#outubrohispanoamericano
"Somos o Esquecimento que Seremos” é a crónica de uma morte anunciada, numa Colômbia mais urbana, factual e politizada do que a de Gabriel García Márquez, mas igualmente violenta.
Não há dúvida de que já estava preparado para morrer, mas isso não significava que quisesse que o matassem. Numa entrevista que lhe fizeram nessa mesma semana, perguntaram-lhe sobre a morte, ou melhor dizendo, sobre a possibilidade de o matarem, e ele respondeu assim: “Eu estou muito satisfeito com a minha vida e não receio a morte, mais ainda tenho muitos momentos de alegria: quando estou com os meus netos, quando cultivo as minhas rosas ou converso com a minha mulher.
É uma sentida homenagem de Héctor Abad Faciolince ao seu pai, barbaramente assassinado pelos esquadrões da morte colombianos no meio da rua, em 1987, mas não é uma hagiografia, como o próprio autor diz, porque ninguém na sua família, incluído ele mesmo, é perfeito, mas o respeito e o amor que os une é inegável.
Suponho que era por isso que gostavam tanto um do outro e se admiravam: porque a minha mãe via nos apaixonados pensamentos generosos do meu pai a razão da sua vida e o meu pai via nas acções dela a realização prática dos seus pensamentos. E o contrário também sucedia: aminha mãe via-o agir como o cristão que ela teria gostado de ser na vida prática e ele via-a resolver os problemas quotidianos como a pessoa útil e racional que ele gostaria de ter sido.
Hector Abad Gómez era um idealista que os conservadores apelidavam de comunista, mas que a esquerda considerava demasiado reaccionário, e sempre se bateu pela medicina preventiva, pelo saneamento básico e pela vacinação, depois de perceber que não tinha mãos suficientemente firmes para ser cirurgião. Mais tarde, tornou-se um acérrimo defensor dos direitos humanos, cuja violação denunciava abertamente e contra a qual se manifestava sem medo.
Na Internet estão disponíveis várias fotos de Héctor Abad Gómez e da sua família, mas há duas que me abalaram bastante, porque o que uma tem de terrível tem a outra de emotiva. A primeira é a do cadáver do médico estendido no meio da rua, numa poça de sangue, rodeado por várias mulheres chorosas e pelo filho que, de tão impávido que parece, só pode estar em choque. Na outra, o Dr. Héctor Abad tem um ramo de rosas nas mãos, as flores preferidas de uma das filhas, que ele passou a cultivar depois da sua morte e que constituiu um dos momentos mais comoventes desta obra.
Na última entrevista que lhe fizeram, no fim de Agosto de 1987, quando lhe perguntaram sobre a sua rebeldia, referiu-se ao seu roseiral: “Não quero perder a rebeldia. Nunca fui submisso, jamais me verguei a não ser perante as minhas rosas e apenas sujei as mãos na terra do meu jardim."