"Onde corre a fonte do ouro
apodrece a flor da lei!"
Quando leio um livro, vejo um quadro, ou um filme, ou que seja, às vezes me ponho a pensar: será que se eu dedicasse um bom tempo e toda minha criatividade numa empreitada artística eu também conseguiria fazer algo parecido? Considerando que, fora algumas brincadeiras musicais, não sou artista, e nem me vejo como uma pessoa muito criativa. Mas no fundo, assim como o autor da obra, sou humano, certo?
Romanceiro da Inconfidência é um desses livros em que eu penso que nem se eu dedicasse minha vida inteira eu conseguiria fazer algo parecido. Acho que é um dos meus livros de poesia favoritos pelo fato de unir poesia muito linda, que é leve, delicada, mas deliciosa de se ler, reler, declamar e cantar, com a narrativa histórica da inconfidência, que eu sendo alguém que adora história, apreciei demais. É seguro dizer que Cecília, que além de poeta era professora, nos dá várias aulas com esse livro.
Claro que com relação a esse aspecto histórico, talvez haja certa liberdade poética para exageros ou efeitos. A poesia de Cecília é muito emotiva e sensível, ela escreve de uma maneira que se percebe que ela tinha uma admiração enorme pelos inconfidentes, e um desprezo pelos seus opressores. A história no livro se dá mais pela história desses personagens, apesar de alguns poemas também se preocuparem bem com descrever o cenário e vida nas Minas coloniais. No meio do fogo cruzado, a rainha Maria I, que acaba aparecendo como uma espécie de santa. Pra alguém que desconhecesse por completo a história, acho que isso seria muito curioso. Certamente é questionável, mas é uma leitura da história que Cecília fez, e que afinal das contas a história não é preta e branca.
Assim como eu, Cecília não era mineira, mas seu amor pelas Minas e pela história delas se expressou muito bem neste Romanceiro. Bom, eu me contento expressando meu amor por Minas viajando lá sempre que posso e comendo pão de queijo. Mas quem sabe na próxima encarnação eu posso ser 10% do que Cecília Meireles foi.