectly that one would say he plays his whole being there each time without any real personality emerging. We can note his interest in erudition, which leads him to discuss history or to immortalize some artifacts of a peasant world that he had now erased, his almost animistic propensity to spiritualize everything, and his very delicate and tender way of loving women, but, apart from all that, it is entirely devoid of its substance. The “madness” of a being empty of itself gives all the charm to the truly ghostly apparition that constitutes this pretty collection.
Um pequeno livro - com um palmo de altura e meio de largura (+-18x10) -, dividido em dois grupos: As Filhas do Fogo e As Quimeras. O primeiro tem cinco contos, três ensaios e uma peça de teatro; o último tem oito poemas.
Gostei especialmente dos contos: — Silvia O narrador está enamorado de Aurélia, uma cantora. Uma noite, ao sair do teatro, olha maquinalmente para um jornal e lê uma notícia que lhe vai despoletar recordações da infância e da adolescência. Deitado, numa semi-sonolência, vem-lhe à memória o tempo em que namorava com Silvia e quando, numa festa campestre, ao ouvir a bela Adriana cantar, ficou tomado de uma estranha perturbação. Foi a única vez que a viu; tempos depois, soube que se tinha tornado religiosa. Esta viagem interior do narrador, leva-o a pensar se a sua paixão por Aurélia será um reflexo da velha paixão por Adriana, ou até que Aurélia é Adriana. No final, uma pequena maldade de Silvia... Este é o resumo do enredo, no entanto este conto tem muito que se lhe diga, principalmente em relação aos vários tempos da narrativa. Mas não me vou meter nisso...
— Jemmy Passado no Ohio, conta a história de Jemmy, uma irlandesa forte e rebelde que casa com um alemão. Um dia é raptada pelos peles-vermelhas e só consegue fugir passados cinco anos. Ao regressar a casa encontra uma loira frágil no seu lugar; um marido, sem saber o que fazer com as duas mulheres, e um filho que prefere a madrasta. Mas a valente irlandesa não se deixa abater e faz-se à vida...
Numa prosa bonita e sem floreados, este é um livro interessante e, algumas vezes, divertido. O que prova que os livros não se medem aos palmos...
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"As ilusões, uma após outra, vão tombando como a casca de fruto, que é a experiência. Tem um sabor amargo e, todavia, algo de ácido que fortifica." — Gérard de Nerval
Gérard de Nerval nasceu em Paris, França, no dia 22 de Maio de 1808 e morreu em Paris, França, no dia 25 de Janeiro de 1855. É um dos autores mais importantes da literatura francesa. Aos 43 anos tem a primeira crise de psicose, que lhe provoca alucinações. É internado várias vezes. Aos 49 anos é encontrado enforcado numa rua de Paris, tendo no bolso os últimos capítulos de uma das suas obras. Foi sepultado no cemitério Père Lachaise. Segundo o crítico Harold Bloom, Nerval foi "um original indomável e intemporal". A sua obra influenciou autores como Charles Baudelaire, Marcel Proust, André Breton e outros.
A posteridade prega, por vezes, partidas aos vaticínios contemporâneos. Gérard de Nerval é disso exemplo. Valorizado, em tenra idade, pela qualidade da tradução do Fausto, de Goethe, para francês, que muito ajudou a popularizar a obra em França, a sua própria produção literária recebeu, na melhor das hipóteses, um sucesso moderado. Por consequência, manteve-se relativamente anónimo para o grande público, e chegou, até, a acabar os seus dias na mais obscura pobreza e marginalidade, sucumbindo ao suicídio. Todavia, Proust considerá-lo-ia um dos melhores escritores do século XIX, e uma das suas inspirações literárias de relevo
Para tal, muito contribuiu a obra As Filhas do Fogo. Publicada em 1854, esta consiste numa colectânea de criações literárias, publicadas anteriormente em folhetim em diversos periódicos franceses. A abrir o livro está um texto introdutório onde o autor dedica As Filhas do Fogo a Alexandre Dumas, fazendo a sua defesa pessoal contra acusações de que teria sucumbido à loucura. Pelo contrário, admite um esgotamento nervoso, que na verdade teve, e explica-o à luz de uma imaginação exacerbada, pois, para Nerval, “inventar, no fundo, é […] voltar a recordar” (NERVAL, p. 10-11), sendo-lhe impossível criar sem encarnar ele próprio as personagens e situações imaginadas. De facto, o primeiro conto, “Angélica”, é dedicado às atribulações de um personagem ficcionado do século XVIII, o abade de Bucquoy, responsável pelo enigmático esgotamento. Composto em estilo epistolar, “Angélica” é simultaneamente uma crítica sarcástica aos romances históricos de capa e espada, tão em voga na altura (veja-se Walter Scott e Dumas pai); e um exercício de metaficção em que o autor e a escrita do próprio conto constituem parte essencial da narrativa: a busca de fontes históricas para a ficcionalização da vida do abade de Bucquoy.
