“Nosso irmão é na verdade uma menina”
O Afeganistão é o pior sítio do mundo para se ser mulher.
Jenny Norberg, jornalista, passou cinco anos no Afeganistão a investigar as bacha posh raparigas que por razões diversas se disfarçam de rapazes.
Jenny acompanhou a vida de 4 famílias que se disponibilizaram a contar as suas histórias, iguais a tantas outras histórias vividas por famílias no Afeganistão
Azita Rafaat, ex-parlamentar da província de Badghis em Cabul, é a personagem principal da investigação de Jenny Nordberg, e é a história dela que conhecemos com mais profundidade.
Um pouco da história do Afeganistão para melhor compreender o livro.
Na década de 1979-1989, a união soviética apoiada pelo governo da República Democrática do Afeganistão, aboliu a segregação de sexos, as raparigas não vestiam burca, aprendiam a ler e a escrever e casavam com quem queriam. Os direitos humanos abrangiam igualmente a condição feminina.
Da aliança entre os mujahidin e os EUA os soviéticos foram obrigados a retirar em 1988. A repressão dos talibãs sobre as mulheres tornou-se ainda mais violenta do que na era pré-soviética, com a anuência dos EUA.
O pai de Azita foi professor universitário na era soviética, Azita, tal como todas as outras meninas, por essa altura, eram obrigadas e estudar, por isso Azita frequentou a escola durante anos, aprendeu várias línguas.
O enfraquecimento do governo e a saída dos soviéticos, foi palco de sangrentas guerras entre as várias tribos afegãs, que ainda hoje pululam no país, com a permissão dos EUA, que apenas queriam e querem é explorar as companhias petrolíferas. O Afeganistão é dos países mais corruptos do mundo, vivem do ópio e de petróleo.
Com a saída do URSS, o pai de Azita teve casar a filha com um parente, com medo que os talibãs lhe raptassem a filha para as montanhas. Os talibãs recolhiam adolescentes solteiras para servir como escravas sexuais, mas tinham preferência pelas instruídas.
Azita, segunda esposa de um homem pobre de pouca instrução, gerou quatro meninas. A falta de um filho varão para além de abalar a reputação da família, se mostrava como um obstáculo à sua carreira na política.
Cortou o cabelo, vestiu um par de calças, uma camisa jeans e sua filha mais nova Mahnoush se transformou no pequeno Mehran. Foi eleita parlamentar, embora usufruísse de pouca atenção dos seus pares, falava várias línguas entre elas o inglês, por isso comunicava bem com as ONG, com as comitivas estrangeiras no país. Ganhava um bom ordenado, gozava de uma boa reputação social e tinha acesso a alguns privilégios negados às outras mulheres.
Zahra, uma adolescente que se recusa a passar pela transição à condição feminina, tornou-se bacha posh devido ao mito existente que, se se transformasse uma rapariga em rapaz, os filhos seguintes nasceriam rapazes. Assim aconteceu, dos nove filhos, o casal foi abençoado por um filho varão, mais novo que Zahra.
Zahra, cresceu com todos os privilégios que beneficiavam os rapazes, frequentava a escola várias horas por dia, brincava na rua, jogava à bola, andava de bicicleta, podia olhar os outros rapazes nos olhos, podia trabalhar fora, etc.
Tornou-se adolescente e o corpo começou a ter contornos femininos, os quais ela dissimulava e negava. Rejeitou a transição para a condição feminina e tornou-se num grave problema para os pais.
Na cultura afegã a homossexualidade é crime, assim como os bacha posh, contudo, nas crianças desde que elas não sejam descobertas os homens toleram, mas quando se tornam adolescentes são todas obrigas a desempenhar o seu papel na sociedade, ou seja, têm que casar e gerar filhos.
Zahra continua homem, esconde-se da sociedade para não ser notada e sonha com a possibilidade de fugir do Afeganistão.
Shukria, de idade aproximada à de Azita, também estudou e tornou-se enfermeira. Viveu 20 anos como homem, casou e teve 3 filhos. O pai obrigou-a a casar e ela teve que respeitar a sua decisão, contudo nunca se sentiu mulher/esposa e o casamento foi uma fracasso, o marido abandonou-a, tornando-se um grave problema para ela, porque o marido nunca lhe deu o divórcio e para efeitos legais ele tem direitos sobre ela e sobre os filhos.
A sociedade afegã é patriarcal e patrilinear, o pai tem direitos sobre as filhas, que por sua vez, transmite esse direito aos maridos que o pai escolhe para as filhas. As mulheres não têm direitos legais, nem do próprio corpo. O casamento é contratualizado, se a família é pobre, o pai recebe um valor monetário pela venda da menina, como ressarcimento pelos anos em que o pai teve de a alimentar e vestir, se a família é rica normalmente são feitas alianças entre famílias, procura-se manter o nível socioeconómico e o reconhecimento social. O preço da rapariga é tanto maior, quanto maior for a sua beleza e a sua reputação (ser uma menina recatada e tímida).
Não existe punição ao homem que bate nas mulheres, porque se eles lhes bateram foi porque elas assim o mereceram, tal como, não existe crime de violação, porque se a mulher foi violada foi culpa dela, por exemplo, se uma mulher afegã anda na rua desacompanhada de um elemento masculino (marido, pai ou irmão) pode ser violada, e não pode recorrer à justiça, porque as mulheres não podem andar na rua sozinhas.
