Francamente, a história/lenda da nossa tão querida heroína não foi exactamente ao encontro do que imaginei, talvez porque a nossa mente teima em florear e criar cenários que gostaríamos que correspondessem à realidade.
Quanto mais lia, menos identificava com o que tinha como certo. Na verdade, fazem da personagem desde a sua nascença uma "persona non grata", por não ser o tão almejado varão, até à infelicidade de ter mais um dedo em cada mão, olhos pequenos e tortos e desgraçadamente feia. Sempre foi tida como um ser demoníaco. Mal amada, enxovalhada, incompreendida, injuriada, só buscava o infortúnio e maldições.
Os crimes de que é culpada ou apenas sobrevivente, fazem-na ter uma vida errante, de fuga e destituída de sentido.
Por sua vez a saga da Dama de Pé de Cabra, muda tanto de mãos e tarda tanto em chegar que se perde o fio à meada.
Em paralelo vem a história da Rainha menina Beatriz, inocente criatura com um fardo pesado do tamanho de um reino, ou neste caso até de dois de Portugal e Castela, à mercê das intrigas da corte, joguete nas mãos de sua mãe, D. Leonor, mulher insensível, cruel, que apenas vive para reinar, para arrebatar todo o poder e de D. Fernando, um rei seguramente indeciso, influenciável. Poderosa história sobre Portugal na Idade Média, a dinastia de Avis, Nun'Álvares Pereira e a vitória glamorosa dos que estão em menor número mas unidos pela fé, inteligência, estratégias certeiras e que transformam o querer no poder.
Perdoem-me se fiquei desiludida, que apenas num dos últimos capítulos venha a lume a valentia da Padeira em prol de tão nobre causa nacional, mas que em boa verdade, não justifica obviamente a vitória de Portugal.
Não quero ser de forma alguma injusta com a escritora, que romanceia a história e que como ela própria refere “os caminhos que atravessam o tempo são insondáveis e arriscados, e refazer o passado é sempre impossível”.
Que dizer posto isto... talvez se mais soubesse sobre a lenda menos expectativas teria sobre esse tema e estaria apenas a elogiar e a valorizar a forma cativante de escrita.
“- ... Estava escrito que haviam de ser sete. Sete são as letras do nome Beatriz, e Brites é tão-só uma forma de se dizer “Beatriz”...”
“No meio da multidão que enchia a capela, a padeira e a rainha prenderam o olhar por escassos momentos, adivinhando a luz de um mesmo desmerecido amor, rasgado pela dor da perda.”