Beatlemania #1/2
No átrio, quase três mil adolescentes alinhavam-se junto às barreiras, respiravam contra o vidro, penduravam-se das barras e subiam os portões de seis metros de altura da plataforma.
- Graças a Deus que estes miúdos não podem votar - disse um jornalista quando a multidão entusiástica quase o levantou do chão.
Aí entre 1960/66, sem se conseguir muito bem explicar porquê ("há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia"), quatro miúdos pretensiosos, rebeldes e pouco dados à cultura erudita partiram corações, provocaram delírios, desmaios, frenesis (e muitas dores de cabeça). Michael Braun, criatura, também ela, relativamente mitológica, apanhou os Beatles no auge da fama e colou-se a eles durante os anos da Beatlemania, quando as suas idades rondavam os 20/23 anos. Resultou daí Love me do, a primeira biografia da banda que acompanha a sua digressão entre Inglaterra, França e Estados Unidos:
Durante a época natalícia, praticamente não havia uma família na Grã-Bretanha que permanecesse imune aos Beatles. O seu LP With The Beatles tocava num milhão de gramofones. As meias penduradas nas lareiras ostentavam fotografias dos Beatles e estavam cheias com perucas dos Beatles e oveiros dos Beatles. Debaixo das árvores de Natal, inúmeras T-shirts, bonecos, camisas de noite e fatos dos Beatles. As paredes dos quartos estavam forradas com murais fotográficos do grupo e, se isso não fosse possível, as raparigas erguiam altares no sótão feitos de fotografias. Um bailado em Londres tinha música baseada em canções de Lennon-McCartney e milhares de rapazes começavam a aprender a tocar guitarra. Os cortes de cabelo à Beatles estavam por todo o lado e o director de uma escola proibiu-os porque disse que fazia os rapazes parecerem idiotas. Um rapaz, confrontado com uma ordem para mudar de penteado ou sair da escola, foi-se embora.
Nos últimos dias do ano (1963), os Beatles atingiram o estatuto de instituição nacional.
A loucura, sabemos, foi grande, mas alguma coisa estes miúdos fizeram bem feita - nos anos 90, a sua música foi, para mim, uma companhia constante (vá, nem toda a gente tem a sorte de ser educada num modelo que valoriza de igual maneira um Live Aid e os Quatro Cabeleiras do Após-Calipso), e, aqui estamos, no século seguinte, ainda a reeditar e ler sobre uma banda de guedelhudos barulhentos dos anos 60 (ninguém ainda fazia ideia do que o verdadeiro barulho ou uma guedelha eram...).
De qualquer forma, este livro de Braun parece ser o derradeiro documento destes anos e eu não podia deixar de o comprar para oferecer. Felizmente, quando um livro cai nas estantes cá de casa passa a ser também propriedade minha e reclamei esse direito neste fim de semana.
A leitura acabou por confirmar as minhas suspeitas de que os adultos até que tinham razão: estes miúdos eram um grupinho de engraçadinhos irreverentes sem qualquer respeito pela etiqueta...
No palco, os Beatles cantaram várias canções para um público adulto respeitoso, embora reservado. Antes da última canção, um dos elementos do grupo, John Lennon, avançou para a frente do palco.
- Na nossa última canção - disse ele, gostaria de pedir a vossa ajuda. Aqueles que estão nos lugares baratos batam palmas. Os outros podem só chocalhar as jóias.
...ou pelas hierarquias:
Antes da recepção, os Beatles encontraram-se com o embaixador e com lady Ormsby Gore na residência da embaixada. Quando John lhes é apresentado, sir David diz:
-Olá, John.
-Não sou o John - diz John. Sou o Charlie. Aquele é que é o John - e aponta para George.
-Olá, John - diz o embaixador, virando-se para George.
-Não sou o John - diz George. Sou o Frank. Aquele é que é o John - e aponta para Paul.
-Oh, credo! diz o embaixador. Nunca irei acertar. A minha mulher é muito melhor a fixar nomes.
