Entender o erro humano não como a causa de acidentes, mas como reflexo de falhas e problemas sistêmicos, tecnológicos e organizacionais, é essa a proposta deste livro. É um debate relevante para profissionais de qualquer área, especialmente aqueles que lutam para entender o que houve de errado visando evitar acidentes futuros. Apontar o dedo para alguém, achar culpados, dizer que foi erro humano, não basta. O erro é o início da investigação, e não o seu fim.
Se, por um lado, este livro é valioso para profissionais das mais diferentes áreas, por outro o autor se foca em exemplos ligados ao campo da aviação, e isso pode ser um problema. Não que o campo da aviação não seja rico em fatores humanos, investigação de acidentes e segurança, muito pelo contrário, mas sim porque pode ser difícil explorar com profundidade os exemplos reais apresentados ao longo do texto. O acidente com a aeronave da AA na Colômbia, por exemplo, é extremamente rico e merecia uma descrição e debate muito mais longos do que aquele apresentado por Dekker. Para quem nunca leu sobre este evento, tenho receio que a breve descrição apresentada no livro não seja suficiente para uma reflexão real.
O livro está dividido em duas partes, na primeira o autor defende que o erro humano na verdade é apenas uma reação tomada a partir do contexto existente naquele momento, das pressões existentes, das informações recebidas, do foco dado, das falhas organizacionais e tecnológicas, entre muitos outros fatores. A ação fazia sentido no contexto daquela pessoa, esse é o ponto principal. Ou seja, o erro não ocorreu em função de uma ação sem sentido tomada por um humano sem inteligência. Cabe ao investigador conseguir entender este contexto de decisão. A segunda parte do livro é mais focada em como um investigador pode trabalhar neste sentido. Enquanto a primeira parte é rica em exemplos reais, a segunda parte é mais árida e direta, com o autor se preocupando mais em criar uma lista de passos que o investigador pode adotar. Infelizmente faltam exemplos de investigações reais onde essa técnica foi aplicada, trechos de relatórios onde se possa ver como isso aconteceu.
Seja como for, a ideia defendida pelo autor não é mais nova ou inédita nos dias de hoje, o que não torna o livro menos importante - muito pelo contrário. O que talvez falte neste livro é discutir os momentos nos quais existe, sim, a culpa. Ou quem cometeu o erro tem culpa e, dentro de uma cultura justa, deve ser punido. Outros livros exploram a aplicação dos diagramas de culpabilidade e a construção de uma cultura justa nas organizações. Dizer que tudo é culpa do erro humano não ajuda na segurança, mas também dizer que nunca existe a culpa é ignorar inúmeros casos reais.