Para que possa fazer uma análise justa e meritória deste livro e do seu autor, só me ocorre dizer: hilariamente brilhante!!
Iniciei a abordagem à obra de Arto Paasiinna através do não menos notável "As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi" que me deu uma perspetiva extraordinariamente engraçada sobre a cultura e sociedade finlandesas mas devo confessar que "Um Aprazível Suicídio em Grupo" ultrapassou todas as legítimas expectativas que criei à volta do autor nórdico. Ao abeirar-se de um tema tabu para muitos, como o suicídio, Paasilinna fá-lo através do humor, da narrativa descontraída que a todos nos envolve trazendo momentos únicos de pura e plena hilaridade!
"Na vida a questão mais importante é a morte, e nem essa tem muita importância". Onde foi que já lemos este pensamento? Se a memória não me falha, foi justamente no último livro que li "A Trégua" de Mário Benedetti mas aqui esta expressão é levada nas suas mais profundas e substanciais consequências. Basicamente, o livro conta a história de um grupo de finlandeses que decidem por termo à vida através de um suicídio coletivo. Até poderíamos achar a ideia lúgubre, macabra, funesta, descabida, se não fosse a construção formal que Paasilinna utiliza para a abordar. E o insólito reside justamente na maneira como Onni Rellonem, um empresário falido e Hermanni Kemppainen, comandante do exército na reserva, ambos suicidas frustrados, decidem por em prática um projeto que reunirá todos os infelizes finlandeses rumo a uma morte nobre, digna e coletiva. Os resultados são, no mínimo, surpreendentes, para o duo organizador e até para nós mesmos. O desiderato comum do suicídio levará os bem (ou mal) intencionados, que se congregaram numa espécie de confraria, os Suicidas Anónimos, num périplo dentro de um autocarro de luxo denominado "A Flecha da Morte", propriedade de um dos suicidários, desde Pori, na Finlândia, até ao cabo Norte, atravessando a Europa, até Portugal, ao Cabo de S. Vicente, onde terminaria a viagem num mergulho pela falésia, transporte e ocupantes juntos, concretizando assim, a vontade de todos (bem, nem todos, alguns só estavam ali para registar o momento).
Mas apesar de toda a propensão humorística da prosa (gargalhei em várias alturas), há ali uma mensagem mais ou menos subreptícia que não devemos descurar e que, obviamente, não irei revelar. :)
Este livro não vale cinco estrelas, vale dez, vinte, pelo que nos predispõe a uma leitura franca mas sensível, carregada de humor mas com momentos pungentes e, fundamentalmente, pelo o que nos ensina sobre a beleza, a cumplicidade e as alegrias da vida