Apesar de se tratar de um livro interessante, não gostei particularmente do mesmo, talvez por me ter deixado com uma sensação de tristeza e desencanto, e por ter ficado com a ideia, errada ou não, de se tratar de uma história que não foi terminada.
O livro inicia-se com a necessidade de se descobrir o autor da morte do administrador de um lar de idosos, situado numa antiga fortaleza mandada construir pelos portugueses na altura do colonialismo, e que se destinava a ser uma prisão para insurretos, a qual se localizava junto a uma costa íngreme, rochosa e inacessível no sul de Moçambique, junto ao Oceano Índico, tendo para isso sido enviado como investigador pelas autoridades, um polícia honesto de Maputo, que chegou ao local transportado por um helicóptero.
Logo de início, a narração da história faz-me lembrar o realismo mágico de escritores como Gabriel Garcia Marquez, Isabel Allende, Laura Esquivel, entre outros, pois a realidade aparece misturada com um mundo imaginário e cheio de misticismo da cultura tradicional moçambicana, já que uma das personagens da história é um morto, enterrado junto de uma frangipani (árvore tropical), o qual foi um operário que trabalhou na construção da fortaleza ao serviço dos portugueses e que também foi assassinado, sendo que, por ordem de um animal feiticeiro, passou a viver dentro do corpo do polícia que, no prazo de sete dias, também iria ser assassinado, o que não chegou a suceder.
As personagens da história, os idosos que vivem no lar em condições de extrema solidão, de abandono pelos familiares, de pobreza, de fome, de falta de condições de higiene, de cuidados médicos, de violência levada a cabo pelo ex-administrador do lar, um homem duro, agressivo, desonesto, que utilizava as suas funções para traficar armas, bem como a enfermeira que cuida dos mesmos, contam histórias sobre as suas vidas onde a realidade, o misticismo e o imaginário se misturam e se confundem.
Mas no meio de um mundo agreste e sem esperança de um país, onde após a independência e o fim da violência da guerra civil, emerge uma realidade mais pacífica mas com grandes índices de corrupção e outras formas de criminalidade, também abordada no livro, os idosos encontram a paz e o lugar que tanto anseiam debaixo da frangipani, situada num local belo com vista para o mar, escolhendo, no entanto, para isso, morrer.