"Sentia-me uma pessoa. Sentia-me uma mulher. A sua alma-gémea.
Ninguém me resgatou, me quebrou, me deu vida só por existir, só por estar ali, sorrir-me, dar-me valor. Dar-me a mão. Pegar em mim. Escutar-me. Só ele a quem traí." Pág. 124
Dou os meus mais profundos parabéns à coragem de Isabela em transpor e partilhar este caderno de memórias.
Este livro lê-se com fúria, com revolta, com vergonha, da verdade nua e brutal do colonialismo português em Moçambique.
Este livro veio confirmar o que eu há muito depreendia dos discursos de pessoas que lá tinham vivido e que, não obstante, não assimilavam o quão racistas eram (são).
Este livro veio comprovar que as minhas suspeitas sempre estiveram certas na repugnância que sentia ao ouvir a verdade nas mentiras.
Este livro é muito mais do que eu alguma vez poderei dizer sobre ele.
E é de uma autora portuguesa; que orgulho escrever assim!
"Moçambique é essa imagem parada da menina ao sol, com as traças louras impecavelmente penteadas, perante a criança negra empoeirada, quase nua, esfomeada, num silêncio em que nenhum sabe o que dizer, mirando-se do mesmo lado e dos lados opostos da justiça, do bem e do mal, da sobrevivência." pág. 214
É intenso, é cru, é um apelidar as coisas pelo que são, sem subterfúgios, sem contemplações, sem o politicamente correcto.
Provavelmente não será do agrado de muitos, provavelmente será um exorcizar de memórias de outros, mas com toda a certeza será uma obra impactante, com a sua escrita muito própria, que não deixará ninguém indiferente.
"Nesse momento houve um vácuo de tempo em que não fomos pessoas, não tivemos culpas nem prazeres; nada humano – só nós; senti ao longe o odor da sua carne transpirada, ácida e doce, que era a minha vida, dos seus ombros e rosto, um abraço que não pudemos desapertar nunca; e ainda não, e em nenhum lugar, nunca, porque não era apenas um abraço, mas a aliança invisível, muda, que mantínhamos, à qual fui fiel mesmo quando traí." Pág. 164