Jeff Goodell - O Calor é que te vai Matar
E tudo resulta num aumento da temperatura no planeta. Coloquem as variáveis que entenderem, deem às constantes o significado e valor que quiserem que a solução da equação, o futuro da humanidade será sempre com um aumento da temperatura no planeta. Neste livro Jeff Goodell discorre sobre as causas do aumento da temperatura média do planeta (como se muitas houvessem), sobre os vários cenários possíveis resultantes da subida, mas também sobre as consequências e inevitabilidades que estas alterações vai ter no nosso modo de vida. É uma equação com um resultado sempre negativo. Atribua a importância e valor que quiser aos vários mecanismos de regulação ou de feedback que o resultado final será sempre negativo.
O nosso modo de vida, o bem-estar e crescimento económico e social que atingimos com a utilização da energia que retiramos dos combustíveis fósseis colocam-nos hoje num dilema de solução impossível. A utilização massiva dos combustíveis fósseis permitiu um crescimento económico e populacional que hoje sabemos ser insustentável. Todo o crescimento ocorrido após a revolução industrial converge para uma consequência comum, um aumento dos níveis de CO2 e com este, num aumento da temperatura média do planeta e nas variações extremas que este se faz acompanhar. A nossa civilização, o nosso modo de vida, o nosso crescimento e méritos tecnológicos, as nossas políticas, a nossa democracia e demografia assenta na forma como utilizamos a energia. Todas estas causas e consequências estão de tal forma interligadas que não é possível interferir numa sem desmoronar as restantes. É por isso que vemos muitos activistas climáticos a tomarem atitudes que nos parecem ridículas e despropositadas, mas a análise que fazem da realidade não está muito longe da verdade. E custa reconhecê-lo! Atitudes como as assumidas por organizações como Extinction Rebellion, Fridays for Future, Greenpeace, Earth Liberation Front, etc, podem-nos parecer demasiado radicais, mas temos de reconhecer que todas esta “tretas” da “sustentabilidade” sāo apenas manifestações de “greenwashing” que outro efeito não têm que aligeirar as culpas do produtivismo e prodagalização. A nossa sociedade assenta em pressupostos sem sustentabilidade e quanto mais depressa ruir, mais chance temos de nos erguer. É isso que estes activistas acreditam e por isso que lutam.
Uma sociedade que mais depressa queima livros enquanto continua tolerante com a queima de combustíveis fósseis, é uma sociedade que continua doente, mesmo quando aparenta pretender alguma regeneração.
Neste livro, Jeff Goodell diz-nos que o nosso actual modo de vida não é sustentável, e já a curto prazo. Em 2023, tivemos uma sucessão de anos progressivamente, os mais quentes de sempre e que culminaram num 2023, que bateu todos os records com uma temperatura média 1,48ºc acima da linha pré industrial e uma concentração de CO2 de 428 ppm, bem acima dos 350 ppm considerados de risco calculado. Se nos fixarmos no período Permiano, um período geológico que durou cerca de 50 milhões de anos e que pela violenta actividade vulcânica levou à extinção de mais de 80% da vida na terra num período onde as temperaturas médias subiram cerca de 15ºC e a temperatura da água atingiu os 40ºC, foi um período cuja extinção decorreu ao longo de 16 mil anos e o planeta levou dez milhões de anos a recuperar. Nada acontece à nossa escala temporal e é por isso que temos tanta dificuldade em acordar para a realidade. As alterações vão tendo surtos, pontos de agravamento, mas serão fenómenos que nos vamos habituar com já nos habituamos às ondas de calor, à morte antecipada dos mais frágeis, aos êxodos de humanos, às extinções em massa, à perda de biodiversidade, às guerras e as pragas. Vemo-las como agressividades e desastres distantes, que, para já não nos afetam! Mas será assim, e por quanto tempo? Até quando a nossa zona de “Goldilocks” é uma zona de conforto separada por uma linha imaginária de desigualdade térmica que separa os em conforto dos que sofrem, os felizardos dos amaldiçoados, até quando essa zona se manterá?
Mas enquanto a transição é gradual e não nos assusta, estamos como numa casa a arder mas em que o incendio ainda parece distante. Entretanto nada fazemos, continuamos o consumo de combustíveis fósseis e para já fazemos recair sobre os menos responsáveis as consequências das nossas opções. Lentamente vamos caminhando para um abismo, lentamente vamos transformando a nossa casa num lugar tão inóspito como vénus.
A catástrofe parece avizinhar-se e já há consequências que hoje vivemos e são atribuíveis ao aumento da temperatura do planeta.
Goodell explica-nos os mecanismos meteorológicos subjacentes aos desvios climáticos que entraram no léxico como “alterações climáticas” e para as quais têm o descaramento de dizer que nos devemos prepara. Como é que alguém se prepara para a morte quando não faz o que seguramente a poderia evitar. É só hipocrisia. Bom, mas regressemos ao livro, Jeff Goodell diz-nos que cada vez mais vamos estar sujeitos a alterações climáticas extremas eminentemente aleatórias e imprevisíveis, e de que forma estes eventos podem ter impacto em latitudes que considerávamos seguras e improváveis. A observação destas consequências não são o resultado de uma previsão ficcionada, mas o relato de muitas catástrofes que ocorreram com frequência assustadoramente crescente desde que virámos o marco deste milénio.
Numa prosa jornalística, o autor relata-nos inúmeras vivências e personagens vítimas da vertigem do crescimento e “da vida melhor”, e aponta-nos para todo um conjunto de consequências (subida dos níveis das águas; perda de biodiversidade; esterilização dos oceanos; redução das produções agrícolas; aumento do território desértico; migrações de humanos; migrações de espécies; catástrofes meteorológicas; doenças; territórios impróprios para a vida humana, etc) cuja combinação se resume a uma equação cuja única solução possível se encontra expressa no título do livro – O Calor é que te vai matar.