Nader também frequentou a escola e aprendeu a conduzir, gosta de carros e mecânica automóvel, arranja-os, não se casou nem teve filhos, e nunca se tornou mulher. Criou um grupo de raparigas bacha posh, onde lhes ensina técnicas de taekwondo.
No Afeganistão as mulheres não frequentam a escola e não aprendem a conduzir, Nader foi uma exceção, que não é bem vista aos olhos dos homens, consideram uma provocação e criam-lhe problemas na estrada.
Ao longo do livro Jenny presenteia-nos com investigações paralelas feitas noutras regiões do planeta a ao longo dos séculos, recorrendo antropólogos, cientistas sociais e médicos: psicólogos, psiquiatras, pediatras, etc. para desvendar a situação feminina nas sociedades patriarcal e patrilinear que prioriza o género masculino e considera fundamentalmente defeituosas as mulheres que só geram meninas.
Na sua investigação, Jenny tenta explicar questões de género e orientação sexual que envolvem as bacha posh, os efeitos que estas raparigas podem sofrer, dependendo da idade em que voltam à condição feminina, e as razões de esta prática não se restringir a determinadas idades e classes sociais.
A sociedade afegã é patriarcal e patrilinear como já foi referido, por isso a segregação dos sexos, os filhos homens vivem sempre perto dos pais, mantém o apelido da família, sustentam e cuidam os pais na velhice, enquanto que as raparigas ao primeiro sinal da menorreia, saem de casa da família para serem entregues à família do marido.
Algumas situações que fazem chorar as pedras da calçada:
Na província, onde o estado islâmico é mais repressivo, as mulheres quando dão há luz uma menina, se for a primeira filha é tolerado, nada acontece, a partir daí está sujeita a passar uns dias na capoeira ou no curral a conviver com os animais, sem qualquer alimentação, é um castigo, porque não ter cumprido a sua função, por isso as mulheres passam toda a gestação em preces para que o filho seja varão. É o marido que impõe esse castigo, porque a mulher o desonrou ao não lhe dar um filho homem. O marido procura outra mulher. Um homem pode ter no máximo 4 mulheres, desde que tenha dinheiro para as comprar e as sustentar.
Se o primeiro filho é varão, é motivo de festa, em homenagem ao filho e à mãe o marido oferece uma festa à família, aos amigos e aos representantes locais para apresentar o novo membro da família. O marido pode comprar outra mulher, mas geralmente não o faz, se conviver bem com a primeira.
O tempo médio de vida das mulheres é de 44 anos, passam metade do tempo grávidas. A mortalidade infantil é muito elevada, porque: as condições sanitárias são inexistentes, os maridos não deixam as mulheres irem ao médico, e os poucos médicos que existem é nas grandes cidades, o infanticídio feminino é bastante elevado e regra geral, as mulheres devem ter pelo menos 6 filhos vivos para perpetuar a espécie.
No Afeganistão, a premissa é que o homem precisa de estar permanentemente bem fisicamente e psicologicamente para poder trabalhar e sustentar a família, como tal, pode ter as mulheres/crianças que quiser, e fazer com elas o que bem entende sem que ninguém interfira, por exemplo, se bater ou violar as mulheres, nenhum outro homem pode interferir, nem mesmo os pais dela ou irmãos.
As mulheres para alem de gerar filhos, servem para dar prazer sexual, e não se podem negar a nada, sob pena de serem castigadas. É vedada à mulher qualquer satisfação sexual, porque se gostarem de sexo, podem ter o desejo de querer experimentar com outros homens.
Uma mulher que leia romances ou que escreva é uma prostituta,
Uma mulher que mostre o tornozelo ou a cara na rua é uma prostituta,
Uma mulher que abandone o marido é uma prostituta,
Uma mulher que traía o marido está sujeita à morte.
As raparigas afegãs sentem pena das raparigas ocidentais porque é passada a ideia que as mulheres ocidentais têm relações com mil homens, o que torna a vida das mulheres ocidentais um inferno, se elas, com um homem têm uma vida miserável imagine-se com mil.
As mulheres afegãs não sabem o que é a liberdade, nem os direitos humanos, apenas vêm televisão americana (poucos canais, essencialmente filmes), comem no fast food americano e bebem coca-cola.
Se os EUA não tivessem interferido no Afeganistão e não tivessem mentido ao mundo, quando disseminaram a ideia que os russos estavam a dizimar a população inocente, quando na realidade estavam a lutar contra os talibãs a pedido do governo, para que se instaurasse os direitos humanos a todos os cidadãos, e desenvolvessem o país, o Afeganistão podia ser hoje um país desenvolvido, onde todos os seus concidadãos pudessem viver livremente. O que temos hoje são tribos corruptas que se subjugam ao poder americano e que lhes fornecem riqueza e poder.
O livro é denso e, em diversas partes nos obriga a parar, pois gera revolta e faz sofrer ao pensar na situação em que vivem milhares de mulheres, que são: mutiladas, maltratadas no seio da família, que sofrem de depressão e se suicidam, e outras que enterram as filhas, para evitar o seu sofrimento futuro.
Este livro é também, e principalmente, uma declaração da força feminina para encontrar maneiras de resistir à opressão masculina enraizada, no sentido de lhes permitir tomar, futuramente, o controle das suas própria vida e do seu corpo, quando tudo ao seu redor lhes impede de continuar de cabeça erguida.
A última declaração de Azita no livro é um pensamento profundo, e que consegue finalizar o estudo de maneira incomparável:
“Sabemos como é ser homem. Mas eles não sabem nada sobre nós.”