Ranma 1/2 foi o primeiro mangá que li em português, já na sua primeira publicação no final dos anos 1990, pela finada editora da também finada livraria Animangá, da Liberdade. A qualidade era uma tristeza (impressão ruim, revisão de texto péssima, leitura espelhada, apenas dois capítulos por edição), mas era o que tinha antes da “revolução editorial” de 2000/2001 promovida pela Conrad e pela JBC.
Por questões de grana e de espaço fiquei um bom tempo sem comprar mangás, mas em 2018 os dois aspectos foram resolvidos e comecei a correr atrás do que tinha “perdido”. Ranma (que tinha sido publicado na íntegra, com volumes completos e melhor qualidade em quase tudo, exceto o papel brite) foi uma das minhas prioridades.
Rumiko Takahashi é uma de minhas quadrinistas favoritas. Fez obras de grande sensibilidade (especialmente as histórias curtas reunidas em coletâneas) e por aqui ficou mais conhecida por Inu-Yasha, que tem um caráter mais aventuresco. Suas primeiras obras (e as que lhe trouxeram renome no Japão), Urusei Yatsura e Maison Ikkoku, focavam na comédia romântica (embora UY tivesse também elementos de ficção científica e fantasia). Ranma 1/2, por sua vez, acaba sendo (sem trocadilhos) uma obra de transição que reúne tanto elementos de comédia e romance como de ação e fantasia.
A obra ficou mais conhecida por uma característica peculiar do protagonista: quando é molhado com água fria, o corpo do jovem Ranma Saotome se transforma no de uma mulher, por ter caído num “poço amaldiçoado” na China. Porém, a obra não envereda muito por uma discussão de gênero: Ranma de início se incomoda com a transformação, mas em alguns casos passa a usá-la a seu favor (chegando até a comparar os “dotes” de seu corpo com o da outra protagonista, sua noiva prometida Akane Tendo); porém, tanto sua identidade de gênero como a orientação sexual não são impactadas por isso (e talvez seja esse o ponto em que alguma discussão de gênero a partir da obra poderia ser interessante). A transformação no corpo é usada principalmente como um “limitador” em certas situações de conflito (evitar ser reconhecido, precisar ser reconhecido, competições em que o personagem precisa necessariamente atuar numa categoria masculina ou feminina etc).
Sendo sincero, o casal protagonista não tem nada de muito especial. A dinâmica entre eles é algo que já se viu ad nauseam em outras narrativas: repulsa mútua inicial que vai se atenuando com o tempo e se transformando em paixão. (Para ser justo, em boa parte dos mangás shonen os protagonistas são os personagens menos interessantes, talvez por serem tão parecidos).
Mas a coisa muda de figura quando entram em cena os coadjuvantes… Devido a eles e às situações que a autora cria com muita habilidade, a trama se mantém cheia de energia e vai se renovando continuamente. Os primeiros capítulos da série se passam no dojo de artes marciais da família Tendo, que recebe os recém-chegados Genma e Ranma. Ali já se introduz o combo atrito+atração entre Ranma e Akane, e também as excêntricas famílias dos dois. No dia seguinte, Ranma e Akane vão ao colégio e são recepcionados por uma horda de alunos que acreditam que poderão namorar com Akane caso a derrotem em uma luta, condição imposta pelo veterano Kuno, apaixonado por Akane e que também quer derrotá-la para que ela namore com ele (a própria Akane não tem interesse por nenhum deles), e pouco depois se apaixona pela versão feminina de Ranma (e segue afirmando querer manter um relacionamento simultâneo com as duas). Assim, Ranma precisa se esquivar, por um lado, das mais aleatórias oportunidades que Kuno encontra para iniciar um duelo, e por outro de seus repentinos cortejos.
Logo passam a surgir outros personagens que em geral têm um interesse romântico por uma das duas versões de Ranma ou por Akane, e simultaneamente um ódio mortal por pelo menos uma das versões de Ranma. Esses coadjuvantes se destacam pela excentricidade - outra marca da autora - e pela relação frequentemente ambígua com Ranma, que mescla a rivalidade com alianças provisórias, ou a amizade com pequenas traições oportunistas (alguma das revistas sobre cultura japonesa que circulava nos anos 90 definia os coadjuvantes como “amigos mas nem tanto” do protagonista, e acho que isso resume bem a situação).
Além de manias e obsessões curiosas, vários desses coadjuvantes também caíram em poços amaldiçoados e se transformam nos mais diferentes animais - panda, gato, porco etc - o que novamente serve tanto como “limitador” quanto como elemento que faz a trama andar. Temos como exemplo Ryoga, um dos vários personagens obcecados por vingança contra Ranma, que se transforma num porquinho quando molhado e é adotado como pet por Akane (que não sabe da transformação), o que gera situações de ciúmes por parte de Ranma, etc.
Farei outro review quando terminar o volume 38, o número final. Em um dia já li quatro e o recesso acadêmico já está chegando, então não deve demorar tanto. Por hora, posso dizer que não parece que haverá nenhuma discussão de questões mais sérias, mas a série é excepcional como diversão, justamente pela habilidade da autora em criar um cast colorido e situações esdrúxulas. Nesse sentido, é o shonen mais interessante da autora (embora Urusei Yatsura, Inu-Yasha, Rin-ne e Mao também sejam bacaninhas).