"Os pecados antigos crescem tal como as velhas dívidas." - Uma citação desprovida de uma significação especifica, de um livro igualmente liberto de reflexões de maior.
"Ladrão de Almas" é o segundo livro da série de Þóra Guðmundsdóttir. Com excepção do prólogo, que remota a acontecimentos passados no ano de 1945, a acção desenrola-se num hotel que privilegia eventos espirituais e se foca em tratamentos de bem-estar. Situado na península de Snaefellsnes, na Islândia, este local vai ser o palco de um assassino que, curiosamente, espeta alfinetes nos pés das vitimas, de forma a impedir que voltem como espíritos.
Thora é advogada do dono das instalações, Jonas Juliusson, e é a pedido deste que se vai instalar lá para investigar os espíritos que o andam a atormentar. Apesar do seu cepticismo em relação ao mundo sobrenatural, Thora sente-se entusiasmada por ver a sua rotina alterada. Durante o desenrolar da história vão-se lhe juntar o namorado alemão Matthew, ambos os filhos e a futura mãe do seu futuro neto.
O livro começa com uma promessa de um enredo misterioso e estimulante. Porém, o ritmo da narrativa torna-se cada vez mais cansativo e previsível.No final, nem o tom de humor cativante de Yrsa Sigurðardóttir consegue salvar o enredo.
Relativamente às personagens, com excepção do casal principal, desde os clientes e funcionários do hotel às pessoas que vivem na vizinham-se, todos parecem estar envolvidos numa aura de indiferença: as suas personalidade são isentas de características interessantes e o seu poder de atracão é mínimo, para não dizer inexistente.
Ao longo da história, no decorrer da investigação e procura pela resposta ao enigma, o leitor depara-se com eventos passados. Thora descobre a história de uma família que está ligada ao acontecimento que nos introduziu a obra. Quero manifestar o meu desagrado em relação à complexidade desnecessária deste fio condutor e a irrelevância de algumas situações descritas. O número excessivo de personagens e as fracas descrições das suas relações apenas contribuem para uma maior alheamento em relação ao livro.
O que mais me agradou, tal como no livro "O Último Ritual" foi a personalidade de Thora, a personagem principal, da sua família invulgar e da forma como todos se relacionam entre si. Os desafios domésticos da advogada e a sua relação amorosa com o bancário alemão - com quem comunica em Inglês - conferem ao romance uma atmosfera divertida. Contudo, mesmo neste detalhe, senti que a autora não desenvolveu o suficiente as personagens e várias ideias parecem ter sido apenas parcialmente postas em prática.
Os diálogos que, inicialmente, começam por ser escritos de uma forma perspicaz e dotados de observações engraçadas, acabam por se tornar maçadores e repetitivos. O mesmo acontece com as descrições.
A temática do nazismo é abordada tão superficialmente que me questiono acerca da sua contribuição para o enredo. O prólogo que prometia uma viagem por um passado obscuro revelou-se uma desilusão.
Apesar dos inúmeros suspeitos com quem Thora se depara ao longo da sua estadia no hotel, o desfecho revela-se muito pouco surpreendente. Os motivos do assassino são tão desinteressantes, que seria melhor que a autora islandesa os mantivesse apenas para si.
O ponto alto do livro "Ladrão de Almas" é o caso que Thora tem em mãos no inicio da narrativa: um casal deixou de receber a sua correspondência devido ao facto de a caixa do correio se encontrar demasiado próxima do chão, o que vai contra um regulamento particular da Islândia. A partir desta premissa poderia ser escrito um mistério bastante mais envolvente do que aquele que se segue e em que nada lhe está relacionado.
Podia vos dizer que estou ansiosa pela leitura do "Cinza e Poeira",que aguarda a sua vez na minha estante, na esperança de me ver envolvida num enredo de qualidade superior, mas estaria a mentir.