Fernando Pessoa… é tudo que diz ser e nada disso ao mesmo tempo. É tão volátil, tão flexível e por vezes tão estático que, propriamente, se diz contraditório.
Esta forma de ser e de estar fá-lo apetecível e adequado a qualquer pessoa que o leia; quanto mais não seja num ínfimo minuto de uma vida, em que se vive porque simplesmente se está vivo, ou que se vive porque simplesmente se espera pela morte. São duas formas diferentes de se ser pessoa, mas que não se constituem absolutamente incompatíveis: tudo muda de um momento para o outro, as pessoas mudam, os estados d’alma mudam, os espaços mudam, a vida vivida muda…
Por tudo isto é que Fernando Pessoa, na sua complexidade poética, consegue (querer) ser tanto não sendo nada, e, ainda, contraria e simultaneamente, consegue (querer) ser o nada sendo tudo o que (não) sente e (não) diz. Ora aqui está a dor do poeta, sentida ou fingida, é uma dor poética que, por ser tão natural, é confusa e dissolve-se em si mesma.
Concordando ou não, dependendo das pessoas e das ocasiões e situações de vida, penso que ninguém será capaz de ler Fernando Pessoa e dizer que nunca se sentiu assim. E é nesse ínfimo momento ou minuto de que falei que cada pessoa se encontra com o próprio Fernando Pessoa ou com um dos seus heterónimos porque, sendo todos tão diferentes, todos eles passam por um sentido de vida que se pode chamar de «não sentido com sentido» ou «sentido sem sentido». Fernando Pessoa é só lê-lo e senti-lo, ou lê-lo e pensá-lo; cada qual tem opção de escolha. Assim será belo ou feio, interessante ou desinteressante, coerente na sua incoerência ou incoerente na sua coerência…
Bem, acho que estou mais confuso ainda que a poesia heterónima de Pessoa. Assim sendo, calo-me e deixo que cada leitor retire desta leitura as suas próprias (in)conclusões. A mim só me compete recomendar esta antologia, embora falte muito material poético que não permita conhecer os heterónimos na sua plenitude, deixando captar uma boa dose das suas qualidades de poeta. Este não de certo o melhor livro para conhecer Fernando Pessoa com mais profundidade; faz-se bom porque é uma constituição agradável (mas ainda bastante incompleta) de Fernando Pessoa.
Sem querer ser chato, mas sendo-o, porque tenho essa liberdade, deixo aqui alguns poemas e algumas partes de poemas que mais me atraíram nesta leitura:
(pp. 92)
“Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.”
(pp. 172)
"O que falhei deveras não tem esperança nenhuma,
Em sistema metafísico nenhum,
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?”
(pp. 205)
“Tanto destino diverso que se pode dar à vida,
Á vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!
Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente.
A fraternidade afinal não é uma ideia revolucionária.
É uma coisa que a gente aprende pela vida fora,
onde tem que tolerar tudo,
E passa a achar graça ao que tem que tolerar,
E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!”
(pp. 96)
“Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.”
(pp. 189)
“Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.
Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim!”
(pp. 221)
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."