TRABALHO SOBRE HONRA (Podem usar em troca de um gosto :) )
Amor de Perdição e o papel da honra
A obra Amor de Perdição publicada pela primeira vez em 1862 e escrita por Camilo Castelo Branco, um dos melhores autores do século XIX, e sem dúvida um dos escritores que mais marcou o Romantismo em Portugal, conta-nos a história trágica de Simão António Botelho e Teresa de Albuquerque, dois jovens apaixonados mas que pertencem a famílias que se odeiam mutuamente.
Apesar do amor ser um dos sentimentos que obviamente mais move Simão ao longo de toda a história, a elevação de carácter deste protagonista também reside noutras nobres qualidades, como é o caso da coragem que revela nos seus atos, a sua determinação e principalmente a sua honra.
A honra está presente ao longo de toda a obra e acaba por ser fundamental no seu desenlaçar e desenvolvimento. Está presente nas decisões, atos das personagens e na própria essência da história, sendo fundamental na questão do amor proibido entre Simão e Teresa, dado que este amor só era intruso devido à grande rivalidade familiar que os pais de ambas as famílias demonstravam.
Por outras palavras, este amor é de tal forma movido pela honra que nem Domingos Botelho nem Tadeu de Albuquerque estavam dispostos a pôr de lado seus conflitos para satisfazer a vontade dos seus filhos, uma vez que isso ia manchar o orgulho e o sobrenome deles.
No caso de Tadeu, ele decide enviar Teresa para um convento, onde ela acaba por adoecer ao descobrir que Simão vai morrer na forca, e consecutivamente, perde a vontade de viver. Apesar disso, o seu pai não se mostra nem um pouco preocupado porque se ela morrer nunca mais poderia arruinar o nome da família, e com isso, Tadeu conservaria a sua reputação.
Tal podemos deduzir na seguinte citação:
"Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria mais tranquilo, e com a sua honra sem mancha."
No caso de Domingos, ele também não se atreve a abdicar da honra por nada deste mundo, nem mesmo para salvar a vida de seu filho. Tal podemos verificar quando Simão está na cadeia, esperando morrer na forca, e o seu pai, apesar de saber o seu cruel destino, não se atreve a fazer nada pois tem medo de ficar malvisto.
No final, ele acaba por ceder e a ajudar Simão, não porque ganhou coragem e superou o seu medo, mas sim porque o tio-avô de Simão, António da Veiga, ameaça matar-se caso ele não ajude o filho, como podemos deduzir da seguinte citação dirigida a Domingos:
“Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e três anos (…) Isto nem já é vida; mas foi-o, e honrada, e sem mancha até agora (…) Domingos Botelho, ou tu me prometes aqui salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me mato.”
Este sentimento nobre também é notável em outras partes da história, e, até podemos dizer, que chega a ser o veneno culpado pela desgraça de Simão, pois quando Simão dispara contra Baltazar (que curiosamente também perde a vida a defender a sua honra) ele acaba por aceitar as consequências do seu ato e decide não fugir. Esta decisão fez com que Simão, tal como já foi referido, fosse condenado a prisão, onde mais uma vez, a honra, era a única coisa que realmente mantinha Simão atrás das grades pois independentemente de ser filho do magistrado ele recusou-se a ser tratado com privilégios e a pedir ajuda ao pai, aceitando o seu “digno” destino.
Por outro lado, apesar deste sentimento nobre ter prejudicado Simão em muitos aspetos, a meu ver, também trouxe consigo suas vantagens e, em particular, fez com que Simão ganhasse o respeito do povo e de outras personagens bastante importantes como é o caso do João da Cruz, que sempre se manteve leal a Simão e nunca voltou atrás na sua palavra, ajudando-o, até, nos momentos mais difíceis pelos quais passou.
Em suma, a honra está constantemente presente nesta obra, desde ao início ao fim, sendo uma característica, sem a qual, este livro seria completamente diferente. A honra acaba por funcionar como um ideal imposto pela sociedade da época que a maioria das personagens, principalmente masculinas, persegue ao longo de toda a história. Camilo, com isto, critica a obediência cega da sociedade aos preconceitos arcaicos de honra familiar que se adotavam naqueles tempos. Tal como se diz, a honra é a bússola dos homens de bem, e sem ela este livro certamente perdia o “norte”.