Mas em que medida é que isso os limitava? Talvez o oposto seja a mais provável. Até porque, pelo retrato de Braun, a loucura não se estendia assim tanto para trás da cortina. Do lado do público o furor parecia não diminuir, mas nos bastidores o sucesso parecia fomentar reflexões estranhamente maduras e desproporcionadas, ou não.
Isto não é o mundo do espectáculo. É algo mais. Isto é diferente de tudo o que alguém possa imaginar. Não se segue em frente depois disto. Faz-se isto e depois acaba-se.
(Lennon)
Num misto de relato jornalístico na primeira pessoa, recortes de revistas e cartas de fãs, este Love me do relata a loucura do que foi a primeira tour na companhia destes quatro ídolos recentemente entrados na idade adulta:
Um público constituído principalmente por raparigas adolescentes tinha sido convidado a assistir ao ensaio para o programa dessa noite, bem como à gravação de duas canções adicionais para o programa daí a três semanas. Mantiveram-se razoavelmente silenciosas até a bateria de Ringo ser levada para o palco. Nessa altura, começaram aos gritos. Antes de os Beatles aparecerem, [Ed] Sullivan subiu ao palco e pediu ao público que desse a sua atenção a todos os outros excelentes intérpretes que iriam actuar para além dos Beatles, porque se não o fizessem, mandava chamar um barbeiro. Depois disse:
-A nossa cidade... Na verdade, o nosso país... nunca viu nada como estes quatro jovens de Liverpool. Senhoras e senhores, os Beatles!
O que aconteceu a seguir ao público levou um escritor do New York Herald-Tribune no dia seguinte a estabelecer uma comparação com «aquele terrível guincho que o comboio BMT Astoria faz ao virar para leste no cruzamento da Rua 59 com a Sétima Avenida».
[...]
De imediato, a rapariga soltou um grito frenético. As duas raparigas que estavam com ela começaram a gritar. Depois, sucessivamente, as raparigas nos bancos directamente atrás delas começaram também a gritar. Num instante, todo o público de 8092 pessoas estava de pé, a gritar, a berrar, a assobiar e a bater palmas.
À medida que o ruído subia em crescendo, os Beatles, escoltados por 12 polícias, entravam em palco. Quando começaram a cantar, um dos polícias junto à primeira fila tirou duas balas de calibre 38 do cinto e enfiou-as nos ouvidos. Não há nenhuma regra contra a utilização de flashes no Coliseu, pelo que, do cimo do recinto, a atmosfera parecia uma trovoada com os gritos e as luzes a piscar.
No, I never beard them at all... cantava Paul e, na Secção 46, a cerca de um quilómetro e meio do palco, as pessoas ouvian os seus transistores e gritavam.
Nenhum deste material se debruça sobre o processo criativo, o reportório ou as relações de amizade entre os membros da banda. O trabalho de Braun é exclusivamente dedicado a um fenómeno cultural, aqui narrado na primeira pessoa, e sem a profundidade crítica que o distanciamento temporal hoje nos permite. Daí o seu valor.
Podemos hoje debater o que levou milhares de jovens (e menos jovens), anónimos e famosos (de Janet Leigh a David Niven) a uma quase insana obsessão - ou, no mínimo dos mínimos, a ceder a uma curiosidade inesperada -, podemos hoje perguntar-nos que relações se estabeleciam nos bastidores, como e quem operava os mecanismos ocultos, mas Braun, no momento, captura sob a forma de instantâneos visuais alguns dos instantes cruciais da Beatlemania e uma série de pormenores que nos escapariam de outro modo. Timidez, ousadia, vícios, lampejos de brilhantismo, piadas sem graça, inseguranças pessoais e tudo o mais que habita um grupo de jovens adultos empurrados subitamente para a ribalta e para os meandros claustrofóbicos de uma máquina de fazer dinheiro. Para quem lá não esteve, não deve haver muito melhor.
Paul: Pergunta ao Ringo de que tipo de música é que ele gosta.
Eu: Ringo, de que tipo de música é que gostas?
Ringo: Gosto de todo o tipo de música. Especialmente da do Shakespeare.