Seguem-se duas produções dedicadas ao Valois, que evocam esporadicamente as próprias memórias de infância de Nerval. Primeiramente, “Sílvia”, conto memorialista em que a linha do tempo alterna erraticamente entre o presente e o passado, ao sabor das recordações do personagem anónimo. Atormentado pela memória de uma antiga paixão de infância, Adriana, o anónimo, onde se entrevê Gérard, vê as suas relações com Sílvia, seu efémero amor de juventude, e depois com Aurélia, sua musa inspiradora, contaminadas e destruídas por semelhante evocação ininterrupta. Apenso a “Sílvia” estão as “Canções e Lendas do Valois”, ensaio etnográfico sobre o folclore autóctone da região.
A rematar a primeira parte da obra, encontra-se uma verdadeira miscelânea literária, composta por três contos, “Jemmy”, “Octávia” e “Emília”; um ensaio, “Ísis”; e uma peça de teatro, “Corilla”. Enquanto “Jemmy” é uma aventura pelo vasto Oeste Selvagem, incluindo até a intervenção essencial dos índios norte-americanos no enredo; “Octávia” é a narrativa da malfadada viagem de um anónimo por Itália, fugindo de um amor não correspondido, apenas para acabar de novo preso numa nova paixão inacessível. “Ísis” surge como complemento a “Octávia” na medida em que se concentra num episódio do referido conto, a visita a Pompeia, para dissertar sobre os mistérios insondáveis do culto da deusa do Egipto antigo, Ísis, e a sua influência na religião romana. Por sua vez, “Corilla” é uma comédia ao estilo italiano sobre o carácter, tantas vezes ilusório, do amor. E “Emília” é a história trágica do tenente Desroches, casado com a filha do soldado alemão que foi forçado a matar na última batalha das guerras napoleónicas, cuja revelação do facto inusitado leva à sua destruição.
A segunda e última parte de As Filhas do Fogo é uma antologia poética denominada “As Quimeras”, contendo doze sonetos. A poesia de Nerval é composta de um misto de elementos mitológicos e esotéricos greco-romanos com uma simbologia bíblica intrincada. O panteísmo da Antiguidade impregna os poemas “Myrtho”, “no dia em que rezava,/como as Musas, fiel a um Deus que a Grécia adora”; “Hórus”, “tremulando, o Deus Kneph estava abanando os mundos”; “Anteros”, “é que, da geração de Anteu originado”; e “Délfica”, “recordas-te, Dafne, daquele romance antigo” (NERVAL, pp. 220-21). Já as referências bíblicas podem ser entrevistas no número total de composições líricas, a relembrar as doze tribos de Israel ou os doze apóstolos, bem como nos poemas: “Artemis”, “flor de Santa Gúdula, roxo coração”; e “Cristo no Jardim das Oliveiras” (conjunto de cinco sonetos), “quando o Senhor ergueu os descarnados braços/entre os ramos sagrados”, “e até Judas fugiu”, “e foi Pilatos quem respondeu” (NERVAL, pp. 221-23). “Versos Dourados” é fruto de um sincretismo entre princípios esotéricos animistas e fundamentos alquímicos, alertando o “Homem, livre em pensar e que crês só tu ser/o Cérebro de um mundo em que tudo germina” (NERVAL, p. 224) para a sua injustificada arrogância como suposto mestre da Natureza, que, ela sim, reserva segredos, para nós insondáveis, que são a essência do universo. Contudo, o mais enigmático é o poema “El Desdichado”, com a sua imagética do mal-aventurado, de vago cariz autobiográfico, de onde apenas se depreende claramente a alusão aos esgotamentos nervosos que sofreu, “duas vezes venci, passando o Aqueronte” (NERVAL, p. 219), estando o resto envolto num significado críptico, ainda hoje desconhecido.
