Eu detestei esse livro. Provavelmente essa resenha vai ter algum spoiler mas eu não vou marcar a opção de spoiler do goodreads porque sinceramente existem coisas que eu vou comentar que não são detalhes do enredo em si, mas sim problemáticas que devem ser evitadas em livros em geral. Enfim, fica o aviso.
"Bom Dia, Verônica" conta a história de uma secretária de polícia civil que, num dia, vê uma mulher cometer suicídio dentro da delegacia. A partir disso ela resolve, por conta própria, investigar o que teria levado a mulher a isso e acaba se deparando também com Janete, a esposa de um serial killer que mata mulheres de um jeito sórdido e obriga que a esposa presencie.
Enfim, esse é o resumo básico do enredo. De cara acho que dá pra debater alguns assuntos: o choque nos livros de terror/horror/suspense. Muito se discute como essas obras abordam pontos delicados como estupro, feminicídio, etc. Concordo que a ficção pode (e deve) retratar a realidade, por pior que ela seja, mas todo livro tem a sua função e tudo dentro dele deve ter uma função. Existe uma linha tênue entre você retratar questões problemáticas porque você quer expor e criticar isso de certa maneira, e você retratar essas questões puramente por choque. Vai muito da percepção do leitor? Talvez. Mas num país extremamente machista e misógino, com índices altos de violência contra a mulher e feminicídio, escrever um livro policial que tenha cenas gráficas sem propósito algum, para além de desconfortável, é um desserviço na minha opinião. São cenas colocadas de forma que não informam, não fazem refletir e não buscam abordar o problema. Existem muitos debates sobre essa retratação da violência e como ela pode ser problemática, principalmente quando tratamos da violência cometida contra grupos minoritários.
E, pra além das questões problemáticas machistas dos crimes do livro, existe uma forma de retrato da protagonista feminina feita de um jeito péssimo. Parece a forma mais caricata de representar uma mulher. É sério, numa das cenas em que a investigadora fica feliz por encontrar uma pista de um crime envolvendo problemáticas femininas, os autores colocam logo depois ela comemorando fazendo um "sexo gostoso" com o marido (que estava feliz com a esposa mais magra e loira). Tipo, é sério?
E existem muitas outras cenas assim, principalmente quando falam sobre prazer sexual (às vezes em momentos super descabidos sabe!). Eu até imagino que o intuito tenha sido criar personagens detestáveis (parabéns, conseguiram) mas cara, pra mim é super errado você colocar alguns determinados pensamentos/descrições/cenas em meio a um assunto tão delicado. Não sei, não me agrada, não combina. Não quero puritanismo ou personagens perfeitas, não mesmo. Mas quero bom senso e penso na função social que algumas histórias carregam. E eram tantos trechos "estranhos" (pra não dizer problemáticos) sobre a representação das mulheres que simplesmente não dá pra lembrar de todos pra elencar, mas em muitos momentos era repulsivo (e de novo, a discussão: vale a pena o choque pelo choque?)
E, pra além disso, o livro tem passagens racistas. Não só passagens, o plot também carrega. O serial killer é descendente de indígenas e sua motivação para matar está associada direto a isso. Estamos no Brasil, um país colonizado no qual os povos indígenas sofrem diariamente discriminações e lutam pelo seu reconhecimento. Um livro que coloca um vilão dessa maneira, e ainda joga o assunto de crianças com deficiência que seriam mortas por povos indígenas, é um desserviço.
Pra além disso, parece que se recusam a descrever a pele dos personagens pra além de pele "morena" e, coincidentemente, muitos personagens de pele "morena" são expostos a violência ou são agressores.
A palavra negra é utilizada de forma problemática quando a protagonista fala "quinta-feira negra" por exemplo.
E pra completar a parte racista, eu vou destacar o trecho abaixo (contexto no livro: clímax da história, várias coisas horríveis acontecendo, a protagonista investigadora estava buscando pistas)
"O frentista que veio me atender era daqueles que a gente não acredita: a pele morena, os bravos musculosos de academia, sujos de graxa, saindo pelo macacão do uniforme. Quando ele se debruçou na janela para perguntar quanto era para colocar, quase me devorou com os olhos verdes incrustrados no rosto de traços rústicos - o típico cafuçu que não serve para casar, mas que é ótimo para trocar o óleo." Páginas 214/215. Depois disso, ela fala sobre como uma amiga classifica esses homens "jovens da periferia, prestadores de serviço, de corpo gostoso, sem modos, desletrados, mas com pegada forte" a bebidas alcoólicas e eles fazem sexo.
Você pode até tentar argumentar dizendo que é pra compor a personalidade detestável da personagem mas esse trecho racista não agrega NADA a ela.
Enfim, não recomendo esse livro. A trama, pra além de problemática, achei fraca e também achei a escrita não muito boa, passagens sem sentido e que não casam com o resto do texto e o enredo se perde muitas vezes.