O tema central de As Filhas do Fogo é indubitavelmente a figura feminina, que dá nome à obra, bem como à totalidade dos contos, ensaios e à peça de teatro. A mulher assume-se como o agente à volta do qual gravita a acção. E o enfoque do narrador, que, através de todas as produções literárias, parece constituir uma só entidade, o próprio Nerval e as suas múltiplas facetas e existências interiores, a elas dedica as suas reminiscências e recordações, interesses e iniciativas. Influenciado pelo conceito de eterno feminino de Goethe, a mulher afigura-se-lhe como a fonte de felicidade, por excelência, devido ao seu carácter contemplativo, puro e transcendental, porque gerador da própria vida, logo inerentemente sibilino e profético, porque guardiã dos mistérios do mundo. No entanto, se a mulher é a fonte de felicidade, Nerval opta por a contemplar, ao invés de a fruir.
Em profunda correlação com a figura feminina, está o carácter do amor, o outro grande vector da narrativa. Tal como a sua posição em relação à felicidade, Nerval opta por um amor mais idealizado do que vivido. Mesmo quando está prestes a experiencia-lo, acaba por inadvertidamente relegar-se para segundo plano, concentrando-se, antes, num voyeurismo contemplativo, assombrado de reminiscências. Quando de facto passa à acção, contenta-se em ser apenas o amante, o outro, numa perpétua preservação de si próprio, reduzindo a sua exposição às profundas revoluções do amor, e cristalizando-se como o eterno “desdichado”. Desta forma, pode afirmar Corilla, em relação a Fábio, um outro Nerval, “talvez apenas adore em mim a actriz: o seu amor necessita da distância e dos focos da ribalta” (NERVAL, p. 194).
É difícil inserir Gérard de Nerval no âmbito dos movimentos literários oitocentistas. Apesar de se ter filiado no movimento romântico, associando-se à defesa do Hernâni de Victor Hugo, que marcou o início de uma nova estética teatral, e colaborando com Alexandre Dumas em vários projectos dramatúrgicos, as suas influências são heterógenas e o seu percurso sui generis. Em primeiro lugar, Nerval foi dos poucos autores franceses a receber uma influência directa da literatura germânica, através da tradução do Fausto e das antologias de poetas românticos alemães, que editou. Em segundo lugar, é possível associa-lo à literatura gótica de cariz onírico-fantástica, veja-se os seus personagens principais, mal-aventurados e sempre a um passo do desespero, fruto das leituras dos contos de Hoffmann e de Charles Nodier. Em terceiro lugar, perpassam pela ficção nervaliana elementos da cultura clássica, com constantes referências mitológicas, a defesa do culto esotérico de Ísis, e as ruínas de Pompeia e Herculano como frequente plano de fundo da narrativa, que o aproximam do pré-romântico Rousseau.
Toda esta amálgama heterodoxa de elementos e influências contrastantes produziu um corpus único na literatura francesa do século XIX, que não deixaria de ecoar muito para além da morte do próprio autor. A imagética críptica e sincrética de Nerval, misto de desespero e esoterismo onírico, terá continuação tanto na ficção de Lautréamont, como na estética de vanguarda surrealista. Verlaine inclui-lo-á na lista de poètes maudits, como um dos prenunciadores do simbolismo. E Proust inspirar-se-á na concepção fluída e memorialista do tempo, explorado em ”Sílvia”, para a criação de Em Busca do Tempo Perdido.
Referências
NERVAL, Gérard de (1997) – As Filhas do Fogo. 2.ª Ed. Lisboa: Editorial Estampa. (Livro B, n.º 15).
El ensueño,. el sueño y algo más profundo, la visión mística atea, volcada a una diosa femenina ( oa una serie de diosas) que nos deslumbra y nos revela un mundo diferente, paralelo y muy lejano a este pero, completamente trascendido.